Se alguém quer ser uma pessoa melhor, aprimorar a saúde ou o estilo de vida, precisa fazer isso ao “maxx” — pelo menos é o que se diz cada vez mais nas redes sociais.
Para melhorar a aparência, é preciso experimentar o “looksmaxxing”. Para melhorar a alimentação e cuidar do intestino, deve-se fazer “fibremaxxing”. Para melhorar habilidades sociais e ser mais agradável, o caminho é “personality-maxxing”.
Mas todo esse maxxing não é necessariamente uma boa maneira de se motivar hábitos mais saudáveis. Na verdade, ele causar o efeito contrário – e provocar estresse.
De onde vem o “maxxing”
A linguagem do “maxxing” tem raízes no conceito dos games conhecido como “min-maxing”, no qual os jogadores maximizam estrategicamente os atributos desejáveis e minimizam os menos úteis para criar o personagem mais eficiente possível dentro do jogo.
O conceito então chegou ao grande público, principalmente por meio do “looksmaxxing”: esforços direcionados, e às vezes extremos, para maximizar a atratividade física.
Desde então, o sufixo foi adaptado em diferentes áreas relacionadas à saúde e ao bem-estar. Se há algum aspecto da vida que possa ser melhorado, ele provavelmente pode passar por um “maxxing”.
A tendência do “maxxing” sintetiza nossa cada vez mais intensa cultura da otimização, na qual buscamos sistematicamente melhorar diferentes aspectos da forma como pensamos, sentimos e funcionamos.
Essa busca muitas vezes é auxiliada por produtos e serviços comerciais que prometem produzir a “melhor versão” de nós mesmos.
Existe realmente um ponto máximo?
Mas há um dilema interessante que surge da própria terminologia. Maxxing pressupõe que exista um máximo — um ponto no qual você chegou ao auge ou talvez até tenha “vencido”.
Só que saúde, bem-estar, relações sociais e hábitos de vida não são exatamente coisas que concluímos. São processos contínuos e sujeitos a oscilações.
Coisas que estão fora do nosso controle acontecem, nossas vidas e circunstâncias mudam — e nós mudamos com elas.
Isso faz do maxxing uma espécie de faca de dois gumes. Ele pode tornar comportamentos saudáveis mais envolventes, proporcionar um senso de identidade e incentivar as pessoas a se conectarem com outras que buscam objetivos semelhantes.
Mas, se o autoaperfeiçoamento se transforma em constante automonitoramento, autocrítica e busca por uma versão “ideal” de si mesmo, isso pode trazer custos psicológicos.
Quando melhorar a si mesmo vira fonte de ansiedade
Quando as redes sociais nos lembram constantemente de que existe mais uma métrica a ser otimizada, o autoaperfeiçoamento saudável corre o risco de alimentar a autocrítica e a ansiedade em relação ao nosso corpo, à nossa saúde e à nossa autoimagem.
Exemplos disso já foram observados em “espaços de looksmaxxing” — comunidades online nas quais as pessoas podem se conectar e trocar conselhos sobre como melhorar a aparência.
O uso das redes sociais, especialmente o envolvimento com conteúdos ou comunidades que glorificam corpos em forma e idealizados, também tem sido associado a um risco maior de dismorfia muscular (uma preocupação excessiva com músculos e físico) e ortorexia (uma preocupação obsessiva com uma alimentação saudável).
Concentrar-se constantemente em como nos maximizar pode, inadvertidamente, fazer com que prestemos mais atenção ao que há de errado conosco.
“Moderation-maxxing”
Então, talvez fosse bom começar a fazer moderation-maxxing?
Isso não significa deixar de se preocupar com a saúde ou abandonar seus objetivos. Trata-se, na verdade, de reconhecer a mentalidade que está motivando a busca por melhorias.
Se uma tendência de maxxing estimula a consciência sobre comportamentos saudáveis, isso pode ser realmente útil.
Mas, se a busca por um comportamento considerado ideal para a saúde começa a comprometer o bem-estar psicológico ou as relações sociais, vale a pena olhar para si mesmo e explorar as motivações por trás de seus esforços.
Por exemplo, motivações positivas para tentar melhorar sua aparência pessoal podem ser o desejo de aumentar sua autoestima ou de se sentir mais aberto a se conectar com as pessoas ao seu redor.
No entanto, se o que está levando alguém a melhorar a aparência vem de um sentimento de inadequação e da comparação constante com os outros, essa motivação pode colocar a pessoa em risco de desenvolver comportamentos restritivos ou prejudiciais.
Autocompaixão também faz parte do processo
É aí que ideias como autocompaixão e consciência plena se tornam particularmente importantes. A autocompaixão envolve tratar a si mesmo com gentileza, reconhecer nossa humanidade comum, reduzir o autojulgamento e praticar a atenção plena (mindfulness, o foco em viver o momento presente).
Em vez de ignorar as dificuldades ou desistir de melhorar, a autocompaixão permite reconhecer a imperfeição e a mudança como parte da condição humana.
Significa também falar consigo próprio sem julgamentos excessivos e tentar não se identificar demais com a versão idealizada de saúde que aparece nas redes sociais.
E, mais importante, aceitar a si mesmo não significa parar de crescer. Podemos querer melhorar e, ao mesmo tempo, valorizar quem somos agora — sem nos sentirmos constantemente pressionados a maximizar cada aspecto de nossas vidas.
O “maxxing” é apenas uma nova e atraente roupagem para um impulso muito mais antigo em direção à saúde e ao autoaperfeiçoamento.
Embora possa ser uma tendência divertida para experimentar, basta lembrar que a otimização nunca deveria se tornar o propósito da vida. Afinal, não adianta muito construir um personagem com todos os atributos no nível máximo e deixar de aproveitar o jogo.
Jennifer Donnelly é pesquisadora de doutorado em intervenções baseadas em meditação em ambientes clínicos no Centre of Positive Health Sciences da RCSI University of Medicine and Health Sciences, da Irlanda. Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation, sob licença Creative Commons.
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