O fechamento de um veículo de imprensa comunitário costuma ser descrito como sinal do surgimento de um “deserto de notícias”.
Mas um estudo da organização britânica Social Market Foundation (SMF) sugere que o problema é maior: as notícias continuam circulando, só que muitas vezes chegam falsas, distorcidas ou manipuladas por interesses políticos.
A pesquisa analisou mais de 125 mil publicações em grupos locais do Facebook, resultados de busca no X e comunidades da plataforma Nextdoor em 95 localidades do Reino Unido.
O relatório encontrou quase três vezes mais desinformação em áreas com pouca ou nenhuma cobertura de veículos locais reconhecidos.
A conclusão é de que quando jornais, rádios e sites comunitários desaparecem, moradores não deixam necessariamente de receber notícias. O que muda é quem informa, com quais critérios e com que grau de responsabilidade pública.
Fake news em redes sociais ocupam o vácuo da imprensa local
Assim como acontece em todo o mundo, o jornalismo regional britânico vem encolhendo, por motivos financeiros.
Segundo a SMF, a receita publicitária dos jornais locais caiu 70% entre 2010 e 2020. Mais de 320 publicações locais fecharam entre 2009 e 2019 e a leitura regular desses veículos caiu para 5% da população.
Ao mesmo tempo, as redes sociais se tornaram uma das principais portas de entrada para notícias locais.
Quase metade dos britânicos, 46%, busca informações sobre sua comunidade nessas plataformas, percentual inferior apenas ao da televisão – principalmente a BBC – , usada por 51%. Mais de um terço, 34%, recorre a grupos locais em redes sociais.
Em muitas comunidades, grupos de Facebook, canais de mensagens e páginas administradas por moradores passaram a cumprir parte da função antes exercida por veículos locais. Esses espaços divulgam alertas, serviços, eventos, reclamações e notícias do cotidiano, mas não substituem o jornalismo tradicional com a mesma confiabilidade.
Desinformação no X e no Facebook
Entre os grupos locais do Facebook analisados pela SMF, dois em cada cinco continham ao menos uma publicação com informação falsa ou distorcida entre os mil posts mais recentes.
No X, mais de 80% das buscas relacionadas a localidades específicas retornaram algum conteúdo de desinformação.
Entre as publicações com conteúdo informativo, quase uma em cada 26 no Facebook continha informação falsa ou distorcida. No X, a proporção ultrapassou uma em cada quatro.
Os autores observam que os resultados provavelmente representam um piso, e não um teto, para o problema. Como parte dos conteúdos falsos pode ter sido removida antes da coleta dos dados, os níveis reais de desinformação podem ser ainda maiores.
A desinformação também é local
A pesquisa mostra que a desinformação não se limita a temas nacionais ou internacionais. No Facebook, 19% dos conteúdos classificados como desinformação abordavam assuntos locais, como planejamento urbano, transporte, serviços públicos e política municipal.
No X, 32% da desinformação identificada estava relacionada a imigração ou a discursos contra muçulmanos, percentual superior ao observado em temas de saúde, que responderam por 13% dos casos.
Esse tipo de conteúdo pode ter impacto maior porque circula em redes de proximidade. Um boato sobre uma escola, uma obra pública, uma decisão da prefeitura ou uma eleição municipal tende a ganhar força quando é compartilhado por vizinhos, parentes, comerciantes ou lideranças locais.
O relatório sugere que o fechamento de veículos locais cria mais do que desertos de notícias. Ele abre vazios informacionais que podem ser preenchidos por rumores, interpretações equivocadas e campanhas de desinformação.
O risco aumenta durante eleições
Nas localidades analisadas que passaram por eleições locais, a presença de desinformação entre os conteúdos noticiosos aumentou de 8,2% para 12,9% no período anterior à votação.
Para os autores, o dado sugere que comunidades com cobertura jornalística enfraquecida podem se tornar mais vulneráveis a campanhas de influência e manipulação política.
Em escala local, onde há menos escrutínio público e menos cobertura da imprensa, informações falsas podem afetar diretamente decisões de eleitores sobre temas próximos de sua rotina.
Esse alerta ganha peso no contexto político britânico atual. Em 18 de junho, a comunidade de Makerfield realiza uma eleição suplementar que pode levar Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, de volta ao Parlamento e abrir caminho para uma disputa futura pela liderança trabalhista.
Localmente, Burnham enfrenta Robert Kenyon, candidato do Reform UK, partido de direita radical liderado por Nigel Farage, que tem usado intensamente redes sociais em suas campanhas.
A disputa ilustra justamente o tipo de ambiente analisado pela SMF: eleições locais ou hiperlocais em que grupos digitais, páginas comunitárias e conteúdos de alta circulação podem influenciar percepções políticas antes que informações falsas sejam verificadas.
O que se perde quando um veículo local fecha
Veículos locais tradicionalmente acompanham prefeituras, conselhos municipais, gastos públicos, conflitos comunitários e decisões administrativas que raramente entram na cobertura nacional. Também ajudam a construir uma base comum de fatos para o debate público.
O relatório cita evidências de que comunidades com maior circulação de jornais locais tendem a registrar maior participação eleitoral. A função do jornalismo local, portanto, não é apenas informar, mas sustentar formas de envolvimento cívico.
O efeito também aparece no sentido inverso. Localidades com maior presença de veículos de comunicação registraram aproximadamente metade da taxa média de desinformação observada pelos pesquisadores.
Quando essas organizações desaparecem, a perda não se limita ao fechamento de uma empresa de mídia. O que se enfraquece é a capacidade da comunidade de produzir, verificar e compartilhar informações confiáveis sobre si mesma.
Como enfrentar o problema
O relatório argumenta que a resposta não depende apenas de moderação de conteúdo. Veículos de comunicação, administradores de grupos comunitários, usuários e empresas de tecnologia também influenciam a qualidade da informação que circula em nível local.
Entre as recomendações, a SMF defende o fortalecimento de iniciativas voltadas ao jornalismo regional, além de uma presença mais ativa de organizações jornalísticas nas plataformas digitais.
O estudo também propõe medidas para dificultar o uso indevido de marcas jornalísticas e combater conteúdos gerados por inteligência artificial que se passam por notícias legítimas.
A conclusão é que combater fake news em redes sociais não significa apenas remover conteúdos falsos. Também exige garantir que comunidades tenham acesso a jornalismo local capaz de verificar fatos, fiscalizar o poder público e oferecer referências confiáveis em meio ao volume crescente de informações online.
Leia também | Repórter do Post que teve casa invadida pelo FBI fala a novos jornalistas sobre fontes, pressão e trabalho coletivo
Leia também | Casa de jornalista sofre ataque incendiário na Itália após ameaças por matéria sobre máfia
Leia também | Reino Unido obriga Google a permitir recusa do uso de notícias em IA: ‘mais controle à imprensa’
Leia também | O que torna alguém um bom consumidor de notícias? Pesquisa aponta que é saber desconfiar






