Práticas, personalizadas e muitas vezes gratuitas, as IAs generativas cresceram vertiginosamente nos últimos quatro anos, abocanhando bilhões de acessos e mudando a forma como o mundo consome conteúdo na internet.
O que “começou” com o ChatGPT, da OpenAI, logo se tornou uma corrida por quem sabe fazer melhor e quem oferece serviços mais diferenciados.
O pioneiro é de longe o mais popular, detendo mais da metade dos acessos a chatbots. Mas há muito mais nesse universo, em que a maior não é necessariamente a melhor para todos, nem a que cresce mais rápido – e nem a mais perigosa.
Enquanto outros países tentam acompanhar a disputa iniciada pelos Estados Unidos, organizações debatem formas de legislar sobre uma tecnologia nova, que avança rapidamente e para muitos especialistas, traz consequências sociais perigosas.
IAs existem há décadas
Apesar de ter se popularizado desde o lançamento do ChatGPT, a Inteligência Artificial não é uma novidade. Os estudos em torno dela começaram na década de 1950 e versões mais simples já faziam parte do nosso dia a dia.
Elas estavam, por exemplo, em formato de IAs assistenciais na Siri e na Alexa, ou nos filtros de segurança de e-mail, separando o que é spam e o que não é. É também a IA que sugere quais filmes você pode gostar de assistir em plataformas como Netflix.
Mas a IA generativa ganhou o mundo em 2022, quando a invenção da OpenAI transformou de vez nossas interações com a tecnologia, abrindo o mercado para concorrentes de todos os tipos e tamanhos.
As mais populares
De acordo com um levantamento publicado na primeira semana de julho pela agência americana Momentic, usando dados da plataforma de monitoramento SimilarWeb, o ChatGPT responde por 53,9% das visitas mundiais à web considerando s sete maiores chatbots, à frente do Google Gemini (27,9%) e Claude (9,2%) da Anthropic.

Juntos, os sete atraíram um total combinado de 10,40 bilhões de visitas à web em um mês. O mercado é desigual. ChatGPT e Google Gemini juntos detêm cerca de 82% das visitas medidas, e os outros cinco assistentes dividem os 18% restantes, segundo a Momentic.
Além dos chatbots ‘dedicados’
É importante lembrar que os modelos mais populares de IA vão além dos chatbots.
Eles são baseados em LLMs (Large Language Models, ou modelos de linguagem de grande porte), que podem ser utilizados em diversas aplicações, desde assistentes virtuais até ferramentas de programação, tradução, análise de documentos e geração de conteúdo.
Em outro ranking, publicado pelo fundo de investimentos Andreessen Horowitz a partir de dados da SimilarWeb e da SensorTower, também há outras plataformas que não são chatbots entre as 15 mais populares.
Entre elas estão o Canva, de edição de imagens e vídeos, o Notion, de organização de atividades, e o Suno, de música.

O Raio-X das IAs mais populares
ChatGPT
De propriedade da americana OpenAI, o ChatGPT chegou ao mercado em 30 de novembro de 2022. Apesar de não ser a primeira IA generativa do mundo, ela foi a primeira lançada para o público e é indiscutivelmente um divisor de águas na forma como o mundo usa a internet.
Após “ensinar” ao público como conversar com um chatbot, a plataforma abraça hoje 53,9% dos acessos mundiais do ramo, com mais de 1 bilhão de usuários ativos mensais.
O ChatGPT é gratuito para o público, mas tem opções mais avançadas com valores diferentes. O preço das assinaturas da IA vão de US$ 10 mensais na versão Go até US$ 25 mensais na versão Business, voltada para empresas.
Ao mesmo tempo, tem sido uma das mais criticadas, junto com a Grok, com processos judiciais alegando contribuição para crimes ou suicídio.
