Conteúdos criados com inteligência artificial — textos, imagens, vídeos e áudios cada vez mais realistas — não se limitam a deixar as pessoas inseguras e desconfiadas do que veem online.
Segundo um novo relatório da YouGov em parceria com a Meltwater, a preocupação mais ampla é coletiva: a de que o público, de forma geral, tenha cada vez mais dificuldade para distinguir conteúdos reais daqueles gerados por máquinas.
No estudo Trust in the Age of Generative AI, o YouGov ouviu 9,8 mil adultos na Austrália, Canadá, França, Alemanha, Singapura, Reino Unido e Estados Unidos. E a Meltwater analisou conversas online sobre a tecnologia.
Entre os entrevistados, 58% dizem confiar na própria capacidade de identificar conteúdos produzidos por IA. Ao mesmo tempo, 87% afirmam estar preocupados com a dificuldade que as pessoas terão para distinguir o que é real do que foi criado por inteligência artificial.
“A revolução da IA generativa não é apenas uma mudança tecnológica; é um desafio de confiança, diz Andrew Farmer, diretor global de Relações Públicas e Editorial da YouGov.
O que mais preocupa o público desconfiado da IA
O receio mais citado pelos participantes da pesquisa está relacionado ao uso da inteligência artificial para criar notícias falsas ou golpes.
Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados demonstram preocupação com esse tipo de uso da tecnologia.
Outros 69% temem que conteúdos produzidos por IA disseminem desinformação, incluindo informações incorretas ou propositalmente enganosas. Já 67% acreditam que ficará cada vez mais difícil distinguir materiais produzidos por pessoas daqueles gerados por inteligência artificial.
O estudo também aponta preocupações relacionadas ao funcionamento dessas ferramentas.
Entre os entrevistados, 63% receiam que sistemas de IA copiem ou reutilizem trabalhos de outras pessoas sem o devido crédito.
Outros 58% demonstram preocupação com o uso de dados pessoais ou sensíveis sem autorização, enquanto 55% temem que a IA reproduza discriminação ou pontos de vista injustos.
Mais do que receios isolados, esses resultados mostram que a discussão sobre IA vem sendo acompanhada por preocupações com autenticidade, transparência e confiabilidade das informações.
A aceitação da IA depende do contexto
O relatório também perguntou aos entrevistados em quais contextos consideram aceitável o uso da IA generativa.
Os resultados mostram que a percepção muda de acordo com o tipo de conteúdo em que a tecnologia é utilizada.
Entre os cenários avaliados, o maior nível de aceitação aparece em conteúdos de entretenimento, com 53%. Em seguida vêm a publicidade de produtos, com 47%, e os conteúdos educacionais, com 44%.
À medida que aumenta a expectativa de precisão, credibilidade ou impacto social, a aceitação diminui. Apenas 28% consideram aceitável o uso da IA em marketing de influência, 21% em reportagens jornalísticas e 18% em propaganda política, o menor índice registrado pelo estudo.
Mais do que indicar aprovação ou rejeição da tecnologia, os dados sugerem que quanto maior a responsabilidade associada ao conteúdo, menor tende a ser a tolerância ao uso da inteligência artificial.
Benefícios convivem com preocupações
A pesquisa mostra, no entanto, que os entrevistados não enxergam apenas riscos na expansão da IA generativa.
Entre os principais benefícios apontados estão a produção mais rápida de conteúdo, citada por 40% dos participantes, a geração de ideias durante bloqueios criativos, com 37%, e a redução de erros de ortografia e formatação, com 35%.
Essas vantagens convivem com preocupações persistentes sobre autenticidade, transparência e qualidade da informação, indicando uma percepção mais complexa do que uma simples aceitação ou rejeição da tecnologia.
Entusiasmo ainda é moderado
O levantamento também avaliou como os consumidores enxergam o futuro da inteligência artificial. Globalmente, 39% afirmam estar animados com a evolução da IA, enquanto 51% dizem não compartilhar desse entusiasmo.
Entre pessoas de 25 a 34 anos, 48% demonstram entusiasmo com a tecnologia. Entre aqueles com 55 anos ou mais, esse percentual cai para 31%.
A pesquisa também mostra diferença entre homens e mulheres: 45% dos homens demonstram expectativa positiva em relação ao futuro da IA, ante 34% das mulheres.
Como a IA aparece nas conversas online
Além da pesquisa de opinião conduzida pela YouGov, o relatório traz uma análise da Meltwater sobre como a inteligência artificial generativa vem sendo discutida em mídias e redes sociais.
Essa parte do estudo analisou cerca de 150 milhões de menções e sinais de engajamento relacionados à IA ao longo de 12 meses, com base em palavras-chave como ChatGPT, LLMs e agentes de IA.
O levantamento mostra que as conversas sobre inteligência artificial cresceram 53% entre março de 2025 e fevereiro de 2026, passando de 10,3 milhões para 15,8 milhões de menções. A cobertura de mídia respondeu por 34% do total.
Segundo a Meltwater, os posts de maior engajamento foram impulsionados principalmente por plataformas sociais. Ao todo, 92% vieram das redes, com o TikTok à frente, enquanto apenas 8% tiveram origem em veículos jornalísticos online.
Redes sociais são mais críticas que a cobertura jornalística
A análise também identificou uma diferença de tom entre a cobertura da imprensa e as conversas nas plataformas sociais.
Enquanto 49% da cobertura jornalística analisada foi classificada como positiva em relação à IA, apenas 25% das conversas sociais tiveram esse mesmo tom. Nas redes, as discussões foram mais neutras e críticas.
O relatório aponta ainda que a preocupação com a dificuldade de distinguir conteúdos reais daqueles gerados por IA representa 19% das conversas online sobre o tema. Esse percentual fica bem acima das menções a propriedade de conteúdo, com 1%, e deepfakes, com 0,4%.
Essa diferença ajuda a mostrar que a inquietação em torno da IA não se limita a casos específicos de manipulação visual.
Nas conversas online analisadas pela Meltwater, o tema mais recorrente é a perda de clareza sobre a origem e a autenticidade dos conteúdos.
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