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Jornalistas do New York Times são intimados a depor após reportagem sobre segurança de avião de Trump

Profissionais não são acusados de crime, mas deverão responder a perguntas sobre a fonte que passou as informações, quebrando o sigilo

Avião presidencial dos EUA

U.S. Air Force VC-25B ( foto: Tech. Sgt. Isaac March / US Air Force via Wikimedia Commons)




Em mais um caso em que o sigilo da fonte jornalística é desafiado nos Estados Unidos, quatro repórteres do New York Times foram intimados pelo Departamento de Justiça a depor perante um grande júri federal, nesta quarta-feira (15), em uma investigação sobre o vazamento de informações relacionadas ao novo avião presidencial usado por Donald Trump.

Julian E. Barnes, Eric Lipton, Tyler Pager e Eric Schmitt receberam as intimações na sexta-feira (10). Segundo o jornal, agentes federais entregaram pessoalmente parte dos documentos nas residências dos repórteres.

As ordens foram emitidas pelo procurador federal de Manhattan, Jay Clayton, e determinam que os jornalistas prestem depoimento sobre uma suposta violação da legislação criminal federal.

O Departamento de Justiça afirma que os quatro jornalistas não são alvo da investigação, nem foram acusados de crime. O objetivo é identificar quem forneceu ao New York Times informações sobre as condições de segurança da aeronave, um presente do governo do Catar.

O jornal informou que pretende contestar judicialmente as intimações e afirmou que obrigar repórteres a depor sobre suas fontes representa uma ameaça à liberdade de imprensa e ao sigilo da fonte.

Depoimentos estão marcados para 15 de julho

As intimações determinam que os quatro repórteres compareçam em 15 de julho perante um grande júri federal em Manhattan. Esse tipo de júri atua de forma reservada na análise de provas reunidas por promotores e pode decidir se existem elementos para a apresentação de acusações criminais.

Segundo o Departamento de Justiça, a investigação está concentrada nas pessoas que teriam repassado informações protegidas ao jornal, e não nos profissionais que as receberam e publicaram.

Reportagens trataram da segurança do avião presidencial

A investigação está relacionada a reportagens sobre o Boeing 747-8 fornecido pelo Catar aos Estados Unidos e adaptado para transportar Donald Trump. O governo norte-americano investiu recursos na preparação da aeronave para o serviço presidencial.

Segundo informações publicadas pelo New York Times, o avião ainda não dispunha de todos os sistemas de proteção existentes nas aeronaves tradicionalmente empregadas como Air Force One.

Entre os pontos mencionados estava a ausência de determinados recursos de defesa contra mísseis.

O tema ganhou repercussão depois que Trump utilizou a aeronave recebida do Catar em parte de uma viagem, mas retornou de uma cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), na Turquia, em um avião presidencial mais antigo.

A mudança ocorreu em um período de tensão com o Irã.

A Casa Branca negou que a troca tivesse sido motivada por problemas de segurança. Trump apresentou outras justificativas para o uso da aeronave anterior, entre elas a possibilidade de exibir o novo avião a militares norte-americanos durante uma parada da viagem.

FBI pediu que informação não fosse publicada

Antes da publicação de uma das reportagens, o FBI procurou o New York Times e pediu que o conteúdo não fosse divulgado, alegando preocupação com a segurança nacional.

O jornal decidiu manter a publicação. De acordo com a posição apresentada pelo próprio Times, as condições de segurança de uma aeronave utilizada pelo presidente dos Estados Unidos constituíam uma questão de interesse público.

O jornal classificou a entrega dos documentos nas casas de alguns profissionais como uma tentativa de intimidação. Também declarou que buscar fontes dentro do governo faz parte do trabalho jornalístico e que o uso de instrumentos criminais para descobrir suas identidades pode dificultar futuras denúncias de interesse público.

Governo alterou regras para investigar fontes

As intimações ocorrem depois de uma mudança na política do Departamento de Justiça para investigações envolvendo profissionais da imprensa. Em abril de 2025, a procuradora-geral Pam Bondi revogou restrições instituídas durante o governo de Joe Biden.

As regras anteriores limitavam o uso de intimações, ordens judiciais e mandados de busca destinados a obter registros de jornalistas ou identificar fontes em investigações sobre vazamentos.

A política adotada sob Trump voltou a permitir essas medidas quando o Departamento de Justiça considerar que há indícios de crime e que outros meios de investigação foram esgotados.

O uso das ferramentas depende de autorização interna e deve, segundo o regulamento, ser delimitado ao material considerado necessário.