Leia também | Flórida processa OpenAI e Sam Altman por ‘ajuda’ do ChatGPT a atirador que matou 2 em universidade
Gemini
Em segundo lugar entre as IAs mais acessadas, com 27,9% da participação mundial, o Google Gemini foi lançado oficialmente no fim de 2023. Em fevereiro de 2026, a companhia teve mais de 750 milhões de usuários ativos mensais.
Entre as suas concorrentes, ela foi a que cresceu mais: quase 900% entre setembro de 2024 e março de 2026. O grande crescimento pode ter relação com as atividades do Google, que integrou o Gemini dentro dos sistemas operacionais do Android.
O uso do Gemini é gratuito, mas o acesso aos modelos avançados dele estão dentro dos planos de IA da Google, que vão de US$ 4,99 por mês na sua versão mais simples até US$ 200 por mês na sua versão avançada.
Claude
Com 9,2% da fatia do mercado, o chatbot Claude, uma criação da Anthropic, chegou ao mundo em março de 2023, criada por ex-executivos da OpenAI.
Ele tem cerca de 56 milhões de usuários ativos mensais e, de acordo com a SimilarWeb, teve o maior percentual de crescimento entre suas concorrentes, com aumento de 770% no seu número de acessos entre setembro de 2024 e março de 2026.
Assim como seus concorrentes, seu modelo oferece planos premium, que operam de forma mais avançada e “priorizam o acesso em horários de pico”. Essas versões custam entre US$ 100 e US$ 200 por mês.
A Anthropic tem se destacado em relação às suas concorrentes americanas por um perfil mais independente e visto por muitos como ético.
A empresa encarou uma briga com o governo Trump em torno do uso de sua tecnologia para fins militares. E foi a única convidada pelo Papa Leão XIV para falar no lançamento da encíclica dedicada à inteligência artificial.
Leia também | Na encíclica da IA, Papa Leão XIV propõe “ecologia da comunicação” e defende jornalismo sério
DeepSeek
A líder chinesa na lista de IAs generativas mais populares foi criada em dezembro de 2023. Ela chocou por mostrar bons resultados, mesmo com uma fração do investimento dos seus concorrentes, e segue popular, mesmo após a divulgação de falhas éticas e de segurança.
Hoje, a DeepSeek tem 4,1% da fatia global, com uma média de 130 milhões de usuários mensais ativos.
Ela não tem versões “pró” para usuários comuns, mas tem um valor entre US$ 0,55 e US$ 3,48 por 1 milhão de tokens para desenvolvedores.
Um token é uma pequena unidade de texto gerada pela IA, usada como medida para calcular o valor pago pelo usuário que contrata a linguagem para operar um sistema próprio, como um chatbot.
Leia também | DeepSeek: estudo revela discriminação ‘alarmante’ no conteúdo gerado pela IA chinesa
Grok
Desenvolvida pela xAI, empresa de tecnologia de Elon Musk, o Grok foi criado em novembro de 2023 e incorporado oficialmente à rede social X em dezembro de 2024.
Ele funciona como um assistente integrado à plataforma, que responde a comandos e tira dúvidas dos usuários em tempo real.
Sua integração ao X causou um aumento vertiginoso de usos da IA generativa, que hoje tem uma fatia de 2,4% dos acessos mundiais, com média de 100 milhões de usuários, de acordo com dados da própria empresa.
Os usuários podem usar a versão gratuita, ou contratar planos avançados do chatbot, que vão de US$ 10 por mês (na verão SuperGrok Lite) e US$ 300 por mês (na versão SuperGrok Heavy).
A IA de Elon Musk chama atenção não só pelas suas inovações, mas pelo risco substancial que apresenta para alguns usuários. Um estudo conjunto de universidades americanas e do Reino Unido apontou que o Grok é o chatbot com maior risco de reforçar crenças delirantes de usuários.
Além disso, investigações criminais foram abertas nos Estados Unidos e na Europa para entender o papel desta IA na sexualização de imagens de crianças e adolescentes.
