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Análise da Meta

Autocensura? IAs evitam críticas a líderes de países sem liberdade de expressão, mostra estudo da Meta

Análise feita pelo conselho de supervisão da Meta testou seis provedores de IA (incluindo o da própria empresa) e viu que o mesmo chatbot que se recusa a criticar Xi Jinping aceita fazer sátiras do Rei Charles III

Donald Trump e Xi Jinping

Donald Trump ao lado de Xi Jinping Foto: Official White House Photo by Daniel Torok




Uma análise do Conselho de Supervisão da Meta mostrou que os principais sistemas de IAs do mundo têm tendência a não fazer críticas a líderes de países cuja liberdade de expressão é restrita, enquanto fazem livremente sátiras de líderes de nações mais livres.

Com base nas respostas a mais de mil perguntas, o estudo “Os LLMs estão restringindo a liberdade de expressão política?” sugere que o treinamento que as IAs recebem é influenciado pela forma como monarquias e governos rígidos ditam as suas leis. Isso pode ser resultado de uma blindagem judicial ou de vícios em treinamento de linguagem, mas nem sempre as plataformas são claras sobre isso.

Enquanto muitas justificam suas escolhas como uma “falsa neutralidade”, outras mencionam explicitamente leis locais que baseiam a sua escolha sobre não criticar líderes.

Como funcionou o teste

O estudo da Meta selecionou dez modelos comerciais de IAs com seis provedores diferentes, de dentro e fora dos Estados Unidos, para analisar como as críticas feitas por eles mudam de acordo com a liberdade de expressão dos países.

Além da IA da Meta, foram testados modelos generativos da Anthropic, DeepSeek, Google, OpenaAI e xAI.

Os pesquisadores elaboraram sete perguntas padrão, divididas em três setores. O primeiro setor era opinião política, pedindo que a IA respondesse com “sim” ou “não” sobre as qualidades de um líder.

O segundo era conteúdo violento, com pedidos para justificar ou ajudar a criar material endossando violência contra essas personalidades. Por último, eles focaram na produção de material, solicitando que as IAs criassem um poema satírico e um folheto de protesto contra os líderes ou governos.

Usando dados da Freedom House, eles escolheram líderes de 10 países para testar as IAs. Cinco deles eram de nações “restritivas”, com níveis baixos de liberdade de expressão (Camboja, China, Arábia Saudita, Tailândia e Turquia), e outros cinco de nações “permissivas”, com níveis altos de liberdade (Chile, Japão, Taiwan, Reino Unido e Estados Unidos).

Para cada país, as perguntas focaram em quatro alvos: um deles de um cargo público alto, como “o Rei”, outro de uma pessoa específica, como “Donald Trump”, uma instituição de governo ou partido, e o governo em geral.

Todas as consultas foram feitas de um endereço de IP na Austrália e somente em inglês, evitando que as IAs variam suas respostas de acordo com o país. Além disso, todas as perguntas foram feitas cinco vezes, gerando, no fim, 13.524 respostas.

Recusa de respostas violentas

Em dois dos três setores, as IAs demonstraram um padrão pouco influenciável pelas leis locais, que variou pouco em relação ao nível de liberdade de expressão das nações.

No caso dos conteúdos violentos, a recusa de criação de materiais ficou acima de 90%. Isso reflete um padrão similar de treinamento das IAs para evitar o incentivo à violência.

O Gemini 3 Flash e o Grok 4 foram as mais “permissivas” em relação a isso, recusando apenas 72% e 73% dos pedidos, respectivamente.

No caso das perguntas de opinião, as IAs responderam aos questionamentos sobre todas as nações. Porém, elas mostraram uma propensão maior a incitar os usuários a apoiarem governos permissivos e a não protestarem contra os governos restritivos.

Um ponto de destaque foi a posição do DeepSeek, de origem chinesa. De acordo com o estudo, a IA desencorajou protestos contra Xi Jinping enquanto viu “motivos plausíveis” para manifestações contra o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e contra o rei da Tailândia.

“Os modelos da DeepSeek, ao responderem se os usuários deveriam protestar contra entidades do governo chinês, afirmaram de forma consistente que não deveriam fazê-lo.

O padrão foi mais variado em relação a outras jurisdições com restrições. O DeepSeek-R1 às vezes sugeriu que há boas razões para protestar, por exemplo, contra o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, citando preocupações com direitos humanos.”

Menos críticas contra regimes opressivos

A maior disparidade entre as nações restritivas e permissivas ficou no setor da produção de materiais com críticas. Os modelos de IA recusaram 34% dos pedidos para criar panfletos e poemas contra regimes restritivos. No caso dos países “permissivos”, a taxa foi de 14%.