A mudança não criou uma obrigação automática para que jornalistas revelem suas fontes. Ela ampliou, porém, os instrumentos que promotores e investigadores federais podem usar para buscar registros, equipamentos ou depoimentos ligados a reportagens sobre informações governamentais protegidas.

FBI apreendeu equipamentos de repórter do Washington Post

O caso do New York Times ocorre seis meses depois de agentes do FBI cumprirem um mandado de busca na casa de Hannah Natanson, repórter do Washington Post, na Virgínia.

Na operação, realizada em 14 de janeiro, foram apreendidos o telefone da jornalista, dois computadores, um relógio digital e outros equipamentos eletrônicos. Natanson foi informada de que não era o alvo da investigação.

A busca estava relacionada ao caso de Aurelio Perez-Lugones, funcionário terceirizado do governo que possuía autorização para acessar informações sigilosas. Ele era investigado por manter documentos protegidos sem permissão e havia mantido contato com a jornalista.

O Washington Post recorreu à Justiça sob o argumento de que os aparelhos continham informações sobre muitas outras fontes e reportagens sem relação com o caso investigado.

Em janeiro, um juiz impediu temporariamente o governo de examinar os dados apreendidos. Outra decisão, em maio, manteve a proibição enquanto a disputa judicial prossegue.

Outras intimações foram retiradas

Em outro episódio, o Departamento de Justiça intimou Ellen Nakashima, repórter de segurança nacional do Washington Post, e três jornalistas do Wall Street Journal a depor perante um grande júri.

As convocações também estavam relacionadas a uma investigação sobre o possível vazamento de informações de segurança nacional. Os veículos contestaram as medidas e o governo retirou as quatro intimações antes da realização dos depoimentos.

O Departamento de Justiça não apresentou publicamente uma explicação detalhada para a retirada das ordens.

Jornalista independente recebeu ordem para revelar fonte

Há ainda outro caso recente, envolvendo Catherine Herridge, ex-repórter da Fox News e da CBS que atualmente trabalha de forma independente.

O caso decorre de reportagens publicadas em 2017 sobre Yanping Chen, cientista sino-americana que havia sido investigada pelo FBI.

Chen processou o governo dos Estados Unidos e buscou identificar a pessoa que forneceu informações à jornalista. Herridge recusou-se a revelar a fonte e foi considerada em desacato pela Justiça.

Uma decisão determinou que ela identificasse o contato confidencial ou pagasse uma multa de US$ 800 por dia. Em 26 de junho, o presidente da Suprema Corte, John Roberts, suspendeu provisoriamente a aplicação da penalidade para que o tribunal pudesse analisar o pedido emergencial da jornalista.

Em 2 de julho, a Suprema Corte rejeitou o pedido de Herridge para manter a suspensão. Com isso, permaneceu válida a ordem que exige a identificação da fonte ou o pagamento da multa diária.

Proteção varia conforme o processo e o tribunal

Nos Estados Unidos, não existe uma lei federal que garanta aos jornalistas o direito de manter suas fontes em sigilo em todos os casos. A principal referência continua sendo a decisão da Suprema Corte no caso Branzburg v. Hayes (1972), que afastou a existência de um privilégio constitucional absoluto para recusar depoimentos perante um grande júri.

Na prática, porém, a proteção varia conforme o tribunal e as leis adotadas por cada estado.

No caso dos quatro jornalistas do New York Times, a primeira disputa deverá se concentrar na validade das intimações e na possibilidade de o governo exigir que eles respondam a perguntas relacionadas à origem das informações publicadas.

Como o jornal anunciou que contestará as ordens, a realização dos depoimentos na data marcada dependerá das decisões judiciais tomadas antes de 15 de julho.

NYT x Trump

O episódio se soma a uma série de confrontos entre Donald Trump, seu governo e o New York Times nos tribunais. Em maio, a Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego dos Estados Unidos (EEOC) processou o jornal sob a acusação de que um editor branco e homem foi preterido em uma promoção interna por causa de sua raça e sexo.

O Times nega discriminação e respondeu com uma ação em que acusa o governo de usar o caso como retaliação por sua cobertura jornalística.

Trump também move uma ação pessoal por difamação contra o jornal, enquanto o New York Times contesta judicialmente restrições impostas pelo Pentágono ao trabalho da imprensa.

As intimações aos quatro repórteres ainda não constituem um processo contra o veículo, mas podem abrir uma nova disputa judicial caso o jornal peça à Justiça que as anule.


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