Um ataque a tiros em uma escola das Filipinas fez com que o acesso de todo o país ao videogame GoreBox fosse bloqueado nesta semana. O bloqueio aconteceu porque a polícia suspeita que o jogo violento influenciou um dos atiradores, um adolescente de 14 anos, a cometer o crime.
O jogo está disponível em playstores em vários países, incluindo o Brasil, com classificação etária de 18 anos.
O banimento temporário levantou não só o debate sobre a qualidade das ferramentas de controle parental online, como também ressuscitou um debate antigo sobre qual é a real ligação dos videogames com ações violentas no mundo real.
Ataque com três mortos
Dois adolescentes atiraram contra colegas na San Jose Nacional High School, na ilha de Tacloban, na segunda-feira (22). Duas das vítimas morreram e outras 20 ficaram feridas. Os suspeitos do crime tem 14 e 15 anos e usaram armas de parentes.
O adolescente mais velho recebeu acusações de homicídio. Já o outro, de 14, não tinha idade suficiente para ser indiciado criminalmente. De acordo com as autoridades, esse adolescente sofria “profunda influência” do jogo GoreBox.
Além da relação problemática com o videogame, o adolescente também também publicava conteúdos violentos nas redes sociais. Ele e o colega sofriam bullying, o que teria contribuído para o crime.
Bloqueio e fiscalização
O governo das Filipinas baniu oficialmente o videogame GoreBox na terça-feira (23), um dia após o ataque que deixou três mortos em uma escola.
De acordo com o Centro de Investigação e Coordenação de Crimes Cibernéticos, a princípio, este bloqueio é temporário, para investigar a ligação do jogo com o ato de violência do adolescente.
O centro explicou que “não pode ignorar” as possíveis influências online que, supostamente, contribuíram para o ataque.
Apesar de temporário, não há previsão para retorno do funcionamento do GoreBox no país e a restrição a games pode crescer.
Uma porta-voz da presidência filipina sinalizou que o presidente BonbBong Marcos deve avaliar propostas legislativas que restrinjam não só este, como outros jogos violentos no país.
“Foi discutido que esses tipos de aplicativos deveriam ser banidos nas Filipinas. Essa é uma boa sugestão, e espero que uma medida possa ser elaborada imediatamente e que o presidente esteja aberto às propostas”, afirmou Claire Castro.
O debate também está em voga nas casas legislativas das Filipinas. Depois do ataque, senadores restauraram pautas antigas sobre efeitos da violência em plataformas online, principalmente para crianças.
Entre os que comentaram sobre a necessidade de fiscalização dos jogos estão a senadora Risa Hontiveros, que chamou as plataformas online de “ninhos de lavagem cerebral”.
GoreBox
Classificado como um game indie de terror, o jogo se vende como um “local onde a criatividade encontra a destruição” nas app stores onde é oferecido. Ele funciona em primeira pessoa e permite que elementos de cenários e outras pessoas sejam destroçados.
O termo “gore”, que denomina filmes de violência extrema, com cenas brutais de derramamento de sangue, aparece no jogo justamente para classificar o tipo de cena que o jogador vai ver.
“Liberte suas ideias mais ousadas em um ambiente que coloca o poder absoluto em suas mãos.”
A plataforma também oferece uma “vasta gama de armas de fogo e explosivos”, de acordo com a descrição. Ele tem classificação indicativa de 18 anos por conter violência extrema e drogas.
Dono do jogo lamentou mortes
Após o banimento do videogame nas Filipinas, Felix Filip, desenvolvedor do jogo, lamentou as mortes em um comunicado oficial.
“Estou de coração partido”, disse.
Em seu posicionamento, o alemão lembrou que o GoreBox é um jogo para maiores de idade.
“O desenho dele não é para para menores e a distribuição segue normas de verificação de idade do Steam e do Google Play”, afirmou.
O desenvolvedor também destacou outras ferramentas de “segurança” do videogame, como um aviso de que o jogo é somente uma ficção. Além disso, ele afirmou que coopera com as autoridades das Filipinas e que entende a cautela no país.
“Nenhum desenvolvedor consegue verificar a idade de todas as pessoas que baixam seus videogames. É por isso que as verificações de idade e os controles parentais existem. Eu vou apoiar qualquer esforço razoável para fazer essas verificações funcionarem melhor.”
Um debate antigo
O debate sobre a relação entre videogames e atos violentos não é novidade, principalmente quando ataques a tiros acontecem.
Desde o massacre de Columbine, passando por ataques em outras escolas, universidades e até mesmo em supermercados: a ligação de atiradores com jogos online acaba em foco quando um crime violento acontece.
Na contramão dessas acusações, um estudo de 2019 da Universidade de Oxford afirmou que não há ligações concretas que conectem videogames a atos violentos na vida real.
O estudo, coordenado pelo professor Andrew K. Przybylski, consta na revista acadêmica The Royal Society e analisou adolescentes britânicos com entre 14 e 15 anos.
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