IAs da China
Diante da popularidade de muitas das suas IAs e das polêmicas as envolvendo, a China tem discutido a possibilidade de restringir o acesso internacional aos seus modelos de ponta. Chefes de grandes empresas foram chamados para conversas com o Ministério do Comércio do país, segundo a agência Reuters.
Mas, quais são as IAs mais populares na China?

Foto: @Alibaba_Qwen/X
Qwen (da Alibaba)
Um dos principais nomes da IA generativa na China hoje é o da Qwen. Ela foi lançada em abril de 2025, tem interface em português e em mais de 200 idiomas.
Além do clássico chatbot, que é gratuito ao público, a Alibaba oferece duas funções diferentes ao usuário. A primeira delas é a open-weight, que funciona em servidores corporativos, dando mais liberdade aos seus desenvolvedores. A segunda é a versão plus, que funciona dentro da nuvem da empresa..
O uso da IA custa entre US$ 0,05 e US$ 0,40 por um milhão de tokens na versão para desenvolvedores. De acordo com a própria companhia, ela tem mais de 200 milhões de usuários mensais e opera em mais de 90.000 empresas.
Por trás do logo fofinho, porém, a Qwen já esteve envolvida em polêmicas. No começo do ano, uma pesquisa do China Media Project apontou que a IA recebe treinamento específico para dar respostas positivas sobre temas delicados envolvendo o país.
Para especialistas, esta é mais uma forma de operar o “soft power” chinês internacionalmente.
Leia também | IA chinesa Qwen3 é treinada para ‘ser positiva’ e evitar críticas em respostas sobre o país, aponta pesquisa
Seedance (ByteDance)
Vendida como um dos maiores modelos de IA da dona do TikTok, a Seedance foca na geração de vídeos. Sua versão mais recente, a 2.0, lançada em fevereiro, foi vendida como uma forma de “dar controle à narrativa audiovisual” a partir de prompts simples.
A plataforma, que cria cenas a partir dos prompts, é paga, mas seus preços variam. O plano mais básico dela custa US$ 19,90 por mês. Já a versão mais cara, custa US$ 89,90 por mês.
De acordo com dados da própria ByteDance, a nova versão do Seedance tem 24 milhões de usuários registrados e gera cerca de 6 milhões de vídeos por dia.
Ela não é a única plataforma de IA da dona da TikTok, que também opera em outros braços com plataformas como a OmniHuman, que transforma fotos em avatares realistas, e a Coze, que desenvolve assistentes de IA personalizados.
Assim como a Qwen, a popularidade da IA chinesa logo causou polêmica, principalmente em Hollywood.
Após um frisson causado por um vídeo de IA mostrando uma luta de Brad Pitt com Tom Cruise, a Disney deu um ultimato à ByteDance, que respondeu a uma notificação judicial com um pedido de desculpas e disse que “tomaria medidas” para resolver a situação.
Leia também | Dona do TikTok diz que vai limitar recursos da IA Seedance após notificação da Disney por direitos autorais
GLM-4.7 (Z.ai)
O GLM-4.7, versão mais recente da empresa de IA chinesa Z.ai, é uma plataforma focada em programação, capaz de usar comandos simples para desenvolver códigos e gerar dados.
Em outra ponta, mais simples ao “usuário comum”, ela também pode funcionar como o ChatGPT, fazendo traduções, escrevendo e-mails ou conversando.
O modelo atual da marca foi lançado em dezembro de 2025. Ao contrário das outras empresas, a Z.ai não divulga a quantidade de usuários que tem.
A plataforma é gratuita para usuários comuns, mas, no caso de desenvolvedores, seus preços variam.
Seus modelos diferentes custam entre US$ 0,07 e US$ 4,40 por um milhão de tokens e os usuários também podem pagar taxas mensais, que vão de US$ 18 a US$ 160 por mês.
