© Conteúdo protegido por direitos autorais

Crianças e inteligência artificial

De tradução a conselho: como as crianças usam a IA no mundo, segundo a Unicef

Levantamento em 10 países aponta que menores de idade usam três vezes mais IAs do que os seus responsáveis, e acreditam que têm mais domínio sobre a internet do que eles

Menina cumprimenta robô alimentado por IA, tecnologia que vem sendo cada vez mais usada na educação

Foto: Andy Kelly / Unsplash




A maioria das crianças do mundo que usa ferramentas de IA pede ajuda aos chatbots para fazer trabalhos escolares, mostra um levantamento da Unicef. A análise leva em consideração dados da Armênia, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Jordânia, México, Montenegro, Macedônia do Norte, Paquistão e Sérvia.

Nenhuma dessas nações tem proibição de redes sociais para menores. Em sua pluralidade, elas ilustram diferentes costumes, condições sociais e acessos à tecnologia.

Além de mostrar o perfil dessas crianças tecnologicamente incluídas, a análise da Unicef também mostra que a mesma IA que inclui pode violar direitos e a dignidade dos menores. E que nem todos eles têm ciência disso.

Dever de casa e tradução: como as crianças usam a IA

De acordo com a pesquisa, 60% das crianças que usam IA buscam na tecnologia ferramentas para pedir ajuda com o dever de casa. Esse número equivale a 13 milhões de pessoas.

O segundo serviço mais usado pelas crianças e adolescentes é o de “buscar informação” (47%). E isso confirma as preocupações com o futuro do jornalismo tradicional, com as novas gerações se afastando cada vez mais das fontes usada por seus pais e avós.

Ele vem seguido do uso para criar e editar vídeos (30%) e do uso da IA para traduzir (24%).

Uma porcentagem menor, mas ainda assim expressiva da pesquisa é a de crianças que consultam as IAs para “buscar conselho para algo que as preocupa” (11%).

Nesse caso, os números divergem de acordo com o país. O Brasil, por exemplo, está na média, com 10% das crianças buscando conselhos. Já a Itália aparece no topo da lista, com 40%.

Adolescentes são maioria entre os que usam IA

A proporção das crianças que já usaram IA pelo menos uma vez nos 10 países pesquisados é de 38% e os adolescentes mais velhos são os mais adeptos à tecnologia.

Para aqueles com entre 12 e 14 anos, a porcentagem dos usuários de IA é de 33%. Já para os que têm de 15 a 17 anos, o número é de 44%.

As crianças têm mais de três vezes mais chances de usar sistemas de IA do que seus pais. Isso acaba causando aos menores um sentimento maior de “pertencimento” ao ambiente digital.

No caso do Brasil, 72% das crianças acreditam que sabem mais sobre internet do que os seus pais, em uma era em que muitos adultos que têm filhos pequenos são eles próprios nativos digitais.

Benefícios podem esconder riscos

Os números divulgados pela Unicef mostram que o acesso das crianças à IA pode trazer benefícios para a criatividade ou aumentar o campo de aprendizagem.

Por outro lado, a exposição à IA pode causar alguns riscos. Um deles é o de “cognitive offloading”, quando o raciocínio deixa de ser das crianças e passa a ser das máquinas.

Outro é a dependência emocional e um terceiro, alvo de debates recentes no mundo, é o de ter a imagem sexualizada.

Os grandes riscos destacados pela análise da Unicef fazem coro a um estudo publicado em maio de 2026 pelo Centro para a Democracia e Tecnologia, uma ONG de Washington D.C., que mediu os “padrões obscuros” reforçados por IAs generativas no mundo.

Esse estudo mostrou que o nível de companheirismo e suporte emocional oferecido pelas IAs pode ser perigoso, principalmente para algumas pessoas mais vulneráveis, como crianças.

A IA e o abuso sexual infantil

A pesquisa da Unicef mostra que ao menos 1,2 milhão de menores foram vítimas de imagens ou vídeos sexuais falsos criados por IA.

