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Ciência

Revista Nature volta atrás em estudo que apontava benefícios do ChatGPT na educação: ‘discrepâncias na análise’

Estudo analisava 51 pesquisas diferentes e apontava que a ferramenta de IA tinha “impacto positivo significativo” no campo educacional

homem em frente a computador com chatgpt na tela

Estudo que foi retratado pela revista Nature apontava benefícios do ChatGPT na educação Foto: Creative Commons




Um estudo que listava os benefícios do ChatGPT no ambiente educacional recebeu uma retratação da revista científica Nature quase um ano após ser publicado.

O efeito do ChatGPT no desempenho de aprendizagem dos alunos, na percepção da aprendizagem e no pensamento de ordem superior: insights de uma meta-análise” analisava outras pesquisas com foco na Inteligência Artificial para conferir se elas tinham indicadores em comum.

A conclusão dos pesquisadores foi de que a IA era positiva e a publicação do estudo logo causou repercussão, gerando milhares de acessos e dezenas de citações em outras pesquisas científicas.

Apesar de não invalidar totalmente o artigo, a retratação da Nature aparece como um grande “passo atrás” na análise científica. Ela levanta bandeiras vermelhas e aponta que algum erro ou imprecisão não torna mais aquela pesquisa qualificada aos olhos da revista.

Retratação aconteceu após quase um ano

A pesquisa é de coautoria de Jin Wang e Wenxiang Fan, ambos da Universidade Normal de Hangzhou, na China. Ela constava na revista de Comunicações de Humanidades e Ciências Sociais.

Publicado pela Nature em maio de 2025, o artigo ganhou o selo de “retratado” em 22 de abril de 2026. O editor explicou a retratação em um texto publicado na quarta-feira (6).

Antes da retratação acontecer, a repercussão do texto foi grande. Em dezembro de 2025, a revista Forbes mencionou o estudo na lista de “oito pesquisas sobre IA que todo educador deveria ler”.

Até esta quinta-feira (7), o estudo sobre o ChatGPT foi acessado mais de 495 mil vezes e citado em 270 artigos, de acordo com um balanço da própria Nature.

O que dizia a análise

O estudo retratado pela revista funcionava como uma metanálise. Ou seja: ele concentrava uma série de pesquisas (neste caso, 51) de um mesmo tema para analisar se há um consenso entre elas. As pesquisas analisadas aconteceram entre 2022 e 2025 e focavam no ChatGPT no ambiente educacional.

De acordo com a análise retratada, o ChatGPT tem um “impacto positivo significativo” no desempenho acadêmico dos estudantes. Além disso, ela tem “influência moderada” na percepção e no pensamento, principalmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

O estudo invalidado pela Nature também listava que o bot aumentava a motivação e o engajamento dos usuários. Além disso, a metanálise citava que os alunos podiam “se envolver mais profundamente” com o conteúdo diante da mediação do chat.

A pesquisa fazia, ainda, uma diferenciação do benefício de acordo com a fase acadêmica do usuário.

Para os que estavam na universidade, o maior benefício seria o auxílio na escrita acadêmica e a compreensão de conceitos complexos. No ensino médio, por sua vez, a ajuda seria na “resolução de problemas difíceis e na revisão de conhecimento”.

O que significa uma retratação

Na prática, quando a revista marca um artigo como “retratado”, ela aponta que o estudo em questão não é mais confiável para ela.

A Nature cita como razão geral para retratar um artigo o “comprometimento da integridade do trabalho”. Este comprometimento pode acontecer por erros na condução, na análise ou nos relatos do estudo, assim como por violações éticas.

No caso da pesquisa sobre o ChatGPT, o editor não citou nenhum problema específico. Ele disse, apenas, que teve “preocupações com discrepâncias na metanálise”.

“Essas questões comprometem a confiança que o editor pode depositar na validade da análise e das conclusões daí resultantes”.

Apesar de retratar o artigo, o PDF dele segue público, como previsto pela própria Nature. De acordo com a revista, os autores do artigo não quiseram comentar a retratação.

Críticas feitas antes da retratação

Apesar da atenção que o artigo recebeu, alguns pesquisadores levantaram questionamentos sobre ele pouco após a chancela da Nature. Uma das principais críticas foi de Ikka Tuomi, cientista-chefe da Meaning Processing Ltd.

Tuomi usou as redes sociais para apontar que mais de 30 dos grupos experimentais dos estudos tinham menos de 35 alunos.

O número baixo é, para ele, um sinal de uma “régua baixa” para selecionar as pesquisas. “Eles nem sequer mencionam se os estudos analisados ​​foram revisados ​​por pares (o que, obviamente, não diz muito hoje em dia)”, afirmou, em publicação no LinkedIn em junho de 2025.

Já o professor Ben Williamson, da Universidade de Edimburgo, disse ao site de tecnologia Ars Technica que os métodos, populações e amostras diferentes invalidam o estudo sobre o ChatGPT na Nature.

“Em alguns casos, parece que sintetizaram estudos de qualidade muito baixa ou misturaram resultados de estudos que simplesmente não podem ser comparados com precisão”, disse.


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