Organizações de defesa da liberdade de imprensa alertam que a decisão dos EUA de limitar o tempo de vistos para jornalistas estrangeiros pode estimular a autocensura, aumentar a pressão sobre correspondentes internacionais e dificultar a cobertura jornalística de um dos países mais influentes do mundo.
Pelas novas regras anunciadas pelo governo americano na semana passada, a maioria dos jornalistas estrangeiros poderá permanecer nos Estados Unidos por até 240 dias. Após esse período, será necessário solicitar uma extensão para continuar trabalhando no país. Para jornalistas chineses, o prazo será limitado a 90 dias.
O pacote muda também as regras para estudantes e pessoas que viajam ao país para fazer intercâmbio.
A medida substitui o modelo que permitia aos profissionais permanecerem nos Estados Unidos enquanto mantivessem seu status migratório e continuassem exercendo sua atividade jornalística. A proposta havia sido submetida a consulta pública em 2025 antes da decisão anunciada pelo governo.
Para a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), a mudança vai além de uma alteração administrativa na política de imigração.
As duas organizações afirmam que a exigência de renovações frequentes pode afetar a independência dos correspondentes e reduzir a diversidade da cobertura internacional sobre os Estados Unidos, com o noticiário passando a depender de agências de notícias sem interpretação dos fatos sob a ótica dos países afetados por grandes decisões.
O principal problema não é apenas a possibilidade de um pedido de extensão ser rejeitado, mas o efeito que essa incerteza pode produzir sobre o trabalho cotidiano dos correspondentes.
Risco de autocensura com vistos mais curtos para jornalistas nos EUA
Em comunicado divulgado após o anúncio da decisão, a RSF afirmou que o novo sistema cria um ambiente propício à autocensura ao tornar a permanência de jornalistas estrangeiros dependente de avaliações periódicas do governo americano.
Segundo a organização, correspondentes poderão evitar reportagens críticas ou temas considerados sensíveis por receio de que seus pedidos de renovação sejam negados.
“O ciclo implacável de renovações de vistos restringe a liberdade de imprensa, pois os jornalistas se sentirão obrigados a evitar provocar a ira do governo para que seus pedidos não sejam rejeitados”, afirmou Ben Grazda, gerente de advocacy da RSF para a América do Norte.
Na avaliação da entidade, essa relação pode influenciar escolhas editoriais mesmo sem a existência de uma ordem explícita de censura, impactando tanto reportagens publicadas quanto pautas que deixem de ser propostas, investigadas ou aprofundadas por receio de consequências futuras.
O CPJ compartilha dessa preocupação ao defender que decisões migratórias nunca devem levar em consideração o conteúdo da cobertura produzida por jornalistas estrangeiros.
A entidade também argumenta que a medida impõe encargos pessoais, jurídicos e financeiros desnecessários aos jornalistas e aos veículos de comunicação para os quais trabalham.
Na avaliação da RSF, jornalistas estrangeiros devem poder atuar nos Estados Unidos sem que sua permanência dependa de decisões que possam ser influenciadas por critérios políticos.
CPJ vê ameaça à independência dos correspondentes
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) salientou que a nova política abandona um sistema adotado havia décadas e volta a permitir que a situação migratória de correspondentes internacionais seja usada como instrumento de pressão.
Para Jose Zamora, diretor regional do CPJ para as Américas, a medida representa mais um ataque à liberdade de imprensa promovido pelo governo Trump.
“Essa regra permite que o governo dos Estados Unidos volte a restringir o acesso ao país com base em sua própria avaliação do trabalho de um jornalista. Esse é o comportamento de uma democracia em retrocesso, não de um país que pretende liderar pelo exemplo na defesa da liberdade de expressão”, afirmou.
O CPJ pediu ao Congresso americano que impeça qualquer possibilidade de que o conteúdo produzido por jornalistas seja considerado nas decisões sobre a concessão ou renovação dos vistos.
Impacto pode atingir veículos internacionais
A nova política também tende a aumentar a dificuldade operacional para empresas de comunicação estrangeiras que mantêm correspondentes nos Estados Unidos.
Manter um jornalista baseado em outro país envolve custos elevados de mudança, instalação, moradia e apoio à família. A necessidade de renovações frequentes acrescenta incerteza a esse planejamento e pode tornar mais difícil manter profissionais no país por longos períodos.
Veículos podem não deixar de enviar correspondentes aos Estados Unidos, mas a burocracia adicional e a falta de previsibilidade pode desestimular esse modelo, especialmente entre empresas menores.
Menos correspondentes podem significar menos diversidade na cobertura
Para a RSF, restringir a permanência de jornalistas estrangeiros não afeta apenas os profissionais diretamente submetidos às novas regras. A entidade argumenta que a medida pode reduzir a diversidade de perspectivas sobre acontecimentos nos Estados Unidos.
Correspondentes internacionais acompanham de forma contínua temas como política, economia, tecnologia, imigração, inteligência artificial e plataformas digitais, explicando esses assuntos a partir dos interesses de seus próprios públicos.
Esse trabalho, segundo a organização, não pode ser substituído integralmente por coberturas ocasionais ou pela reprodução de conteúdos produzidos por veículos americanos.
Na avaliação da RSF, uma eventual redução da presença de correspondentes estrangeiros pode aumentar a dependência de agências internacionais e limitar a pluralidade de interpretações sobre decisões tomadas em Washington que têm impacto em diferentes países.
O CPJ também argumenta que dificultar a atuação da imprensa internacional prejudica não apenas jornalistas estrangeiros, mas o interesse público, ao reduzir o escrutínio internacional sobre acontecimentos nos Estados Unidos.
Entidades pedem revisão da decisão
A proposta que deu origem às novas regras foi submetida a consulta pública em 2025 e recebeu críticas da RSF, do CPJ e de outras organizações de defesa da liberdade de imprensa.
Após o anúncio da decisão, a RSF voltou a pedir que o Congresso americano intervenha para proteger o trabalho de jornalistas estrangeiros. O CPJ também defendeu que parlamentares impeçam qualquer uso político do sistema de concessão e renovação dos vistos.
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