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Cultura

Após votações massivas em cantores de Israel, Eurovision admite ‘influência política’ e mudará sistema de voto popular

União Europeia de Radiodifusão sugeriu votação totalmente online e com ao menos três candidatos “obrigatórios” após polêmicas envolvendo Israel

Yuval Raphael, cantora de Israel, em apresentação no Eurovision 2025

Yuval Raphael, a representante de Israel no Eurovision 2025, ficou em segundo lugar com massiva votação popular, provocando suspeitas de campanhas para mobilizar público (foto: divulgação Eurovision)




A União Europeia de Radiodifusão (EBU) pretende mudar o sistema de votação do Festival Eurovision da Canção após reconhecer que o “voto político”, vendido como uma forma de incentivo a países envolvidos em conflitos, molda a forma como o público vê a competição.

Emissoras públicas que são parte do grupo receberam uma carta da organização do evento sinalizando as mudanças planejadas para a edição 2027, que acontece em Sofia, na Bulgária. O concorrente do país venceu o festival deste ano.

Apesar de não deixar explícito na carta enviada às emissoras, a nova proposta de votação tem ligação direta com a mobilização popular de votantes a favor de Israel.

Por dois anos seguidos, mesmo sem uma boa qualificação de júri técnico, o país ficou a poucos pontos de ganhar o prêmio máximo. Isso aconteceu após denúncias de outras nações, protestos e até mesmo boicotes.

Essa mudança iminente, somada a uma nova diretriz proibindo países em conflito de sediar o evento, sinalizam os esforços da EBU para manter a sua imagem de organização apolítica, mesmo com o momento atual da Europa exigindo que suas nações façam o contrário.

Como funciona a votação

O vencedor do Eurovision é escolhido com um sistema de pesos, que soma os votos do público com os votos de júris dos países participantes.

Primeiro o festival divulga os votos dos júris, de país por país. Depois, com os participantes ranqueados de melhor para pior pontuação, os votos do público são divulgados.

Cada morador de um país participante tem direito a usar 10 votos da forma que quiser. Aqueles que quiserem votar fora desses países também podem fazer isso pela internet, mas vão precisar pagar.

O que muda, segundo a regra proposta pela EBU

Na carta, divulgada primeiramente pelo jornal sueco Aftonbladet e confirmada pela BBC, a EBU reconhece que o sistema de votos atual influencia como os espectadores veem o Eurovision e sugere uma votação inteiramente online. Hoje, esse voto também acontece por telefone e por SMS.

Além disso, diante desse novo modelo, os votantes seriam obrigados a escolher os seus três favoritos, sem poder votar dez vezes na mesma pessoa, como já aconteceu em anos anteriores.

“Mesmo sem grandes campanhas pagas e com um sistema de votação em que podemos confiar, ficou claro que o clima geopolítico atual está influenciando os votos em certos artistas por razões que têm muito pouco a ver com suas performances.”

A carta às emissoras chamou a votação política de algo “persistente” e “profundamente preocupante”. De acordo com o jornal sueco, a EBU afirmou que as mudanças vão “ajudar a diluir oe feito de um voto em bloco mobilizado, sem comprometer a justiça ou a confiança”.

À BBC, a EBU confirmou que estuda a possibilidade de votos online, mas disse que só divulgaria detalhes dessa proposta nos próximos meses.

O poder do voto político no Eurovision

Desde a edição de 2025, a primeira após o início da guerra em Gaza, o poder do voto popular no Eurovision está sob debate. Mesmo não obtendo uma boa colocação no voto do júri, Israel chegou muito perto de ganhar em dois anos seguidos.

Primeiro com Yuval Raphael, que ficou apenas em 14º lugar no voto dos jurados, mas pulou para 2º após o voto massivo do público.

A boa colocação da candidata, mesmo com a baixa avaliação entre os juízes, gerou críticas e acusações de manipulação de votos por parte de outros países.

Algumas emissoras buscaram a EBU para denunciar que contas oficiais ligadas ao governo de Benjamin Netanyahu pediram que os israelenses usassem todos os seus 20 votos para a cantora, o que não é visto com bons olhos pela organização.

Naquele ano, a EBU anunciou a redução de votos do público de 10 para 20.

No ano seguinte, mesmo com a redução de votos, a participação do cantor israelense Nadav Aharoni no Eurovision acabou muito similar à da sua antecessora. Ele ficou em 8º lugar após os votos do júri mas, também pulou para o segundo após o voto popular.

Em 2026, a emissora estatal Kan recebeu uma repreensão formal da EBU após um funcionário divulgar vídeos pedindo múltiplos votos para o seu candidato. A organização do Eurovision ordenou a retirada do post do ar por considerar o ato algo “fora do espírito da competição”.

Boicote a Israel

Além das críticas de países ao sistema de votação, a própria presença de Israel na competição foi motivo de boicote em 2026. Apesar de não fazer parte da Europa, o país participa do Eurovision desde 1973 por ser membro da EBU. O mesmo acontece com a Austrália.

Espanha, Irlanda, Holanda, Eslovênia e Islândia retiraram seus artistas da competição, sediada em Viena em 2026, declarando explicitamente que presença de Israel era o motivo do boicote.

A Espanha, Irlanda e Eslovênia foram além do protesto e resolveram também não transmitir o evento nas suas emissoras públicas.

Em um comunicado oficial, a emissora eslovena RTV chamou o Eurovision de “circo” e anunciou a exibição da série temática “Vozes da Palestina”.

A Irlanda, por sua vez, anunciou que transmitiria programas especiais com a temática do Eurovision. Já a Espanha apresentou um programa musical próprio veiculado nos dias do evento.

Mudanças sobre escolha de sede

A divulgação da carta sobre a mudança na votação do Eurovision acontecem dias após uma atualização de regras sobre as sedes do festival. Até 2026, o país vencedor ganhava automaticamente o direito de sediar a próxima edição, como no caso da Bulgária, que vai receber o evento em Sofia em 2027.

Com as novas mudanças, porém, os países que estão em “conflito armado, ou situação geopolítica delicada”, serão automaticamente desclassificados de sediarem o Eurovision.

Isso afeta não só Israel, mas também a Ucrânia, que vive uma guerra contra a Rússia desde 2022. O país ganhou a competição daquele ano, mas quem sediou o festival no ano seguinte foi o Reino Unido, após uma parceria entre as emissoras públicas dos dois países.

A Rússia perdeu sua vaga no Eurovision desde 2022 pela guerra promovida contra o território vizinho. Esses acordos e mudanças acontecem enquanto a EBU insiste que o evento não pode ser político.

Evento não permite manifestações políticas

Apesar dos cancelamentos envolvendo Israel e das novas diretrizes sobre a sede do evento, a organização do Eurovision proíbe mensagens políticas durante o concurso.

Um dos exemplos mais recentes dessa proibição aconteceu em 2023, quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pediu para enviar uma mensagem em vídeo durante a final. A EBU recusou o pedido, afirmando que o Eurovision não era plataforma política.

Curiosamente, naquele mesmo ano, a Ucrânia venceu com uma canção que trazia alusões à resistência na guerra contra a Rússia.


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