Quando foi eleito papa, em 8 de maio de 2025, Robert Prevost, que adotou o nome Leão XIV, saudou a multidão com as palavras de Cristo a seus discípulos: “A paz esteja convosco”.
A paz se tornou um tema central do pontificado do primeiro papa americano. Nos últimos meses, ao se opor à guerra no Oriente Médio, Leão disse que o “mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”.
Ele liderou uma “Vigília de Oração pela Paz” em 11 de abril de 2026, na qual criticou a forma como o nome de Deus tem sido usado para justificar a guerra e a morte.
Ele também afirmou que a “ação militar não criará espaço para a liberdade”, porque a verdadeira liberdade só pode vir do diálogo paciente.
Paz e dignidade humana no centro do pontificado
Além de seus apelos pela paz, Leão tem dado uma ênfase igualmente clara à dignidade humana. Em uma era em que o poder está concentrado nas mãos de poucos, o papa tem conclamado os cristãos a fazer uma “escolha radical em favor dos mais fracos”.
Os avanços tecnológicos, especialmente a ascensão da inteligência artificial, também colocam a dignidade humana em risco ao ameaçarem substituir a “criatividade, a imaginação e o intelecto humanos”, alertou ele.
Na visão como estudioso do catolicismo global, os temas da paz e da dignidade humana são fundamentais para compreender o primeiro ano de Leão como o 267º líder da Igreja Católica.
O apelo de Leão XIV por uma paz “desarmada”
Durante seu discurso para o 59º Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro de 2026, Leão retomou comentários feitos após sua eleição ao dizer que o mundo deveria olhar para Jesus Cristo como “a nossa paz”.
Ele pediu uma “paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”, contrapondo a paz construída sobre a força militar à paz construída sobre o amor.
Uma tradição de condenação à guerra
Ao defender a paz, Leão ecoa seus antecessores. O Papa Francisco convidou os presidentes Shimon Peres, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, a rezar pela paz em 2014.
Bento XVI condenou o “massacre inútil da guerra” ao recordar a condenação da Primeira Guerra Mundial feita por Bento XV quase 100 anos antes.
O Papa João Paulo II também afirmou que a guerra deveria fazer “parte do passado trágico da humanidade” quando visitou Coventry, na Inglaterra, cidade devastada durante a Segunda Guerra Mundial.
Gaza, Irã e o embate com Trump
Leão criticou especificamente a guerra em Gaza ao rejeitar a “punição coletiva” e o “deslocamento forçado” impostos aos palestinos depois dos ataques do Hamas contra israelenses em 7 de outubro de 2023.
Embora repita condenações à guerra feitas por outros papas, Leão foi arrastado para um conflito sem precedentes com um presidente dos Estados Unidos. Ao criticar a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, o papa condenou a perda de vidas e o fracasso das negociações.
Em resposta, o presidente Donald Trump chamou o papa de “terrível para a política externa”.
Por sua vez, Leão afirmou que não olha para a política pela “mesma perspectiva” do presidente americano e que suas palavras não devem ser interpretadas como um ataque pessoal.
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Guerra justa e oposição à guerra moderna
A Igreja Católica tem uma tradição de “teoria da guerra justa”, segundo a qual uma guerra pode ser travada de forma ética.
O vice-presidente JD Vance afirmou que o papa está ignorando essa tradição. Depois da Segunda Guerra Mundial, no entanto, a Igreja Católica declarou sua oposição à guerra de forma clara e consistente, já que a guerra moderna é extremamente destrutiva.
Em resposta à violência contínua entre países e dentro deles, Leão tem pedido diálogo e respeito ao direito humanitário.
Sua ênfase nos direitos humanos afirma a dignidade dada por Deus a todas as pessoas, especialmente àquelas que a sociedade descartou.
O que Leão XIV herdou de seus antecessores
A dignidade humana foi um tema importante entre os papas que vieram antes de Leão. João Paulo II falou sobre a dignidade dos não nascidos e dos idosos em sua encíclica de 1995, The Gospel of Life (O Evangelho da Vida).
Bento XVI destacou que cada ser humano tem dignidade porque é feito à imagem de Deus. Francisco chamou atenção para a “cultura do descarte”, que ignora os pobres.
Leão reiterou todos esses temas em diferentes contextos.
De modo geral, porém, Leão segue mais claramente os ensinamentos de Francisco sobre dignidade humana e os aplica de forma mais específica às crises internacionais em curso.
A visão de um papa ligado ao Sul Global
Ele falou sobre os desafios aos direitos humanos e à dignidade em conflitos em muitas regiões do mundo: Ucrânia, Venezuela, região dos Grandes Lagos na África, mar do Caribe e Mianmar.
Como missionário, professor e bispo por mais de duas décadas no Peru, a perspectiva de Leão é moldada por sua compreensão dos problemas enfrentados pelo Sul Global e de como eles se relacionam com dinâmicas políticas e econômicas mais amplas.
Migrantes, refugiados e pobres
Durante seu primeiro ano de papado, ele dedicou atenção constante aos desafios enfrentados por migrantes e pobres.
Após sua viagem à África em abril de 2026, ele declarou que migrantes e refugiados são “tratados pior do que… animais de estimação ou animais”.
Seu foco na migração também se reflete na nomeação de Evelio Menjivar-Ayala — ex-migrante sem documentação — como bispo da diocese de Wheeling-Charleston, na Virgínia Ocidental.
Em sua exortação apostólica de 4 de outubro de 2025, Dilexi Te — “Eu te amei” —, Leão afirma que, “em cada migrante rejeitado, é Cristo quem bate à porta da comunidade”.
Usando as palavras de Francisco, Leão descreve a missão da Igreja Católica em relação aos migrantes como “acolher, proteger, promover e integrar”.
O sentido social de Dilexi Te
O foco principal de Dilexi Te são as condições enfrentadas pelos pobres. Ao criticar a busca por riqueza a “qualquer custo”, Leão defende uma mudança cultural que elimine os aspectos sociais e econômicos da pobreza.
Ao apresentar esse argumento, Leão identifica Jesus como o “Messias pobre”, que tem um amor especial por aqueles rejeitados pelo mundo.
Os pobres têm dignidade, observa o papa, precisamente porque mostram à sociedade o rosto de Jesus.
Inteligência artificial e dignidade humana
Uma preocupação emergente para Leão é a forma como os avanços da inteligência artificial também se relacionam com a paz e a dignidade humana.
O papa afirmou que não é contra o progresso tecnológico que contribui para o desenvolvimento humano.
Mas, ao mesmo tempo, argumenta que a sociedade deve estar atenta à forma como a tecnologia pode reduzir a responsabilidade humana e a verdadeira intimidade entre as pessoas.
Por exemplo, Leão observou que os algoritmos das redes sociais criam “bolhas de consenso fácil e indignação fácil”, que impedem o diálogo autêntico.
A paz também passa pela vida cotidiana
Para Leão, a luta pela paz e pela dignidade humana não é apenas uma questão de guerra ou de sistemas econômicos.
Ela também é determinada pela forma como as pessoas conduzem sua vida cotidiana em meio a tecnologias cada vez mais poderosas.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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