© Conteúdo protegido por direitos autorais

Caça aos imigrantes

EUA restringem vistos em nova ‘caçada aos imigrantes’: como fica para estudantes, jornalistas e intercambistas?

Com as mudanças, vistos para profissionais da imprensa, que antes podiam valer por anos, passam a valer 240 dias; no caso de repórteres chineses, esse prazo diminui para 90 dias

Donald Trump em evento político com arquibancada ao fundo

Donald Trump (foto: screenshot Instagram POTUS)




Os vistos para jornalistas correspondentes (I), intercambistas (J) e estudantes internacionais (F) nos EUA, que antes tinham prazos mais flexíveis, passarão a operar com restrições severas de data em uma nova política de Donald Trump contra imigrantes.

Anunciadas hoje (16), as mudanças transformam permissões que antes duravam anos em documentos com meses de validade, principalmente para repórteres chineses, os mais afetados pela proposta.

É necessário que a mudança seja aprovada pelo Congresso, o que, se acontecer, implementa a nova lei em 60 dias no país.

Para os estudantes, as mudanças tornam uma simples reprovação acadêmica um risco à sua estadia, já que a autorização máxima que eles têm na nação é de quatro anos não renováveis.

Já no caso dos jornalistas, que terão somente 240 dias de autorização no país, esse é só mais um elemento na lista de violações do segundo governo Trump à liberdade de imprensa.

Alegações de segurança

O governo americano divulgou uma versão da mudança na lei nesta quinta-feira (16) e publicará o documento oficialmente amanhã. A proposta do governo ainda passará por análise do Congresso e, em caso de aprovação, entra em vigor em 60 dias.

A alegação do governo Trump é de que os vistos atuais dificultam a capacidade de monitorar os imigrantes, já que não mostram uma data-limite para a saída dos trabalhadores e estudantes.

Além disso, eles alegaram que o governo encontrou “alunos profissionais”, que passam décadas vivendo no país somente com vistos de estudante.

Por fim, diante da tensão causada pela guerra no país, o Departamento de Segurança Interna justificou uma questão de segurança nacional. “[A concessão dos vistos] cria oportunidades para adversários estrangeiros explorarem os programas e minarem a segurança nacional dos EUA”, diz trecho do documento.

O que muda nos vistos de estudantes

Antes, os vistos para intercambistas nos EUA tinham prazo flexível, que dependia do tempo em que eles passariam trabalhando ou estudando no país. Agora, os estudantes acadêmicos seguem admitidos pelo “tempo necessário” para concluir seu curso, contanto que ele não passe de quatro anos.

Os intercambistas de cursos de línguas, por sua vez, terão no máximo 24 meses para permanecer em território americano. Já os intercambistas de ensino médio, terão no máximo 12 meses de visto concedido.

Todos os estudantes só poderão entrar nos EUA a partir de 30 dias antes do início das aulas. Antes, eles tinham 60 dias para deixar o país após o fim do programa escolar ou de intercâmbio. Com a nova lei, este período cai para 30 dias.

Os estudantes que buscarem uma renovação para além dos quatro anos permitidos precisarão provar seus motivos ao Departamento de Segurança Interna. Entre as razões aceitas estão “motivos acadêmicos reais”, “requisições médicas”, “fatores fora de controle” (como desastres naturais e crises de saúde nacional).

Quem precisar estender o visto por motivos como reprovação em matérias não terá a justificativa aceita, de acordo com a proposta.

Os alunos que já estiverem com seus vistos no país podem seguir seus estudos até a data de término do programa atual, mas esse prazo não pode exceder quatro anos a partir da data de vigência da nova regra.

Caso ele saia do país para uma viagem internacional, ele receberá um registro de entrada novo ao voltar, com uma data fixa de expiração de visto, substituindo seu visto antigo.

O que muda nos vistos de jornalistas

Para os jornalistas, as restrições de vistos são ainda mais intensas. O prazo que anteriormente era definido pelo tempo de trabalho dele no país agora passa para 240 dias, o equivalente a oito meses.

O profissional poderá pedir extensões sucessivas dos seus vistos e terá mais 240 dias para aguardar pela decisão. Nesse período de espera, ele pode trabalhar normalmente.

A situação muda para os repórteres chineses. Para eles, o período do visto é de apenas de 90 dias, o equivalente a três meses. Eles podem aguardar enquanto trabalham por 90 dias. Caso a resolução do seu visto não saia neste prazo, ele pode continuar aguardando no país, mas perde o direito de trabalhar enquanto o pedido estiver pendente.

“O Departamento de Segurança Interna (DHS) já havia decidido reduzir o tempo de permanência de jornalistas chineses devido ao uso de vistos de curta duração pela China para suprimir o jornalismo independente na República Popular da China.”

Por causa do princípio da reciprocidade, o prazo para quem tem passaportes de Hong Kong e Macau, reconhecidas pelos EUA como Regiões Administrativas Especiais, é igual ao de outros estrangeiros, de 240 dias.

Se qualquer um dos jornalistas perder o prazo de renovação ou tiver o novo visto negado, precisa sair automaticamente do país, sob pena de punção por “presença ilegal” na nação.

As mudanças não são retroativas. Ou seja: aquele repórter ou estudante que já estiver em condição legal no país não terá o seu tempo de visto reduzido.

“Violação à liberdade de imprensa”, diz Comitê para Proteção dos Jornalistas

Pouco após a divulgação da proposta de novas regras de vistos, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas repudiou as potenciais mudanças nos EUA. O órgão pediu que o Congresso americano rejeitasse a proposta e que o governo de Trump “revogasse imediatamente a política anti-imprensa”.

“Esta é a mais recente escalada documentada pelo CPJ, seguindo um padrão de violações profundamente preocupantes da liberdade de imprensa por parte deste governo. É o comportamento de uma democracia em retrocesso, não da vanguarda internacional da liberdade de expressão.”

Jornalistas sob mira de Trump

Os Estados Unidos têm sofrido com a repressão à liberdade de imprensa, principalmente durante o segundo governo Trump. A proposta para a mudança no prazo dos vistos, inclusive, aconteceu em 2025 a pedido do Departamento de Segurança Interna do país, meses após o republicano assumir.

A mudança nos vistos foi anunciada na mesma semana em que o Departamento de Guerra colocou em vigor uma força-tarefa para identificar fontes secretas de repórteres do Pentágono. Sob a justificativa de “segurança nacional”, o secretário Pete Hegseth afirmou que quem divulga informações sensíveis tem potencial de causar “danos extremamente graves” ao país.

Antes disso, o governo já protagonizou a expulsão de jornalistas do Pentágono, uma varredura do FBI na casa de uma jornalista, processos sequenciais contra o New York Times e muitas cenas de Donald Trump humilhando repórteres ao vivo.

Após um ano de governo Trump, os Estados Unidos despencaram no ranking de liberdade de imprensa do Repórteres Sem Fronteiras. O país ficou na 64ª posição, sete números abaixo de 2025.

error: Este conteúdo é protegido por direitos autorais.