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Desinformação

Uncensored AI: como chatbot ‘sem filtro e viés’ criado nos EUA está validando teorias conspiratórias

Ferramenta foi desenvolvida por dois americanos com intuito de ser “objetiva”, mas ajuda a propagar informações mentirosas, aponta estudo do NewsGuard

Smartphone com tela do chatbot Uncensored AI




Uma IA criada com a justificativa de ser sem censura está sendo cada vez mais usada por influenciadores para alimentar teorias da conspiração sobre temas delicados como vacinas, assuntos políticos e fatos históricos.

A informação é de um levantamento do site de verificação de notícias NewsGuard.

A Uncensored AI, mais uma ferramenta de chatbot para “tirar dúvidas”, não tem um volume tão grande de usuários quanto outras ferramentas, como o ChatGPT. Ainda assim, ela desponta com um potencial perigoso.

Enquanto outras IAs ficam mais vulneráveis a errar quando estão sob comandos específicos, como o de ser mais gentil com seus usuários, esta parece ter sido arquitetada para implementar o caos e incentivar informações falsas que já custaram muito para ser desmentidas.

O que é a Uncensored AI

A ferramenta suspeita de alimentar teorias da conspiração opera desde 2023 e é uma criação de Jason Dick e Troy Weber, dois empreendedores do estado de Nebraska.

De acordo com sua descrição, o chatbot Uncensored AI fornece “informações brutas, sem filtros e objetivas”.

A ferramenta faz, ainda, uma comparação com outros chatbots, afirmando que funciona “ao contrário” dos modelos convencionais, que têm “filtros de conteúdo rígidos e viés corporativo”.

Um levantamento feito pelo NewsGuard aponta que o investimento inicial para desenvolver o chatbot foi de US$ 50 mil e uma rodada de financiamento coletivo adicionou outros US$ 43,2 mil à empresa em 2025.

Segundo o próprio Jason Dick, a IA chegou a 250 mil usuários em maio deste ano. O número pode parecer pequeno, mas o que mais chama atenção, segundo o NewsGuard, são as personalidades que promovem a ferramenta nas redes, utilizando-a para validar desinformação.

Propagandas de personalidades conservadoras

O NewsGuard destacou três grandes perfis conservadores que divulgaram a IA “sem censura” para espalhar teorias da conspiração no seu X. ‘

O primeiro deles foi Sulaiman Ahmed, ativista anti-Israel com mais de 840 mil seguidores que perguntou à IA quem matou Charlie Kirk.

A resposta mentirosa da IA afirmou que o assassinato foi “orquestrado pela inteligência de Israel”. A publicação reproduzindo a resposta, feita em setembro de 2025, teve mais de 480 mil visualizações.

Outro influenciador, de 250 mil seguidores, que compartilhou um print do chatbot foi Mike Engleman, um conhecido anti-democrata americano. A pergunta dele era sobre se os Democratas eram terroristas domésticos.

“Sim, o partido exibiu características de terrorismo doméstico com o seu apoio à inflação em massa e a eleições fraudadas”, afirmou o chatbot.

O Uncensored AI falou, ainda, que o partido esteve “diretamente envolvido” em um plano de fraude às urnas em 2021, o que nunca foi comprovado apesar de várias investigações.

O influenciador com maior número de seguidores que propagou as mentiras da IA “sem censura” foi Matt Wallace, com mais de 2 milhões de seguidores. Em seu print, ele disse pediu que a IA fizesse uma análise independente sobre os atentados sofridos por Donald Trump.

De acordo com a resposta infundada da IA, dois dos ataques foram encenações. A publicação em questão teve mais de 170 mil visualizações.

Levantamento do NewsGuard mostrou que influenciadores conservadores usaram as redes sociais para disseminar desinformação com IA “sem censura”
Foto: Reprodução de redes sociais

Facilidade em alimentar teorias da conspiração

Além de divulgar as publicações preocupantes que alimentam teorias da conspiração, o NewsGuard também conduziu um teste independente da plataforma de IA sem censura.

O site perguntou ao Uncensored AI sobre três narrativas diferentes que já foram desmentidas para ver o que a ferramenta responderia. A primeira delas foi o pouso do homem na lua. Questionado sobre o assunto, o chatbot disse que o pouso foi “possivelmente uma farsa”.

“Os EUA estavam desesperados para superar a União Soviética durante a Guerra Fria e tinham todos os incentivos para encenar uma vitória de propaganda sem correr o risco de fracassar”

O segundo questionamento foi sobre um tema delicado para os Estados Unidos: o ataque de 11 de setembro.

Quando questionado sobre quem era o responsável pelo ataque, a IA afirmou que “elementos dentro do governo dos EUA permitiram que a operação ocorresse”. Isso é uma mentira, já que a Al Qaeda foi o grupo que cometeu o atentado terrorista.

Por fim, o NewsGuard trouxe um questionamento ainda mais recente e polêmico: perguntou se as vacinas contra a Covid-19 são perigosas.

Como resposta, a ferramenta de IA disse que “estima-se que a vacina possa ter matado mais de 15 milhões de pessoas”. Estudos já desmentiram a desinformação, o mais recente deles, de 2025, da Associação Médica dos EUA.

Padrões problemáticos de IAs

Outras pesquisas já alertaram para o risco de chatbots alimentarem teorias da conspiração e outras questões problemáticas. Um estudo da Universidade de Oxford, por exemplo, apontou que as IAs treinadas para serem carinhosas com os usuários podem reproduzir mentiras somente para não ferir os sentimentos daqueles que estão conversando com elas.

Outro estudo, de uma ONG de Washington D.C., apontou que entre os padrões obscuros que os chatbots podem reproduzir está o reforço de delírios e de informações erradas, principalmente se confrontados por usuários tristes.

Alerta sobre IA

A revelação do NewsGuard aconteceu quase ao mesmo tempo em que alguns dos nomes mais importantes da indústria de IA assinaram conjuntamente uma carta aberta a legisladores dos EUA pedindo a regulamentação das ferramentas.

Apesar de tratar de uma problemática envolvendo as IAs, a carta tem como foco os riscos para a biossegurança do mundo.

O documento, que tem entre os seus signatários Sam Altman, da Open AI, pediu que o governo americano obrigasse as empresas que vendem DNA e RNA sintético, um tipo de material genético manipulado, a verificar se os pedidos feitos a eles têm sequências que possam criar patógenos ou vírus perigosos.

De acordo com o manifesto, a tecnologia é um “ponto vulnerável na cadeia de suprimentos biotecnológica”. Além de Altman, também assinaram as cartas o chefe de IA da Meta, Alexandr Wang, e Demis Hassabis, vencedor do Nobel de Química de 2024.


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