“Posso ser inteligente quando importa, mas a maioria dos homens não gosta disso”, diz Lorelei Lee [personagem interpretada por Marilyn Monroe] na comédia musical de 1953 Os Homens Preferem as Loiras.
A famosa frase do filme de Howard Hawks resume o destino da estrela que a pronunciou.
Marilyn Monroe enfrentou a crueldade do sistema dos grandes estúdios de Hollywood dos anos 1950 durante sua curta carreira como atriz, entre 1946 e 1962.
Hoje, ela é lembrada principalmente por sua imagem glamourosa e altamente sexualizada, e não por sua inteligência, talento e perspicácia política.
Monroe cristalizou uma certa visão da feminilidade dos anos 1950, em sintonia com a atitude ambivalente da década em relação à independência feminina: fascinada, mas também desconfiada das demonstrações cada vez mais públicas da sexualidade das mulheres.
A imagem que sobreviveu ao centenário
No centenário de nascimento de Monroe, a imagem que permanece no imaginário popular foi, em grande parte, esvaziada de voz e agência. O que restou são imagens.
Há os momentos icônicos de seus filmes, sobretudo a saia branca levantada pelo vento sobre uma grade de metrô em O Pecado Mora ao Lado (1955).
Há as fotografias feitas por nomes celebrados como Richard Avedon e Eve Arnold, e as obras que ela inspirou em artistas igualmente icônicos, como Andy Warhol.
Seus momentos mais reconhecíveis foram repetidamente apropriados e reinterpretados por celebridades posteriores, incluindo Madonna, Kim Kardashian e Ryan Gosling.
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O rótulo de símbolo sexual
Mesmo quando Monroe ainda era viva, pessoas próximas a ela afirmavam com frequência que não havia arte por trás de seus papéis no cinema, mas que ela estava simplesmente “interpretando a si mesma”.
O diretor Fritz Lang observou que ela apenas sabia o efeito que provocava nos homens, nada além disso. E o dramaturgo Arthur Miller, seu terceiro marido, disse que, “em tudo o que fazia, ela era ela mesma”.
Joshua Logan, diretor de seu filme Nunca Fui Santa (Bus Stop), de 1956, admirava seu timing cômico, mas ela também desejava interpretar papéis sérios.
A própria Monroe ao mesmo tempo aceitava e se rebelava contra sua imagem de símbolo sexual, entendendo o poder que ela lhe dava, mas rejeitando suas qualidades desumanizadoras:
“Esse é o problema: um símbolo sexual se torna uma coisa só. Eu detesto ser uma coisa só. Mas, se eu vou ser símbolo de alguma coisa, prefiro que seja de sexo do que de algumas outras coisas que temos por aí como símbolos.”
Uma estrela contra o sistema
Em 1946, tornar-se pin-up permitiu que Norma Jeane Baker, nome de nascimento de Monroe, escapasse de uma vida de classe trabalhadora e se projetasse em outro mundo.
Ela sabia que seu estrelato era, em grande medida, resultado de seu apelo junto a jovens soldados convocados para a Guerra da Coreia, incluindo afro-americanos. Usou seu poder de estrela para combater o racismo, o classismo e o sexismo das estruturas dentro das quais trabalhava.
Em 1954, ela obrigou os donos da boate Mocambo, em Hollywood, a honrar um contrato com a cantora Ella Fitzgerald que eles ameaçavam romper. Em uma entrevista de 1972 à revista Ms., Fitzgerald explicou:
“Tenho uma dívida real com Marilyn Monroe. Foi por causa dela que toquei no Mocambo, uma boate muito popular nos anos 1950. Ela ligou pessoalmente para o dono do Mocambo, Charlie Morrison, e disse que queria que eu fosse contratada imediatamente.
E, se ele fizesse isso, ela ocuparia uma mesa na frente todas as noites. Ela disse a ele — e era verdade, por causa do status de superstar de Marilyn — que a imprensa ficaria enlouquecida. O dono disse sim, e Marilyn estava lá, na mesa da frente, todas as noites. A imprensa exagerou na cobertura… Depois disso, nunca mais precisei tocar em uma pequena casa de jazz.”
Política, carreira e controle da própria imagem
Em 1956, Monroe apoiou seu então marido, Arthur Miller, quando ele se recusou a delatar nomes ao Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara, comandado pelo notório senador Joseph McCarthy, na tentativa de eliminar a suposta influência comunista em Hollywood.
Em 1960, ela escreveu ao editor do New York Times, Lester Markel, seu amigo, manifestando apoio a Fidel Castro em Cuba.
Monroe também se rebelou, assim que pôde, contra o enquadramento no papel da loira burra.
Quando executivos da 20th Century Fox, estúdio com o qual tinha contrato, se recusaram a escalá-la para papéis dramáticos, mesmo depois de sua brilhante atuação em O Pecado Mora ao Lado, ela anunciou a criação de sua própria produtora, a Marilyn Monroe Productions, em janeiro de 1955.
Ela era a presidente, e seu amigo e fotógrafo Milton Greene era o vice-presidente. A Fox a processou por quebra de contrato.
Monroe e a Fox acabaram chegando a um acordo não exclusivo, que compensava Monroe por seus ganhos anteriores e lhe dava controle sobre projetos futuros.
Embora ela própria não tenha vivido o suficiente para que sua produtora tivesse um impacto cultural significativo, sua decisão abriu caminho para futuras estrelas mulheres, como Margot Robbie e Reese Witherspoon, controlarem suas carreiras e os papéis que lhes são oferecidos por meio da criação de produtoras.
Para além do mito
Monroe morreu antes do florescimento dos movimentos pelos direitos civis e da libertação das mulheres nos Estados Unidos. Mas, em suas ações, antecipou a defesa de uma sociedade mais justa e igualitária promovida por esses movimentos.
Ela é um dos ícones mais duradouros do século 20.
No entanto, embora seja lembrada por seu andar rebolado, sua voz infantilizada e seus lábios em bico, por trás dessa fachada glamourosa havia uma mulher trabalhadora e politicamente engajada, que reconhecia e enfrentava as desigualdades da sociedade americana que, ao mesmo tempo, a adorava e a depreciava.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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