O cantor Julio Iglesias está sendo criticado por organizações de liberdade de imprensa após ter apresentado uma queixa-crime contra o elDiario.es e jornalistas do veículo envolvidos em uma reportagem contendo acusações feitas por duas ex-funcionárias de suas propriedades no Caribe.
A ação, protocolada em 21 de julho, acusa o jornal, seu diretor, Ignacio Escolar, e as jornalistas María Ramírez, Juan Luis Sánchez, Ana Requena e Elena Cabrera de crimes de injúria com publicidade, calúnia e atentado contra a integridade moral.
A Federação Internacional dos Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês) e a Federação Europeia dos Jornalistas (EFJ) condenaram o uso da via penal contra o veículo e manifestaram solidariedade aos profissionais.
Para as entidades, processos dessa natureza podem intimidar jornalistas, restringir investigações de interesse público e ameaçar o direito à informação.
Organizações espanholas de defesa da imprensa livre também criticaram a reação de Iglesias.
A Federação das Associações de Jornalistas da Espanha, a Associação da Imprensa de Madri e o Clube Aberto de Editores classificaram a ação como abusiva e intimidatória. Sindicatos de jornalistas pediram o arquivamento da queixa.
O processo de Julio Iglesias contra o elDiario.es
O processo de Julio Iglesias está relacionado à investigação publicada em janeiro pelo elDiario.es em parceria com a Univision Noticias.

As reportagens reuniram relatos de duas mulheres que o acusaram de agressões sexuais, abusos trabalhistas e outras formas de violência. O artista nega as acusações.
A queixa-crime é um desdobramento de uma disputa iniciada poucos meses depois da publicação.
Em março, a defesa do cantor havia apresentado um pedido de conciliação, procedimento que antecede uma ação penal por injúria ou calúnia na Espanha.
Iglesias exigia uma retratação pública e a retirada das reportagens, mas o veículo recusou o pedido.
Na nova ação, a defesa sustenta que a investigação jornalística provocou danos à honra e à reputação do cantor.
Também questiona os métodos utilizados pelos repórteres e afirma que as reportagens teriam apresentado como verdadeiros fatos que não foram comprovados judicialmente.
O que diz o elDiario.es sobre o processo
O elDiario.es rejeitou as acusações e afirmou que a queixa contém informações falsas sobre o processo de apuração.
Segundo o jornal, algumas condutas atribuídas aos jornalistas não ocorreram e parte da argumentação apresentada pela defesa não corresponde ao conteúdo efetivamente publicado.
Um dos pontos contestados pelo veículo é a alegação de que a reportagem teria usado personagens fictícios ou atrizes para representar as denunciantes.
O jornal afirma que as imagens exibidas eram das próprias mulheres, com as vozes substituídas para preservar suas identidades.
O elDiario.es também voltou a detalhar como conduziu a investigação.
De acordo com o veículo, o trabalho começou a partir de uma informação recebida em 2023, envolveu entrevistas com diferentes fontes, análise de documentos e uma colaboração posterior com a Univision Noticias.
Julio Iglesias foi procurado antes da publicação, mas não apresentou sua versão naquele momento, segundo os jornalistas.
Por que a investigação foi arquivada
As acusações das duas ex-funcionárias também foram levadas à Promotoria da Audiência Nacional, órgão espanhol responsável por investigar determinados crimes de alcance nacional ou internacional.
A denúncia foi apresentada pela organização Women’s Link Worldwide.
Em janeiro, a Promotoria arquivou a investigação por entender que a Justiça espanhola não tinha competência territorial para examinar os fatos, que teriam ocorrido principalmente na República Dominicana e nas Bahamas.
A decisão não avaliou se as acusações eram verdadeiras ou falsas e não representou uma absolvição de Julio Iglesias no mérito.
Esse ponto tornou-se central na disputa entre o cantor e o jornal. A defesa de Iglesias argumenta que a ausência de um processo judicial contra ele reforça o caráter lesivo das reportagens.
O elDiario.es, por sua vez, afirma que o arquivamento ocorreu exclusivamente por uma questão de jurisdição e que não invalida a investigação jornalística nem os relatos publicados.
IFJ e EFJ criticam o processo de Julio Iglesias
Ao se manifestarem sobre a queixa, a IFJ e a EFJ chamaram atenção para o uso de crimes contra a honra em processos dirigidos a jornalistas.
As entidades defendem que a proteção da reputação individual precisa ser compatibilizada com a liberdade de imprensa e com o direito dos veículos de investigar denúncias relevantes para a sociedade.
Segundo as organizações, o recurso à legislação penal pode produzir um efeito inibidor que ultrapassa os profissionais diretamente envolvidos.
O temor de responder criminalmente por uma reportagem pode desencorajar jornalistas e redações a investigar pessoas influentes como Julio Iglesias, ou temas sensíveis.
A ação contra o elDiario.es faz parte de uma reação jurídica mais ampla de Julio Iglesias às repercussões das acusações.
O cantor também iniciou procedimentos contra Yolanda Díaz depois que a vice-presidente espanhola comentou publicamente as denúncias e utilizou expressões que a defesa considera ofensivas à honra do artista.
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