O número é ainda mais preocupante do que o de um relatório da organização britânica Internet Watch Foundation mostrou que, ao longo de 2025, mais de 8 mil fotos e vídeos foram criados com IA generativa mostrando crianças sendo abusadas sexualmente de forma realista.

A “nudificação”, um método que usa a tecnologia para modificar digitalmente fotos e produzir nudes falsas, surge como uma ameaça direta ao direito de proteção das crianças.

A criação de deepfakes realistas que sexualizam crianças é descrita como uma das formas mais graves de dano causado pelas IAs.

O principal estudo usado pela Unicef para balizar as diretrizes sobre IA para crianças é o Disrupting Harm, que analisou dados sobre abuso sexual infantil online em 10 países, incluindo o Brasil.

Além de ressaltar as vulnerabilidades causadas pela IA, o estudo mostra que a exploração “apenas online” acaba sendo minimizada por adultos e profissionais, o que pode impedir as crianças de buscarem ajuda. Isso pode, ainda, permitir que agressores ajam sem serem responsabilizados

Crianças se preocupam com as IAs, mas não tanto

A análise da Unicef também listou preocupações que crianças e adolescentes têm em relação ao avanço das IAs. O que ela apontou é que nem todos parecem tão cientes dos riscos da exposição à tecnologia.

No Brasil, por exemplo, 30% das crianças afirmaram não ter nenhuma preocupação com a tecnologia. Outras 23% não souberam expressar opinião sobre o assunto, ou preferiram não responder.

De um ponto de vista global, a maioria das crianças (34%) se preocupa com o uso da IA para golpes, seguida de 32% que temem o uso da tecnologia para a disseminação de notícias falsas.

O medo de imagens sexualizadas, tema que é apontado como um dos maiores riscos para os menores hoje, fica somente em terceiro lugar, com 26%.

O levantamento sobre as preocupações evidencia outro fator importante: a falta de educação sobre os reais impactos da IA em alguns países.

De acordo com a análise da Unicef, a depender do país, a porcentagem de menores preocupados com “a IA dar conselhos ruins” varia bastante, indo de 5% a 41%.

Diante dos riscos e preocupações, o órgão sinalizou cinco pontos de recomendação a governos, setor privado e sociedade civil sobre o assunto.

Como a Unicef mediu o uso de IA por crianças

Os dados publicados pela Unicef são de pesquisas de 2025 e 2026.

Além de estudos próprios, como o projeto Disrupting Harm, realizado em 10 países, o órgão também usou dados do Save The Children International, do Pew Research Center, do 5Rights Foundation e do EU Kids Online.

Os estudos buscaram uma “gama diversificada de países” para garantir que as evidências não ficassem restritas apenas às nações mais ricas. Eles consideraram, também, nações onde o uso de tecnologia por crianças é crescente.

As recomendações da Unicef

A urgência de “alfabetizar” crianças e seus pais em IA, fomentando um pensamento crítico nelas, foi um dos pontos levantados pela Unicef.

Dentro dele, o órgão lembrou da necessidade de ensinar a reconhecer que os chatbots de acompanhamento não são humanos, estão sujeitos a viés, a causar dependência emocional e até mesmo reforçar alucinações.

Em outra ponta, o órgão também ressaltou a importância de investir em pesquisas sobre o impacto da IA no desenvolvimento infantil.

“Isso inclui efeitos cognitivos e pedagógicos, como o ‘offload thinking’, o raciocínio crítico e as dificuldades produtivas de quando a IA é usada para tarefas de casa sem orientação”, diz trecho do documento.

Investir em infraestrutura digital e conectividade para todas as crianças e seus cuidadores também foi um ponto levantado pela organização.

A Unicef lembrou que o maior foco das autoridades deve ser as comunidades marginalizadas, onde crianças têm menos acesso ao desenvolvimento de tecnologias que definirão seu futuro.

Pensando na segurança, uma das orientações foi a de criminalizar a criação e distribuição de material de abuso gerado por IA e a de projetar esses sistemas com o máximo de segurança e transparência.

error: Este conteúdo é protegido por direitos autorais.