A morte de um jornalista na cidade de Oaxaca, no México, gerou comoção nacional e reforçou as preocupações com a violência contra repórteres no país latino.
Alexandro Leyva Aguilar, ex-diretor do canal CorTV, assinava nas suas próprias redes sociais a coluna “El Zumbido del Moscardón” e é o sétimo jornalista assassinado este ano no país.
Em sua coluna, ele criticava a vida política da cidade e denunciava episódios de violência e casos de corrupção, um padrão que se repete no México. Sua última publicação, acusando funcionários do governo de “roubar com as duas mãos”, aconteceu apenas horas antes do seu assassinato.
Das sete mortes de jornalistas registradas este ano no país, a maioria deles aconteceu nos últimos dois meses, expondo a fragilidade de profissionais que praticam jornalismo sem o apoio de grandes redações e da ineficiência sistemas de proteção do governo para os que sofrem ameaças.
A morte de mais um jornalista
Alexandro Leyva Aguilar foi baleado com três tiros enquanto tomava café da manhã no centro de Oaxaca, capital do estado com mesmo nome. Os disparos atingiram a cabeça e a nuca dele, de acordo com as autoridades locais.
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Leyva criticou a violência no estado em sua última coluna, publicada nas redes sociais horas antes da sua morte. O post tem a foto de uma pessoa baleada e a opinião de que o festival de Guelaguetza, realizado em Oaxaca, foi um “fracasso” pela crise de segurança no estado.
“Esperemos que as coisas melhorem na próxima segunda-feira, não para que o governo e os seus funcionários se deem bem — eles já estão bem porque roubam com as duas mãos — mas para que os taxistas, os donos de restaurantes, os donos de hotéis possam recuperar parte do que este governo lhes tirou.”
O enterro dele aconteceu nesta quinta-feira (23). A polícia não prendeu nenhum suspeito até o funeral. Somente uma moto usada no crime foi apreendida pela polícia, abandonada em um matagal.
Jornalismo é atividade de alto risco, diz sindicato
Entidades de jornalistas do México condenaram a morte de Leyva. Em comunicado, a Federação das Associações de Jornalistas Mexicanos (Fapermex) chamou o repórter de “um pilar do sindicato, com carreira exemplar”.
“A comunidade jornalística no México está mais uma vez de luto em meio a um contexto nacional alarmante, onde o exercício da liberdade de expressão se tornou uma atividade de alto risco.”
A associação de jornalistas de Oaxaca também lamentou a morte e chamou atenção para a falta de resolução de crimes do tipo no país. “O clima de impunidade que prevalece em Oaxaca e no país quanto ao exercício do jornalismo nos preocupa”, diz trecho da nota.
Internacionalmente, a ONG Article 19 lembrou que o jornalista era alvo de assédio judicial e pediu uma investigação “rápida, completa, independente e imparcial”. Já a Repórteres Sem Fronteiras ressaltou o alto número de jornalistas assassinados no país em seu comunicado.
“O assassinato de sete jornalistas em pouco mais de seis meses é a prova de uma falha grave e persistente do Estado mexicano.
Entre as vítimas estão jornalistas que haviam denunciado ameaças, bem como outros que contavam com mecanismos de proteção ou medidas de vigilância.”
Além disso, a Sociedade Interamericana de Imprensa também repudiou a morte e disse que exige das autoridades uma investigação rápida, exaustiva e transparente.
O partido Morena, da presidente Claudia Sheinbaum, também lamentou a morte. Em nota, eles afirmaram que não tolerarão “nenhuma agressão contra o exercício jornalístico”.
Os dados de 2026 ainda não estão consolidados, mas, de acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras, a morte de Aguilar foi a 7ª de um jornalista no México em 2026. Em todo o mundo, foram 21.
Sete mortes em sete meses
Ainda em julho, o assassinato de outro jornalista aconteceu na cidade de Puebla. Josué Martínez Contreras, editor do veículo local Noticias San Martín Texmelucan, foi morto a tiros a poucos metros de casa, na frente da própria mãe e do filho. O repórter sofria ameaças por contar histórias de insegurança e denunciar a criminalidade na cidade em que vivia.
Dias depois, a polícia prendeu um funcionário público da prefeitura de San Lucas Atoyatenco que tentou subornar agentes que investigavam o caso. Ele ofereceu um carro e dinheiro para evitar que as investigações contra ele continuassem.
Também neste mês, o corpo da jornalista Roxana Ramírez, que gravou o próprio sequestro em Veracruz, foi encontrado.
Membro do Pulso Informativo del Sureste, Roxana tinha cerca de 20.000 seguidores e postava notícias sobre assuntos comunitários, reclamações de cidadãos, serviços públicos, política municipal e questões de segurança pública.
Meses antes de morrer, ela relatou às autoridades mexicanas assédios cometidos por um agente municipal em Nanchital. Além disso, em 2017, o marido dela foi assassinado. As autoridades prenderam oito pessoas, incluindo quatro policiais suspeitos de dar apoio ao grupo responsável pelo sequestro e morte da repórter.
Outras duas mortes aconteceram em junho: do jornalista independente Alex Serna, em Guerrero, e do repórter da Vanguardia de Veracruz, Manuel Alejandro Moreno.
Esses casos se somaram à morte de Carlos Castro, assassinado em janeiro também em Veracruz, e de Juan David Gámez, morto em março em Nuevo León.
Com isso, o México fica apenas atrás do Líbano na quantidade de jornalistas mortos no ano. O país do Oriente Médio, arrastado para uma guerra em fevereiro, teve nove mortos até junho, segundo o CPJ (Comitê para a Proteção de Jornalistas).
Por que México tem tantos jornalistas assassinados?
Em maio, o Article 19, grupo britânico de defesa dos jornalistas, já tinha alertado para a crescente de mortes no México, que lidera os números na América Latina.
Dados de 2025 levantados pela organização mostram não só um desaparecimento e sete mortes, mas também 57 ataques físicos contra profissionais da imprensa no país.
As “boas relações” entre autoridades locais e o crime organizado são, para o Repórteres Sem Fronteira, a maior afronta à segurança dos jornalistas no país. De um lado há os carteis que comandam o tráfico de drogas. Do outro, há um histórico extenso de corrupção de líderes governamentais.
Os dois lados acabam ameaçando os repórteres, principalmente aqueles de jornais menores, que denunciam casos locais de corrupção. Representando veículos com menores vulto, eles acabam mais vulneráveis a ataques e assassinatos, principalmente diante da ineficiência de quem deve protegê-los.
Além do problema da violência, os serviços de proteção que o México oferece não parecem suficientes. Um levantamento feito pela Anistia Internacional e pelo CPJ em 2024 com dados acumulados desde 2012 mostra que o Mecanismo de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos e Jornalistas, órgão criado para combater as ameaças sofridas pelos repórteres, não é eficaz, de acordo com os profissionais assistidos.
De acordo com a análise, o mecanismo é uma “instituição profundamente falha que necessita de uma grande reforma para atender às necessidades dos jornalistas”.
O CPJ apontou a falta de conhecimento básico dos funcionários sobre questões de direitos humanos e a incapacidade de avaliar os riscos sofridos pelos jornalistas.
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