Uma campanha de desinformação nas redes sociais virou crise de imagem para duas gigantes multinacionais americanas, a Coca-Cola e a General Motors, acusadas falsamente de suspenderem propaganda em canais que se recusaram a transmitir um discurso do presidente Donald Trump levantando dúvidas sobre a confiabilidade das eleições.
A escalada de publicações que afirmaram que as empresas cancelaram toda a publicidade que tinham na ABC e na NBC para retaliar a não exibição de um discurso do presidente americano for monitorada pelo site NewsGuard, de verificação de notícias.
Isso aconteceu logo após o próprio Trump mencionar as emissoras em seu discurso público, acusando-as de “fraude”.
A origem da notícia falsa, porém, foi um “fogo amigo” e teria partido de um perfil de sátiras mal interpretado por conservadores.
Ainda assim, ele atingiu milhões de pessoas com posts que seguem no ar, e envolveram as empresas que por padrão evitam polêmicas ou engajamento político que possam afetar reputação e vendas.
De acordo com o levantamento do NewsGuard, a notícia falsa ligando as marcas ao “boicote” contra as emissoras teve 5,7 milhões de visualizações espalhadas em 33 mil posts diferentes. A divulgação dessa mentira aconteceu em seis línguas e em 42 países.
Discurso de Trump foi o plano de fundo para as notícias falsas
🚨MAJOR BREAKING: Donald Trump has a meltdown over ABC and NBC refusing to cover his boring address tonight and says they should lose their broadcasting licenses.
This wasn’t strength. Trump is a tired, rejected old man having a tantrum. Time to go to sleep, Grandpa. pic.twitter.com/Ec5qScUqAt
— CALL TO ACTIVISM (@CalltoActivism) July 17, 2026
O presidente, que já foi alvo de impeachment por incitar a insurreição quando perdeu a reeleição em 2020, fez um pronunciamento que preocupou muitos analistas, afirmando que as eleições nos EUA são “corruptas, inseguras e altamente vulneráveis a fraudes”.
Os canais NBC e ABC confirmaram que não transmitiriam o pronunciamento ao vivo na TV aberta em 16 de julho, mas informaram que fariam a transmissão em seus canais online.
Eles não deram uma justificativa para a não cobertura, mas isso não é atípico: tanto Joe Biden quanto Barack Obama já tiveram discursos “boicotados” pela TV aberta dos EUA.
Trump, porém, ficou insatisfeito e mencionou os canais no seu pronunciamento.
“Em uma atitude rara, a NBC e a ABC, emissoras de notícias falsas, disseram que não iriam cobrir este discurso. Elas sabiam do que se tratava, porque não gostam do assunto, porque sabem o quão corrupto é o nosso sistema e não querem revelar isso.”
O fato é que, no dia seguinte à menção de Trump, perfis conservadores começaram a enxurrada de desinformação, afirmando que, em retaliação às emissoras, as multinacionais suspenderam todos os seus anúncios.
Mentira ganhou milhões de visualizações
Somente uma das publicações, feita por um usuário conhecido por suas teorias da conspiração, teve mais de um milhão de visualizações.
“A Coca-Cola e a General Motors retiraram todos os seus anúncios da ABC e da NBC. Quem é ‘woke’, quebra”, afirmava o texto.
Outro post, feito no Instagram, comunicava a notícia falsa com a mensagem:
“Chega de financiar o inimigo do povo”.
As duas publicações seguiam ativas mais de uma semana após entrarem no ar, com centenas de comentários elogiando a mentira.
Coca-Cola and General Motors have pulled all of their ads from ABC and NBC
Go woke go broke.
— Paul White Gold Eagle (@PaulGoldEagle) July 17, 2026
Se fosse verdade, o impacto do boicote nas emissoras poderia ser grande.
Dados da própria Coca-Cola apontam que a empresa tem um investimento médio anual de US$ 4 bilhões a US$ 5,4 bilhões em publicidade. Desse valor, US$ 1 bilhão é investido apenas nos Estados Unidos.
Já a General Motors, de acordo com o Ad Age Brand Report, investe entre US$ 3,5 bilhões e US$ 4 bilhões anualmente, com uma fatia de mais de US$ 2,7 bilhões só para os EUA.
Apesar de investirem muito dinheiro em publicidade, as companhias aparecem apenas em 13º e 28º lugar entre as que mais gastam com anúncio nos EUA, segundo dados do Ad Age de 2023.
Elas perdem para nomes como a Amazon, maior anunciante do país, que investe US$ 13,3 bilhões no ano, e Walmart, em 10º lugar, com US$ 3,6 bilhões por ano.
Como as marcas viraram alvo das notícias falsas
A análise do NewsGuard apontou que o responsável por ligar os nomes da Coca-Cola e da General Motors ao falso boicote foi, na verdade, uma página de memes usada para fazer sátiras dos conservadores.
Foi na página de Facebook “America – Love It Or Leave It” que o texto mencionando as marcas apareceu pela primeira vez. A página é parte da “America’s Last Line of Defense”. O grupo reúne perfis em redes sociais que publica notícias falsas para fazer piada com os conservadores.
Entre outros posts mentirosos publicados por essa rede de “memes” está a informação de que Rama Duwaji, esposa do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, queimou os jardins da Gracie Mansion em um ritual religioso.
As páginas têm o termo “sátira” em seu nome e carregam, em seus perfis, a informação de que “nenhum conteúdo publicado aqui é real”.
Apesar disso, elas têm o intuito de confundir o público – principalmente os mais velhos e conservadores.
“Um depósito autorizado de conteúdo provocativo e propaganda de direita, cortesia da Última Linha de Defesa da América, totalmente livre de inteligência artificial. Nada nesta página é real.”, diz a descrição.
Monitoramento de propagandas
Além de achar a fonte da notícia falsa, a equipe do NewsGuard monitorou os anúncios veiculados na ABC e na NBC após a divulgação dos rumores de cancelamento. O levantamento feito por eles não constatou nenhum boicote evidente.
Em 19 de julho, os canais NBC Bay Area News, da Califórnia, e ABC7 Eyewitness News, de Nova York. mostraram comerciais da Chevrolet, subsidiária da GM. Os dois canais pertencem às emissoras supostamente boicotadas e são operados por elas.
Por outro lado, no mesmo período de monitoramento, o site de verificação não encontrou propagandas da Coca-Cola nos canais em questão. O setor de comunicação da empresa. porém, se apressou para negar os rumores.
Coca negou o cancelamento
Mesmo com o levantamento do NewsGuard mostrando a ausência de propagandas da Coca-Cola nos canais, a empresa negou qualquer retaliação às emissoras em um comunicado.
Em nota, a Coca disse que a informação divulgada na internet era falsa. “The Coca-Cola Company não retirou anúncios recentemente em resposta a decisões de programação ou veiculação de qualquer emissora”, afirmou.
A ABC também se posicionou, afirmando “não ter conhecimento de nenhum cancelamento”. A General Motors e a NBC não quiseram comentar o assunto.
Pé de guerra com emissoras
A polêmica envolvendo Trump e os canais acontece ao mesmo tempo em que outra emissora, a CBS, vive uma onda de acusações de pressão política e conluio com o governo.
A situação começou assim que Trump assumiu, com um acordo para pagamento de indenização milionária ao presidente por uma reportagem.
Além disso, o canal também viveu a renúncia da presidente da CBS News, cancelamento do Late Show com Stephen Colbert e uma onda de demissões, que são parte de uma “reformulação” da marca sobre novo comando.
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