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Jornalismo esportivo

IA, drones, avatares e câmeras-aranha: entenda a tecnologia por trás da transmissão da Copa 2026

por Joe Towns | Professor de jornalismo esportivo, Cardiff Metropolitan University

Presidente da FIFA, Gianni Infantino, na inauguração do centro de transmissão televisiva da Copa 2026, no Texas

Presidente da FIFA, Gianni Infantino, na inauguração do centro de transmissão televisiva da Copa 2026, no Texas (foto: divulgação)




Quando os jogadores chegaram aos Estados Unidos para a sessão de mídia pré-torneio da Copa do Mundo, cada um deles entrou em uma câmara de escaneamento para capturar as dimensões precisas de partes do corpo usadas na criação de avatares 3D com IA.

Por quê? Porque, mesmo quando se é o maior esporte do mundo, não dá para ficar parado na tecnologia.

A Copa do Mundo da Fifa deste ano terá mais seleções (48), mais partidas (104) e mais câmeras do que nunca.

Ao descrever a escala do torneio, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse aos torcedores que esperassem o equivalente a “104 Super Bowls”.

Infantino quer “conquistar” os Estados Unidos, onde o futebol nunca alcançou o mesmo nível de popularidade que tem no restante do mundo. A última vez que a Copa foi realizada no país foi em 1994.

Copa do Mundo 94 não conquistou americanos

A cantora Diana Ross errou um pênalti na cerimônia de abertura e o jogador italiano Roberto Baggio errou outro na final contra o Brasil. Foi memorável, mas não conquistou o coração dos americanos.

Neste ano, estima-se 5 milhões de clientes terão comprado ingressos caríssimos para assistir aos jogos em estádios espalhados por três países-sede: Canadá, Estados Unidos e México.

E a previsão é que até 6 bilhões de pessoas acompanhem a competição ao redor do mundo — em telas de TV, celulares, tablets, bares, casas de apostas e fan zones.

O esporte existe na mesma economia da atenção ultracompetitiva que outras formas de entretenimento. Para entrar entrar na mente e nos celulares do público, a Fifa tem que pensar visualmente no sentido da transmissão, mas também verticalmente, na criação de conteúdo capaz de se destacar online.

Drones, câmeras-aranha e novas formas de filmar

Nos Jogos Olímpicos de Inverno realizados em Milano-Cortina, na Itália, as câmeras em drones chamaram a atenção e roubaram a cena.

Os drones funcionaram bem ao acompanhar esquiadores em uma pista fixa de montanha ou patinadores em uma pista de gelo, mas não funcionam em estádios de futebol, onde a imprevisibilidade da ação significa que um drone poderia ser atingido pela bola.

Como os drones transformaram a forma como os Jogos Olímpicos de Inverno foram filmados.

No entanto, esta Copa do Mundo terá câmeras-aranha suspensas por cabos e estabilizadas por giroscópio, sobrevoando a ação.

Elas devem ser usadas com mais frequência durante o jogo ao vivo do que em Copas anteriores, talvez até durante disputas de pênaltis.

Em cada partida, haverá entre 45 e 50 câmeras voltadas para a ação, incluindo pole cams, cable cams, câmeras 360 e uma nova câmera que levará o público para mais perto do jogo do que nunca.

A “visão do árbitro” permitirá que o público veja o que o juiz vê. Câmeras montadas no árbitro, testadas no Mundial de Clubes da Fifa no ano passado, mostrarão o que ele consegue — e não consegue — ver.

Esses pontos de vista não são novidade nas transmissões esportivas, sendo comuns no rúgbi, mas o problema no passado era a estabilidade da imagem. Para esta competição, as emissoras usarão software de estabilização com IA para melhorar a suavidade das imagens.

A Copa do Mundo da IA

Avatares 3D gerados com apoio de IA também ajudarão nas decisões do VAR, garantindo maior precisão na identificação e no rastreamento dos jogadores.

Isso impulsionará a tecnologia semiautomatizada de impedimento, o que deve resultar em imagens de melhor qualidade e decisões mais rápidas e justas.

Na Copa do Mundo de 2022, em Doha, no Catar, houve acesso total para um documentário da Netflix chamado Captains, exibido depois do torneio.

Desde que o formato de bastidores da Fórmula 1 em Drive to Survive levou o público para dentro de espaços antes sagrados da F1, os fãs querem ver tudo, dentro e fora de campo. Mas, este ano, se quiserem acompanhar os bastidores, terão que ir para a internet.

Copa do Mundo no TikTok e YouTube

Em uma parceria histórica, a Fifa se uniu ao TikTok e ao YouTube, dois dos destinos de conteúdo mais populares do planeta. Eles se tornarão as primeiras “plataformas preferenciais” da Fifa, um ponto de referência para torcedores e criadores.

Testado na Copa do Mundo Feminina de 2023, o acordo dará ao TikTok a possibilidade de transmitir ao vivo partes das partidas, acessar conteúdos de bastidores e publicar clipes especialmente selecionados.

Já o acordo com o YouTube permite que parceiros de transmissão publiquem melhores momentos na plataforma, transmitam alguns jogos ao vivo na íntegra e deem ao YouTube uma presença “first party”, com partidas de arquivo de torneios anteriores sendo exibidas na plataforma.

Imagens da “visão do árbitro” em uma partida entre MLS All-Stars e Arsenal, em 2024.

Dados, entretenimento e novas experiências para o público

A cobertura esportiva americana gira em torno do entretenimento e, nesta Copa do Mundo, até as estatísticas ganharão um tratamento especial.

Prepare-se para algo chamado “data-tainment”, oferecendo aos torcedores o que a Fifa descreve como “insight e diversão sem precedentes”.

A expectativa é de uma integração fluida entre análises avançadas e gráficos em tempo real, tudo baseado em dados oficiais de rastreamento ótico.

Qual é o objetivo final? Ao que parece, a Fifa quer que quem estiver no estádio tenha os benefícios de assistir ao jogo do sofá, como replays, estatísticas e análises, enquanto quem assiste de casa sinta os aspectos mais viscerais e imersivos de estar no estádio, com lentes cinematográficas, câmeras vestíveis e áudio aprimorado.

No estádio, os espectadores poderão ver as principais decisões nos telões, com estatísticas em tempo real enviadas aos seus celulares. A conectividade nos estádios, um problema no passado, será reforçada para garantir que todos permaneçam conectados.

É um equilíbrio delicado. Apesar das inovações anunciadas, a Fifa sabe que o apelo duradouro de assistir ao futebol está em sua simplicidade. O público tradicional não quer truques atrapalhando o seu belo jogo.

A Fifa terá que caminhar sobre uma corda bamba, porque o público americano que ela tanto deseja conquistar gosta de consumir esporte em um certo formato. O resto do mundo — bem, parece feliz com o futebol como ele é.

Uma revolução transmitida, baixada e recortada

As Copas do Mundo do futuro serão uma experiência mais imersiva. O público em casa usará headsets de realidade virtual enquanto gráficos de rastreamento de jogadores em tempo real aparecerão ao vivo em sua sala.

Mas a realidade é que a transmissão ao vivo de partidas de futebol não mudou tanto assim em décadas. O que se assiste não mudará muito, mas onde se assiste mudará.

As emissoras tradicionais já não serão a única atração. E será nos intervalos, nas pausas e nos momentos ao redor do jogo que a revolução acontecerá. Uma revolução que será televisionada — e transmitida por streaming, baixada e recortada para ser vista depois.

Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.


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