A Meta removeu do Instagram, na Índia, um vídeo sobre o impacto ambiental da IA em um projeto de datacenter do Google que deverá se tornar o maior hub de inteligência artificial da empresa fora dos Estados Unidos.
Produzida pela Environmental Reporting Collective (ERC), rede internacional de jornalistas que investiga crimes ambientais, a reportagem denuncia os efeitos do empreendimento em Tarluvada, vila no estado de Andhra Pradesh onde vivem famílias Dalit, comunidade historicamente discriminada dentro do sistema de castas indiano.
Moradores que vivem da agricultura local disseram aos jornalistas que passaram a viver com medo e estão sob pressão para vender suas terras ao governo para viabilizar o projeto.
Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), além do Instagram, o conteúdo também foi distribuído em outras plataformas e alcançou mais de 2,5 milhões de visualizações em apenas quatro dias.
Embora tenha sido removido pela Meta, o vídeo continua acessível no YouTube, que pertence ao Google.
Vídeo viralizou antes de ser removido
A reportagem foi produzida pelos jornalistas indianos Shamsheer Yousaf e Monica Jha e publicada no Instagram em 19 de maio.
O vídeo integra a série investigativa Dirty Data, produzida pela ERC para examinar os custos ambientais e humanos associados à expansão global de datacenters por grandes empresas de tecnologia.
De acordo com a RSF, em 22 de maio a organização recebeu uma notificação informando que o vídeo havia sido restringido na Índia.
Segundo a mensagem enviada à ERC, a remoção ocorreu em conformidade com uma ordem do “governo da Índia e autoridades policiais”, baseada na Seção 79(3)(b) da Lei de Tecnologia da Informação de 2000.
RSF pede restauração do conteúdo
A RSF classificou a remoção do vídeo como um caso de censura governamental e pediu que a Meta restabeleça imediatamente o conteúdo no Instagram.
Segundo a organização, a remoção ocorreu sem transparência sobre os motivos específicos da medida.
A ERC afirmou que não recebeu explicações sobre a base legal detalhada, a justificativa de política pública ou a reclamação que levou à restrição do vídeo.
“Reportagens de interesse público sobre meio ambiente e direitos à terra devem ser protegidas, não suprimidas. A remoção de conteúdo jornalístico, sem transparência, justificativa ou oportunidade de contestação, constitui uma séria ameaça à liberdade de imprensa”, afirmou Célia Mercier, chefe do escritório da RSF para o Sul da Ásia.
Segundo Mercier, a Environmental Reporting Collective estava apenas cumprindo sua função de informar o público sobre uma questão de interesse coletivo.
Lei indiana sustenta ordens de remoção
De acordo com a RSF, a Seção 79(3)(b) da Lei de Tecnologia da Informação de 2000 permite que plataformas digitais sejam responsabilizadas caso não removam conteúdos apontados pelas autoridades.
A organização afirma que esse mecanismo cria forte pressão para que empresas de tecnologia atendam rapidamente às solicitações governamentais de remoção.
A RSF também relaciona o episódio ao portal Sahyog, lançado pelo Ministério do Interior da Índia em outubro de 2024.
Segundo a entidade, a ferramenta permite que autoridades policiais enviem pedidos de remoção diretamente às plataformas digitais.
O sistema se baseia na Lei de Tecnologia da Informação de 2000 e nas regras para intermediários digitais adotadas em 2021.
Para a RSF, o portal facilita remoções em massa de conteúdo e reduz oportunidades de contestação e supervisão independente.
Meta amplia restrições na Índia, diz reportagem
A organização também citou uma reportagem publicada pelo jornal The Hindu em abril de 2026, baseada em informações atribuídas à Meta.
Segundo o jornal, a Índia passou a integrar um grupo restrito de países onde Facebook e Instagram restringem automaticamente conteúdos em larga escala para atender exigências legais locais.
A publicação afirmou ainda que a Meta vinha cumprindo um volume crescente de ordens de remoção emitidas por autoridades estaduais e pelo governo central indiano.
Outras plataformas também receberam ordens
A RSF citou casos semelhantes envolvendo a plataforma X.
Em maio de 2025, a empresa informou ter recebido uma ordem para bloquear mais de 8 mil contas na Índia, incluindo perfis de veículos de comunicação como Maktoob Media, Free Press Kashmir e The Kashmiriyat.
Em julho do mesmo ano, a plataforma afirmou ter sido obrigada a bloquear outras 2.355 contas, incluindo perfis ligados à agência Reuters.
Segundo a RSF, as determinações foram acompanhadas de ameaças de sanções criminais em caso de descumprimento.
Infraestrutura para IA avança globalmente
O caso ocorre em meio à expansão global da infraestrutura necessária para sustentar sistemas de inteligência artificial, que têm sido objeto de preocupações e alertas de pesquisadores e organizações como a ONU.
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