IAs “afetivas” e polêmicas

Foto: Replika/Reprodução
Correndo “por fora” do mercado chinês e dos mercados mais populares de IA, algumas plataformas usam linguagens já existentes para focar em uma interação mais afetiva com o usuário – o que pode ser perigoso.
Essas IAs compram o serviço de desenvolvedor e os adapta para conversar de uma forma “mais carinhosa” com o público – cobrando por isso.
Um estudo do Centro Para Democracia e Tecnologia listou algumas delas, denunciando que elas podem reforçar o padrão obscuro de dependência emocional com a máquina, prejudicial ao usuário.
Leia também | Do carinho à sugestão de compras: IAs usam ‘padrões obscuros’ para manipular usuários, diz pesquisa
Replika: Meu amigo de IA
Vendida como a “IA com a inteligência emocional mais avançada já criada”, a Replika é um chatbot comum, com o adicional de responder de forma mais “afetuosa” e amigável aos seus usuários.
A primeira versão dela é de 2017, quando as IAs como conhecemos hoje ainda estavam engatinhando.
O chat básico da Replika é gratuito, mas os elementos mais avançados, como status românticos, ligações de voz com a IA e “mais elementos emocionais” podem custar de US$ 20 a US$ 30 por mês.
De acordo com a empresa de IA, ela tem 42 milhões de usuários em todo o mundo.
Character.ai
A plataforma, que também opera como um chatbot, permite a conversa de usuários com personagens virtuais ou com figuras históricas.
Nela, para além de uma conversa “comum” como as usadas com os chats mais populares, o usuário tem a impressão de conversar com humanos.
Ele também permite a avaliação de respostas da IA. Isso treina a plataforma sobre como responder, e permite a criação de personagens públicos, que podem interagir com outras pessoas.
De acordo com dados de 2025, a plataforma tem cerca de 20 milhões de usuários mensais.
Além da versão gratuita, ela também tem uma versão premium, com respostas mais rápidas dos personagens e acesso antecipado a recursos experimentais. Essa versão custa US$ 9,99 por mês.
Nomi AI
Vendendo um “companheiro de IA com verdade e alma”, a plataforma Nomi.AI chegou ao mercado em 2023 e foca na criação de personagens com “inteligência emocional”.
Ele permite a conversa não só por chat, mas também por áudio e envio de outras imagens.
O site da IA tem relatos de pessoas que supostamente namoram com personagens desenvolvidos na plataforma. Esses usuários afirmam que se sentiam “compreendidos” pelas IAs e que elas sabiam “sempre a coisa certa a dizer”.
A empresa não divulga o número de usuários mensais. Ela informou, porém, em fevereiro de 2026, que teve “mais de um milhão de usuários” usando as suas plataformas.
A sua versão gratuita tem um limite de mensagens trocadas e seu plano premium custa US$ 15,99 por mês.
Uncensored AI
Fora das IAs de relacionamento, mas dentro da lista de chatbots polêmicos e que podem reforçar padrões negativos, está a Uncensored AI.
Lançada em 2023, a plataforma é uma criação de dois empreendedores dos EUA. Ela se vende como um chatbot que “fornece informações brutas, sem filtros e objetivas”.
Comparada a outras IAs, ela é pequena: tem somente 250 mil usuários, de acordo com dados deste ano. O impacto que ela pode causar, porém, chama atenção.
Apesar de se vender como “apartidária”, ela ganhou muita propaganda de perfis conservadores, replicando uma série de inverdades sobre temas como pouso na lua, eleições nos EUA e vacinas.
A plataforma tem uma versão gratuita, mas pode custar entre US$ 10 e US$ 30 por mês nas suas versões premium.
Leia também | Anthropic tira novas IAs do ar no mundo após EUA exigirem bloqueio a estrangeiros até dentro do país
Leia também | Fake news em redes sociais crescem em ‘desertos de notícias’ sem jornalismo local, mostra estudo britânico






