Israel se classificou para a final do Eurovision Song Contest 2026 em uma noite marcada por protestos contra a presença do país no festival. Durante a primeira semifinal, realizada na terça-feira (12), em Viena, gritos de “parem o genocídio” foram ouvidos na plateia durante a apresentação do representante israelense, Noam Bettan.
A manifestação ampliou a tensão em torno da participação de Israel no concurso musical organizado pela União Europeia de Radiodifusão (EBU). Cinco países — Espanha, Irlanda, Holanda, Eslovênia e Islândia — decidiram boicotar a edição deste ano em protesto contra a manutenção do país entre os competidores, em meio à guerra na Faixa de Gaza.
Houve também contestação de vários países sobre a votação online de 2025, vencida por Israel, e a organização do concurso mudou as regras este ano para evitar o risco de interferências.
Embora se apresente oficialmente como um evento “apolítico”, o Eurovision voltou a expor como uma competição de música também pode funcionar como vitrine diplomática.
Como a EBU reúne emissoras públicas de diferentes países, decisões sobre participar, boicotar ou transmitir o festival acabam refletindo, direta ou indiretamente, posições políticas nacionais.
A Anistia Internacional divulgou uma nota na segunda-feira (11) afirmando que “a não suspensão de Israel do Eurovision, uma vez que [o país] continua a cometer genocídio em Gaza, ocupação ilegal e apartheid contra os palestinos, é um ato de covardia e duplos padrões”.
Protesto e espectadores removidos
Com 35 participantes, o Eurovision 2026 tem o menor número de concorrentes desde 2003.
A contestação a Israel apareceu principalmente na plateia quando o cantor israelense se apresentou com a canção Michelle, ficando entre os dez classificados da primeira semifinal para a grande final de sábado.
Em um recorte da transmissão da TVB (Israel Broadcasting Corporation) divulgado nas redes sociais é possível ouvir a frase “parem o genocídio” ao menos cinco vezes. Ao mesmo tempo, bandeiras de Israel também foram vistas no meio do público.
Perfect vocals. Well done Noam Betan!
Israel Eurovision contestant — he moved on to the next round. pic.twitter.com/0vPLlq12va
— Marina Medvin 🇺🇸 (@MarinaMedvin) May 12, 2026
A organização do evento retirou ao menos dois manifestantes do local. Um deles tinha os dizeres “free Palestine” (liberte a Palestina) escrito no corpo. Além disso, ao menos uma bandeira da palestina apareceu no meio da audiência.
🇮🇱A protester against Israel was arrested inside the arena during Israel performance pic.twitter.com/m8f7bCvdGT
— Eurovision News (@EurovisionNewZ) May 12, 2026
Segurança reforçada em Viena
Além de Israel, também foram classificados a Grécia, Finlândia (apontada como favorita), Bélgica, Suécia, Moldávia, Sérvia, Croácia, Lituânia e Polônia.
Com a grande final marcada para o sábado (16), a capital da Áustria reforçou a segurança com um plano de mais de 400 páginas.
Entre as medidas para esta semana estão a instalação de detectores de metais, a presença de cães farejadores e uma política de proibição de malas. Até mesmo para as pequenas bolsas estão proibidas na entrada do Wiener Stadthalle.
De acordo com a Embaixada dos Estados Unidos em Viena, agentes do FBI auxiliam as autoridades locais na defesa contra ameaças.
Cinco países boicotaram evento em 2026
Alguns dos países que decidiram não mandar competidores para o Eurovision deste ano – Espanha, Irlanda e Eslovênia – foram além em seu protesto contra a presença de Israel e resolveram também não transmitir o evento localmente.
Em um comunicado oficial, a emissora eslovena RTV chamou o Eurovision de “circo” e anunciou a exibição da série temática “Vozes da Palestina”.
A Irlanda anunciou que transmitiria programas especiais com a temática do Eurovision, enquanto a Espanha terá um programa musical próprio veiculado nos dias do evento.
Boicote e polêmica na edição de 2025
Já no contexto da guerra em Gaza, a edição de 2025 do Eurovision foi marcada por tensão.
Um grupo tentou invadir o palco para um protesto enquanto a cantora israelense Yuval Raphael se apresentava, jogando tinta em um dos organizadores do evento. Antes disso, protestos com bandeiras palestinas aconteceram nas ruas de Basileia, na Suíça, onde o evento ocorreu.
Mesmo não recebendo as melhores avaliações dos jurados, a candidata israelense liderou no voto popular e ganhou o segundo lugar da competição.
A vitória dela foi polêmica, já que outros países acusaram líderes israelenses de fazerem campanha e incentivarem os moradores a votarem em massa na artista.
Israel afirma que competição é cultural, não política
Apesar de não fazer parte da Europa, Israel participa do Eurovision desde 1973 por ser membro da EBU. O mesmo acontece com a Austrália.
Autoridades israelenses acusaram países europeus que boicotaram o evento de tentarem transformar o festival em instrumento diplomático. Yuval Raphael, segundo lugar no ano passado, afirmou recentemente que “a música deve unir, não dividir”.
O presidente de Israel, Isaac Herzog, também comentou o assunto, afirmando que “Israel merece ser representado em todos os palcos ao redor do mundo”.
“Espero que a competição continue a ser uma competição que defenda a cultura, a música, a amizade entre nações e a compreensão cultural transfronteiriça.”
Mas até ONGs como a Anistia Internacional reagiram negativamente.
Failure to suspend Israel from Eurovision, as it continues to commit genocide in Gaza, unlawful occupation and apartheid against Palestinians, is an act of cowardice and double standards. #HumanityMustWin
Read more: https://t.co/1XDnwGOY7n pic.twitter.com/XgPzE6kglL
— Amnesty International (@amnesty) May 11, 2026
Proibição de temas políticos no Eurovision
O Eurovision acontece anualmente desde 1956. Cada país participante envia uma canção inédita para competir, escolhida em festivais internos realizados pelas emissoras públicas.
Uma combinação de votos de júris nacionais e do público escolhe o vencedor. As semifinais e a grande final são megashows transmitidos para todo o mundo, com milhões de espectadores.
As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU) proíbem expressamente mensagens políticas durante o concurso.
Um dos exemplos mais recentes foi em 2023, quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pediu para enviar uma mensagem em vídeo durante a final. A EBU recusou o pedido, afirmando que o Eurovision não era plataforma política.
Curiosamente, naquele mesmo ano, a Ucrânia venceu com uma canção que trazia alusões à resistência na guerra contra a Rússia. A vitória mostrou que, mesmo tentando manter neutralidade, o festival reflete o contexto político vivido pelos países participantes.
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