Enquanto a Ucrânia continua resistindo à invasão russa, prolongando a guerra por mais tempo do que Vladimir Putin dizia esperar quando invadiu o país há quatro anos, a repressão contra jornalistas e veículos independentes na Rússia continua a se intensificar para controlar as narrativas oficiais.
Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), as autoridades da Rússia têm aplicado cada vez mais as legislações sobre terrorismo e extremismo para criminalizar profissionais da imprensa, organizações da sociedade civil e até pessoas que colaboram com elas.
De acordo com a RSF, mais de 60 jornalistas estão atualmente na lista oficial de “terroristas e extremistas”, mantida pela Rosfinmonitoring, agência federal russa de monitoramento financeiro.
Para a entidade, trata-se de um dos mecanismos mais severos usados pelo Kremlin para restringir a liberdade de imprensa.
A lista é apenas uma das etapas desse sistema. Antes de serem classificados como “terroristas” ou “extremistas”, muitos jornalistas e veículos independentes já haviam recebido o status de “agente estrangeiro” ou sido vinculados a “organizações indesejadas”.
Segundo a RSF, a combinação desses instrumentos amplia progressivamente as restrições legais, financeiras e profissionais impostas à imprensa independente.
Nem o Nobel protegeu Dmitry Muratov e seu jornal
Um dos casos mais conhecidos é o de Dmitry Muratov, cofundador do Novaya Gazeta e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2021 por sua atuação em defesa da liberdade de imprensa. Nem o reconhecimento internacional impediu que ele e seu jornal fossem alvo da repressão russa.
Em 2023, Muratov foi classificado como “agente estrangeiro” pelo Ministério da Justiça. O Novaya Gazeta teve sua licença revogada na Rússia, enquanto parte da redação passou a atuar no exílio por meio da Novaya Gazeta Europe.
Em abril de 2026, agentes de segurança realizaram uma operação na redação do jornal em Moscou e prenderam o jornalista Oleg Roldugin, em mais um episódio da pressão sobre veículos independentes.
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Leis contra o terrorismo se tornam instrumentos de repressão
Para a RSF, a legislação sobre terrorismo e extremismo, originalmente destinada ao combate de organizações violentas, passou a ser utilizada como instrumento de repressão política.
Dados compilados pela OVD-Info e citados pela RSF mostram que o número de pessoas incluídas na lista de “terroristas e extremistas” praticamente dobrou desde 2021.
Atualmente, cerca de 22 mil nomes integram o registro, e aproximadamente três vezes mais pessoas foram adicionadas em 2025 do que em 2021.
Segundo a organização, a inclusão pode ocorrer em qualquer etapa de um processo criminal, inclusive quando ainda há apenas suspeitas.
OVD-Info também entra na lista de extremistas
Entre os casos recentes está o da própria OVD-Info, organização que há 15 anos documenta prisões arbitrárias e violações de direitos humanos na Rússia e presta assistência jurídica gratuita a vítimas de perseguição política.
Em 4 de junho de 2026, a entidade foi incluída na lista de “terroristas e extremistas”. No dia seguinte, passou a integrar também o registro oficial de organizações “extremistas”.
A decisão teve como base uma sentença da Suprema Corte da Rússia, proferida em abril de 2026, que classificou como “extremista” o chamado “Movimento Público Internacional Memorial”. Segundo a RSF, trata-se de uma entidade que não existe juridicamente.
Ainda assim, as autoridades russas afirmam que ela reuniria a organização de direitos humanos Memorial e diversos parceiros, entre eles a OVD-Info.
A RSF afirma que o processo ocorreu sob sigilo, sem contraditório, com os autos classificados como confidenciais e sem divulgação pública da decisão judicial.
Consequências da repressão judicial para a sociedade
Segundo a organização, as consequências vão muito além das entidades diretamente atingidas.
Advogados, jornalistas, voluntários, doadores e até pessoas que compartilham conteúdos produzidos por essas organizações nas redes sociais podem ser investigados e responder criminalmente.
“Ao equiparar jornalistas, ONGs e defensores dos direitos humanos a ‘terroristas’ ou ‘extremistas’, Vladimir Putin e seu entorno procuram intimidar a população, isolar as vozes críticas ao governo e tornar impossível o trabalho jornalístico”, afirmou Jeanne Cavelier, chefe da divisão da RSF para Europa Oriental e Ásia Central.
De “agente estrangeiro” a “terrorista”
A RSF também destaca o caso de Tikhon Dzyadko, editor-chefe da emissora independente Dojd, também conhecida como TV Rain, atualmente no exílio.
Antes de ser incluído na lista de “terroristas e extremistas”, ele já havia sido classificado como “agente estrangeiro”, processado por supostamente divulgar informações falsas sobre o Exército russo e incluído na lista de pessoas procuradas pelas autoridades.
“O recado para o público é simples: essas pessoas são terroristas; não as escutem, não as leiam e não as assistam”, disse Dzyadko à RSF.
A organização cita ainda os jornalistas Kirill Martynov, editor-chefe da Novaya Gazeta Europe, e Ksenia Luchenko entre os profissionais enquadrados pelas autoridades.
Para a RSF, o uso combinado das classificações de “agente estrangeiro”, “organização indesejada”, “extremista” e “terrorista” consolidou um sistema de repressão destinado não apenas a punir jornalistas independentes, mas também a desacreditá-los perante a sociedade e dificultar a circulação de informações fora do controle do Estado.
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