A visita de Donald Trump à China colocou a liberdade de imprensa em Hong Kong no centro de uma nova pressão internacional: a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pediu que o presidente dos Estados Unidos use a viagem para cobrar de Xi Jinping a libertação de Jimmy Lai, fundador do jornal pró-democracia Apple Daily.
Lai, que tem 78 anos, está preso desde dezembro de 2020 e se tornou um dos principais símbolos da repressão à imprensa independente em Hong Kong após a volta do território ao controle chinês.

A viagem de Donald Trump à China, iniciada nesta quarta-feira (13), é a primeira visita de Estado de um presidente americano em exercício ao país em quase uma década.
A organização afirma que Trump já declarou, em diferentes ocasiões, que faria “tudo o que pudesse” para salvar Lai. No início deste ano, o presidente americano também sugeriu que o caso poderia ser tratado no contexto mais amplo das negociações comerciais entre Estados Unidos e China.
Caso Lai e pressão parlamentar nos EUA
O apelo ocorre em um momento de pressão crescente sobre a Casa Branca. Em 7 de maio, mais de cem parlamentares americanos enviaram uma carta a Trump pedindo que ele abordasse o caso de Lai.
O filho do empresário, Sebastien Lai, também pediu publicamente que o presidente americano atuasse para levá-lo de volta para casa.
Para a RSF, a visita representa uma oportunidade diplomática para transformar declarações anteriores em ação concreta.
Aleksandra Bielakowska, gerente de defesa da RSF para a Ásia-Pacífico, afirmou que os Estados Unidos devem agir de forma “urgente e decisiva” para assegurar a libertação imediata de Lai, descrito pela organização como alguém que dedicou sua vida à defesa da democracia e da liberdade de imprensa.
A entidade também comparou o caso ao de Liu Xiaobo, defensor da liberdade de expressão e prêmio Nobel da Paz, que morreu em uma prisão chinesa em 2017. Para a RSF, a falta de pressão internacional suficiente naquele episódio não deve se repetir agora.
Liberdade de imprensa na China entra na agenda de Trump
Jimmy Lai foi condenado em fevereiro de 2026 a 20 anos de prisão. Outros seis funcionários do Apple Daily receberam penas que variam de seis a dez anos, em meio ao endurecimento da repressão à imprensa independente em Hong Kong, segundo a RSF.
O Apple Daily, fechado em 2021 após pressões das autoridades, era um dos principais veículos pró-democracia de Hong Kong. Lai, que recebeu o Prêmio RSF de Liberdade de Imprensa, permanece em condições consideradas duras pela organização, incluindo confinamento solitário.
A RSF afirma que essas condições contribuíram para a perda severa de peso e para a piora de seu estado de saúde. Segundo a organização, Lai já está detido há mais de 1.950 dias.
Em abril de 2026, o governo de Hong Kong removeu três empresas ligadas a Lai do registro comercial do território e buscou confiscar 127 milhões de dólares de Hong Kong, cerca de 13,8 milhões de euros, em ativos.
A medida reforçou as preocupações de organizações internacionais sobre o uso de instrumentos legais e econômicos contra figuras associadas à imprensa independente e ao movimento pró-democracia.
Hong Kong atinge novo patamar de repressão à imprensa
Desde 2020, pelo menos 28 jornalistas foram processados em Hong Kong, segundo a RSF. Oito deles permanecem presos. A organização afirma ainda que jornalistas no território são alvo sistemático de assédio, vigilância online e offline, exposição de dados pessoais e ameaças.
No ranking mundial de liberdade de imprensa de 2026 da RSF, Hong Kong aparece na 140ª posição entre 180 países e territórios. Em duas décadas, o território caiu da 18ª posição para uma das faixas mais baixas do índice. A China, por sua vez, aparece em 178º lugar.
No mesmo índice, os Estados Unidos aparecem em posição muito menos grave que a China, mas também registraram piora. O país caiu sete posições em 2026, para o 64º lugar, em um recuo atribuído pela RSF ao aumento da pressão política sobre a imprensa.
O ambiente de hostilidade criado por ataques verbais e medidas do governo Trump contra veículos e jornalistas explicam esse declínio.
A comparação não coloca os dois países no mesmo patamar de repressão, mas acrescenta uma elemento de tensão ao apelo da RSF. O presidente americano é cobrado a defender a liberdade de imprensa na China em um momento em que seu próprio governo também é criticado por sua relação com a mídia.
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