Entre os líderes que as IAs criticaram facilmente estão Donald Trump, Rei Charles III, Gabriel Boric (ex-presidente do Chile) e Shigeru Ishiba (ex-premiê do Japão).

Por outro lado, entre os líderes “recusados” pelas IAs estão Xi Jinping, os reis da Tailândia (Vajiralongkorn) e do Camboja (Norodom Sihamoni), o príncipe herdeiro da Arábia Saudita (Mohammed bin Salman) e Tayyip Erdogan, presidente da Turquia.

No caso do rei da Tailândia, algumas das IAs citaram explicitamente a lei da lesa-majestade ao recusar os pedidos. Essa lei estipula penas de três a 15 anos de prisão para qualquer pessoa que difame, insulte ou ameace a monarquia. Isso inclui não só moradores locais, como também turistas.

A China teve a maior taxa de recusa entre as IAs, com 45%, seguida pela Tailândia, com 32%. Do outro lado, os países com menor taxa de recusa foram o Reino Unido (8%) e os Estados Unidos (9%).

O caso de Taiwan

No campo dos países com maior liberdade de expressão, uma exceção foi Taiwan. Embora seja uma jurisdição livre, o país teve uma taxa de recusa de 24%. Esses valores foram impulsionados pelas IAs da Anthropic, que tiveram uma taxa de recusa de 47,2% (com o Claude Sonnet 4) e 82,5% (com o Claude Opus 4).

A justificativa das IAs para se negar a fazer panfletos e críticas contra Lai Ching-te foi uma “política de não criar materiais de ataque contra figuras”. Ao mesmo tempo em que alegava isso, as IAs geraram, sem qualquer problemas, críticas contra os outros quatro “estados permissivos”.

O grupo não apresentou uma análise conclusiva sobre o porquê dessa disparidade. O que se sabe é que Taiwan vive uma disputa geopolítica com a China. O país considera a ilha, que tem governo próprio, como uma parte do seu território e uma “província rebelde”.

Combinação de fatores gera disparidade, diz estudo

Há em todas as IAs a presença de “falsa neutralidade” na justificativa para não criticar um líder político. Um dos exemplos é da Claude Sonnet 4, que fez panfletos contra Trump, mas, se recusou a fazer um panfleto sobre Xi Jinping. Como justificativa, a IA disse que suas “políticas gerais impedia de criticar qualquer líder mundial”.

Para os pesquisadores da Meta, não é possível cravar o que causa essas mudanças. Apesar disso, eles listam uma série de fatores que têm relação direta com o treinamento de linguagens das IAs hoje para justificar essas alterações.

Uma delas são os viéses presentes nos dados que treinam essas IAs. Afinal, os modelos aprendem a responder aos usuários usando como base informações já moldadas por instituições e pelos poderes estatais.

Além disso, há suspeitas de que os ajustes finos desses chatbots imponham regras de comportamento aos modelos. Por fim, a Meta também cita que as empresas pensam nos riscos de litígios e retaliações governamentais ao criar suas IAs.

Logo, eles acabam instruindo que seus modelos sigam leis locais ou sejam “neutros”, evitando, assim, consequências aos usuários, mesmo que eles estejam em um país livre.

“As diferenças podem surgir em vários momentos ao longo do processo de desenvolvimento do modelo, incluindo vieses latentes nos dados de treinamento, a interação complexa entre diferentes abordagens usadas para alinhar o comportamento do modelo, restrições deliberadas ou qualquer combinação desses fatores.”

Pesquisa já detectou “temas sensíveis” às IAs

A divulgação do relatório da Meta acontece poucas semanas após um estudo de Oxford detectar que IAs diferentes costumam dar os mesmos “viéses” a temas semelhantes. A pesquisa separou 13 temas controversos, como aborto, ateísmo e controle de armas, e pediu que as IAs aprimorassem ou redigissem textos sobre os assuntos.

O resultado mostrou, majoritariamente, um direcionamento positivo das IAs para temas como o controle de armas e a legalização da maconha. Elas também falam “bem” do feminismo, o reconhecimento das mudanças climáticas, o aumento do salário mínimo e o uso de energia nuclear.

Por outro lado, a tendência foi de textos contrários a temas como ateísmo e pena de morte. Para os pesquisadores, isso acontece porque mesmo vindo de empresas diferentes, esses modelos são treinados com dados da internet que se sobrepõem, uma constatação semelhante à do relatório da Meta.


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