O jornal New York Times entrou com um processo contra a Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego dos Estados Unidos (EEOC, na sigla em inglês) em resposta a uma outra ação movida pelo órgão, que acusa o jornal de discriminar um editor branco durante um processo de promoção interna.
O processo contra o New York Times, aberto em maio, é baseado na Lei dos Direitos Civis de 1964, que já proíbe discriminação por raça ou sexo. Sob Donald Trump, o governo passou a fiscalizar com mais rigor programas de diversidade que possam influenciar contratações ou promoções.
Na ação, protocolada em 10 de julho, o jornal afirma que o governo dos Estados Unidos está usando o processo como forma de retaliação por reportagens sobre a administração de Donald Trump e sobre a atuação da própria EEOC.
O Times também pede que a acusação de discriminação seja rejeitada pela Justiça.
Como começou a disputa sobre a promoção
O caso começou com a abertura de uma vaga para editor-adjunto da seção de imóveis do New York Times. O posto foi anunciado inicialmente em outubro de 2024, mas ninguém foi contratado naquela etapa. A vaga voltou a ser divulgada em janeiro de 2025.
A descrição do cargo citava experiência com reportagens sobre desenvolvimento imobiliário, mercado habitacional, decoração, design e arquitetura entre as qualificações procuradas.
Um dos candidatos foi Bryant Rousseau, editor do jornal desde 2014. Na época, ele trabalhava havia mais de nove anos como editor sênior na editoria internacional.
Antes disso, Rousseau havia passado pela editoria de negócios do Times, onde trabalhou com conteúdos relacionados ao setor imobiliário, entre outros temas. Ele também havia ocupado cargos de edição em publicações especializadas nos mercados residencial e imobiliário comercial.
Quem foi promovida pelo New York Times
Na petição inicial, a EEOC relata que Rousseau participou de uma entrevista inicial com Nikita Stewart, editora responsável pela seção de imóveis e pela condução da seleção.
Rousseau afirmou que foi informado de que deveria apresentar por escrito uma proposta para a cobertura da área, mas que não recebeu posteriormente esse pedido. Ele não avançou para o painel final de entrevistas.
Quatro pessoas chegaram à última etapa do processo seletivo: uma mulher branca, um homem negro, uma mulher asiática e uma mulher multirracial.
A escolhida foi Monica Burton, que havia trabalhado como editora-adjunta no Eater, site voltado à cobertura de gastronomia, restaurantes e cultura urbana.
O que a EEOC alega sobre a seleção
A EEOC afirma que Rousseau tinha experiência mais diretamente relacionada à cobertura imobiliária e que Burton não preenchia todos os requisitos descritos para a vaga.
O órgão também sustenta que uma pessoa integrante do painel avaliador considerou Burton pouco experiente para a função. Segundo a ação, ela ficou entre as duas candidatas com as avaliações mais baixas na etapa final.
Essas afirmações fazem parte da acusação apresentada pela comissão e ainda não foram confirmadas por decisão judicial.
Para a EEOC, a composição da lista de finalistas e a escolha de Burton teriam sido influenciadas pelos objetivos públicos do jornal de ampliar a presença de mulheres e pessoas não brancas em cargos de liderança.
O órgão afirma que Rousseau foi preterido por ser branco e homem, o que configuraria discriminação por raça e sexo proibida pela legislação trabalhista federal.
Como o New York Times responde à acusação
O New York Times nega que raça ou gênero tenham determinado a contratação. O jornal afirma que suas metas de diversidade eram objetivos institucionais, e não cotas ou exigências aplicadas às decisões de promoção.
A empresa também diz que a vaga de editor-adjunto da seção de imóveis não estava incluída entre os cargos abrangidos pelas metas citadas pela EEOC.
Segundo o jornal, Burton tinha experiência editorial considerada mais adequada para a função e apresentou uma proposta mais consistente para o futuro da cobertura imobiliária.
O Times afirma ainda que candidatos não brancos com mais experiência no setor imobiliário do que Rousseau também foram eliminados durante a seleção.
Para a empresa, esse fato contraria a alegação de que a raça dos concorrentes determinou o resultado.
Da denúncia do editor ao processo judicial
O caso chegou à EEOC depois de uma queixa apresentada por Rousseau. Após investigar o episódio, o órgão entrou com uma ação contra o jornal em maio deste ano.
A comissão pede reparações que podem incluir a promoção do editor ou uma compensação equivalente, além do pagamento de salários e benefícios que ele teria deixado de receber e de uma eventual indenização.
Em sua resposta, o New York Times acusa a EEOC de ter interrompido antecipadamente as tentativas de conciliação e levado o caso à Justiça uma semana depois da publicação de uma reportagem sobre mudanças na atuação do órgão.
A reportagem mencionada pelo jornal tratava de pressões internas para que a comissão priorizasse denúncias de discriminação apresentadas por homens brancos.
Acusação de retaliação contra o jornal
Na ação contra a EEOC, o New York Times afirma que o processo por discriminação faz parte de uma campanha de retaliação política relacionada à cobertura jornalística sobre o governo Trump e sobre a própria comissão.
O jornal argumenta que a atuação do órgão viola direitos relacionados à liberdade de expressão e ao devido processo previstos na Constituição dos Estados Unidos.
A EEOC não respondeu diretamente às acusações apresentadas pelo jornal, sob o argumento de que não comenta processos em andamento.
O caso segue na Justiça Federal de Manhattan. Até o momento, não há decisão sobre se a escolha para a vaga envolveu discriminação nem sobre a alegação do New York Times de que o processo foi usado como retaliação.
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