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Liberdade de imprensa

Mapa do exílio: quase 1,5 mil jornalistas fugiram de seus países em cinco anos, mostra levantamento da RSF

O número pode ser maior, segundo a Repórteres Sem Fronteiras, pois a lista inclui apenas os que receberam apoio da organização para se instalar em outros países

Mapa jornalistas exilados no mundo

Reprodução RSF




Relatórios sobre violações da liberdade de imprensa costumam quantificar jornalistas mortos, feridos e desaparecidos, mas nem sempre dão atenção ao drama dos exilados por ameaças de governos repressores ou do crime organizado.

Para marcar o Dia Mundial do Refugiado, em 20 de junho, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) elaborou um mapa do exílio de jornalistas pelo mundo, com base no número de profissionais que receberam ajuda para se instalar em outros países.

Em cinco anos foram 1.468, originários de mais de 60 nações, em uma situação descrita pela RSF como “angustiante”. Três deles se instalaram no Brasil – dois do Afeganistão e um de Cuba.

A organização observa que o número pode ser muito maior, considerando aqueles que fugiram por conta própria sem buscar apoio, sobretudo na América Latina.

Exílio não encerra riscos para jornalistas

E lembra que o exílio não significa o fim dos problemas.

A RSF aponta que, em um cenário internacional marcado por tensões políticas e de segurança, o desejo de continuar trabalhando como profissional de imprensa é prejudicado pelos riscos associados ao exercício da profissão em outro país e pelas limitações das políticas de acolhimento.

Essas dificuldades afetam não apenas os próprios jornalistas, mas também suas famílias.

Extorsão, deportação e abusos administrativos são uma realidade diária para muitos deles, diz a organização, com efeitos para toda a sociedade:

“As condições de vida precárias, o isolamento e a repressão transnacional agravam frequentemente as dificuldades administrativas e linguísticas enfrentadas no país anfitrião.

No entanto, estes profissionais continuam a produzir cobertura jornalística essencial, muitas vezes correndo o risco da sua própria segurança. Garantir a sua proteção e permitir-lhes continuar o seu trabalho jornalístico não é apenas uma obrigação humanitária: é um pré-requisito essencial para defender o direito à informação e manter o debate democrático.”

Afegãos lideram migrações forçadas de jornalistas

Jornalistas afegãos lideram a lista de migrações forçadas – mais de 660 casos – seguidos por russos e birmaneses.

E em cinco anos, o número de países envolvidos duplicou, passando de 19 em 2021 para 40 em 2025.

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o agravamento de crises políticas e de segurança tem ampliado as regiões de origem dos jornalistas forçados ao exílio.

Na África, a organização destaca a República Democrática do Congo (RDC), onde 21 jornalistas deixaram o país com apoio da RSF em 2025, principalmente para Burundi e Uganda.

A RSF também aponta a expansão de migrações forçadas na região do Sahel, incluindo Mali, Chade, Guiné, Burkina Faso e Senegal.

Na América Latina, a RSF atribui o aumento dos casos à violência política, à atuação do crime organizado e à repressão em países como El Salvador e Venezuela.

A organização registra que, desde janeiro de 2026, seis jornalistas foram mortos no México, Colômbia e Guatemala. Embora dezenas tenham buscado o exílio, a RSF ressalta que os números são difíceis de quantificar.

Afeganistão concentra maior número de jornalistas exilados

Segundo a RSF, 677 jornalistas afegãos deixaram o país com apoio da organização desde a volta do Talibã ao poder, representando quase metade dos casos atendidos pelo programa de assistência.

Eles estão espalhados por 28 países.

Embora tenham conseguido escapar da repressão brutal à imprensa, afetando sobretudo mulheres jornalistas, e a direitos fundamentais como o acesso de meninas e mulheres ao estudo, muitos continuam enfrentando dificuldades nos países de acolhimento, diz a RSF.

O caso mais grave é o do Paquistão. Pelo menos 50 jornalistas afegãos foram deportados à força após o início de uma política de expulsão de refugiados em 2023.

A RSF também relata dificuldades para renovação de vistos e o aumento da vulnerabilidade desses profissionais, como contou um jornalista que vive em Islamabad à organização em março:

“Depois de passar um dia inteiro num centro de detenção da polícia paquistanesa, fui forçado a pagar 115.000 rúpias paquistanesas [, cerca de 350 euros] para evitar a deportação e garantir a minha libertação. No início de fevereiro, meu senhorio me pediu para sair do imóvel.”

Muitos acham que vale o risco, já que a volta para o país representa risco ainda maior. Cinco jornalistas continuam oficialmente detidos no Afeganistão, de acordo com dados do Barômetro RSF.

 Myanmar e Rússia ampliam repressão à imprensa

A RSF informa que mais de cem jornalistas de Myanmar foram forçados ao exílio desde o golpe militar de 2021.

A organização cita a morte de sete jornalistas e ativistas da liberdade de imprensa e estima que cerca de 300 profissionais tenham buscado refúgio na Tailândia.

No caso da Rússia, a RSF contabiliza 160 jornalistas exilados assistidos desde 2021. Segundo a organização, a invasão da Ucrânia acelerou a saída de profissionais da imprensa independente, que hoje mantêm dezenas de veículos de comunicação operando no exterior.

A RSF também registra a continuidade da repressão contra jornalistas russos além das fronteiras do país. Muitos foram condenados à revelia após o início da guerra com a Ucrânia, com base nas leis repressivas adotada pelo governo de Vladimir Putin.

Países de acolhimento também impõem restrições

Países que recebem jornalistas refugiados também apresentam problemas relacionados à liberdade de imprensa.

No Egito, a organização afirma que jornalistas sudaneses e palestinos encontraram refúgio, mas continuam sujeitos a intimidações e censura. Ao mesmo tempo, pelo menos 11 jornalistas egípcios deixaram o país desde 2021.

Na Turquia, a RSF registra a chegada de jornalistas exilados do Afeganistão, Palestina e Síria, mas afirma que o exercício independente da profissão continua enfrentando obstáculos, levando também jornalistas turcos ao exílio.

Recomendações da RSF

A Repórteres Sem Fronteiras recomenda que os países de acolhimento fortaleçam a proteção de jornalistas exilados em três áreas principais:

Proteção jurídica: concessão de vistos de longa duração, facilitação de autorizações de residência e trabalho, mecanismos de proteção contra repressão transnacional e combate ao assédio online.

Sustentabilidade financeira: apoio a fundos para o jornalismo no exílio, incentivos fiscais, subsídios e criação de centros de apoio para redações exiladas.

Capacitação profissional: financiamento de tecnologias para contornar censura, apoio à certificação editorial e programas de formação em segurança digital, gestão, investigação e desenvolvimento de audiência.


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