Dona de realities populares como Love Island e de um streaming gratuito no Reino Unido, a ITV, uma emissora aberta, teve seu braço de exibição comprado pela Sky, canal de notícias por assinatura controlado pela gigante americana Comcast, dando origem à maior rede de TV comercial do país.
O valor da transação foi de 1,6 bilhão de libras (o equivalente a R$ 11 bilhões), com a promessa de outros investimentos bilionários por parte da Sky, reconhecida pela qualidade de suas produções artísticas e de seu jornalismo, tanto localmente como em grandes coberturas internacionais.
A fusão de canais tão diferentes – uma rede privada e outra que nasceu como emissora de serviço público e vinha sendo operada por um grupo de licenciados regionais -, é inusitada mas necessária, de acordo com os dois lados da transação.
Ao anunciar o acordo, a Sky e a ITV ressaltaram o desejo de criar um serviço de streaming bom o suficiente para competir com grandes nomes mundiais, como Netflix, Amazon, YouTube e Disney, que ganharam a atenção e o tempo de tela dos britânicos mais jovens.
Aos olhos de alguns analistas o acordo é muito mais fruto da necessidade de adaptar a TV aos novos tempos do que da vontade de dominar os meios de comunicação do país. Resta saber se as autoridades de fiscalização do Reino Unido vão aceitar esta versão.
Competição com streamings globais
De acordo com o comunicado sobre a fusão, a ideia da compra é criar um “campeão nacional de streaming focado no Reino Unido”.
A ITV deve descartar todo o seu conteúdo não-britânico e “importar” esses serviços da sua nova dona, com uma economia anual de £ 100 milhões.
O novo grupo deve concentrar cerca de 70% do mercado publicitário de televisão linear no Reino Unido, ganhando fôlego dentro do mercado com as gigantes americanas.
Além disso, a empresa deve economizar outros £ 100 milhões divididos entre marketing e no corte de alguns empregos. De acordo com a Sky, a expectativa é de que as vagas cortadas sejam nas áreas corporativas e comerciais.
O que é a ITV
A Independent Television é a maior emissora comercial do Reino Unido, com atuação desde 1954. Ela opera hoje com canais de TV aberta, com uma plataforma de streaming (ITVX) e pelo ITV Studios, um dos maiores estúdios de produção do mundo.
Ao contrário da BBC e de outros canais britânicos, com um foco maior em serviços públicos e educacionais, a ITV tem um grande braço no entretenimento. Ela é dona da Coronation Street, uma das novelas mais antigas do mundo ainda em transmissão, no ar desde 1960.
A emissora também é produtora de muitos realities famosos, cujos formatos foram exportados para outras partes do mundo. Entre esses realities estão o fenômeno Love Island e o I’m a Celebrity… Get me out of here.
A ITV também foi responsável pela criação do programa X Factor e pelo Britain’s Got Talent, versão britânica do America’s Got Talent. Hoje, segundo estimativas do próprio canal, ele atinge 40 milhões de pessoas por semana e tem mais de 16,5 milhões de usuários digitais mensais.
Os detalhes do acordo
O acordo prevê o pagamento de £ 1,2 bilhão quando a fusão acontecer e de outros £ 200 milhões no segundo semestre de 2028. O pagamento milionário vai depender do desempenho das receitas publicitárias da ITV em 2027.
Além disso, o acordo prevê a compra da produtora Love Productions por outros £ 200 milhões. A ITV Studios, responsável por produzir programas como Love Island, ficou de fora do acordo. Ela vai permanecer como uma empresa independente
Apesar de deixar a ITV Studios como uma companhia independente, a Sky se comprometeu a gastar pelo menos £ 2,1 bilhões em encomendas para os estúdios entre 2028 e 2032, que devem ser focadas no streaming. Isso dá uma garantia de receita futura à marca, que vai “andar sozinha” e também garante que os programas mais populares do canal sigam em produção.
A emissora tem uma licença de serviço público no Reino Unido válida até 2034. A programação continuará gratuita até lá e, de acordo com a diretoria da Sky, há previsão de que algumas transmissões da rede privada sejam veiculadas na TV aberta.
Sky: um braço dos EUA no Reino Unido
Por trás da promoção de um conteúdo totalmente britânico, a Sky sempre é vista por alguns como um “braço americano” na região.
A sua criação, em 1989, foi da 21st Century Fox, do bilionário Rupert Murdoch. Em 2018, o magnata da comunicação vendeu a companhia para a Comcast, proprietária da Universal Studios.
A empresa também é proprietária da NBCUniversal (dona da NBC e CNBC), da DreamWorks Animation e do serviço de streaming Peacock.
Antes de anunciar a compra da ITV, a Comcast anunciou que separaria todas as suas atividades de tecnologia das suas atividades de mídia. Com isso, a NBCUniversal e a Sky foram reunidas em uma nova empresa de capital aberto. A empresa vai levar o nome da NBCUniversal.
As mudanças nos Estados Unidos, que devem levar um ano, não afetarão as negociações no Reino Unido, segundo a Sky.
Uma mistura inusitada
Enquanto a ITV tem um perfil mais popular e de entretenimento, a Sky, fundada em 1989, funciona como o maior canal por assinatura do país, operando um streaming de menor relevância e com canais próprios que transmitem séries de drama, documentários e esportes.
A programação da Sky sempre teve ares mais sérios, em um contraste claro com a ITV. Por exemplo: foi a Sky que transmitiu no Reino Unido grandes produções da HBO, como Game of Thrones e Succession.
Ela teve também participação na coprodução da série Chernobyl, um drama que fez sucesso em 2019.
Com diferenças tão grandes, a união das duas marcas seria, até poucos anos atrás, algo sem sentido. O que fez elas se aproximarem, porém, foi um inimigo maior: a disputa pela atenção dos mais jovens.
Com a TV no seu formato tradicional em declínio, principalmente entre os jovens de 16 a 24 anos, a união entre os dois times é mais do que uma transação financeira: virou uma necessidade para sobreviver.
Este será o principal argumento das empresas às entidades reguladoras britânicas, que vão decidir se aprovam ou não a fusão. A expectativa é de que o processo de revisão da CMA (Competition and Markets Authority) e da Ofcom dure entre 12 e 18 meses.
“Em um momento de rápidas mudanças no setor, é correto garantir agora o papel fundamental da ITV como emissora de serviço público, e esta transação torna isso possível.”, afirmou Andrew Cosslett, presidente da ITV.
Como fica o jornalismo
Ao contrário do serviço de streaming, a Sky News e o ITV News, braços jornalísticos das emissoras – que têm escopos bem diferentes – permanecerão separados. Em seu comunicado, a CEO da Sky, Dana Strong, afirmou que as duas companhias seguirão com operações “distintas e independentes”.
Strong disse, ainda, que a Sky quer dar mais visibilidade às notícias regionais da ITV. O maior afetado jornalístico nessa transação deve ser o ITN (Independent Television News), a produtora de notícias que fornece conteúdo para a ITV, para o Chanel 4 e Channel 5.
Hoje, a ITV tem 40% de participação na empresa. Depois da fusão, a previsão é de que metade dessa participação (20%) vá para a Sky. Ou seja: a companhia, que já tem o seu próprio serviço de notícias, será coproprietária da empresa que produz notícias para seus concorrentes.
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