A jornalista Gloria Steinem, ativista e ícone feminista que morreu nesta semana nos Estados Unidos, colecionou em seus 92 anos de vida muitas histórias de sucesso ligadas ao jornalismo e ao ativismo.
Mas uma delas, que aconteceu antes mesmo dos seus 30 anos, virou um marco atemporal de bom jornalismo e influenciou discussões sobre direitos femininos e objetificação de forma transformadora para a época.
Steinem foi autora de “A Bunny’s Tale” (O Conto de uma Coelhinha, em português), reportagem publicada na revista Show Magazine em 1963 e agora relembrada no momento de sua morte.
Para contar como era a vida dentro do famoso Playboy Club, em Nova York, ela se disfarçou por pouco menos de um mês de coelhinha, apelido dado às garçonetes no local.
O resultado desse período trabalhando foi uma longa história dividida em duas partes, publicadas em maio e junho daquele ano. A publicação gerou comoção e mudanças efetivas na vida das trabalhadoras, virando um dos muitos atos de ativismo da jornalista.
Nascida em Toledo, Ohio, Steinem se formou em ciência política em 1956 e morou dois anos na Índia. Ela começou a escrever para jornais de Nova York trabalhando como freelancer assim que voltou da Ásia.
Article Gloria Steinem Playboy original

Tentar ser jornalista em uma sociedade machista, marcada por redações tomadas por homens, já foi o primeiro dos seus grandes atos de resistência.
A vida de uma coelhinha
Para virar uma coelhinha, Steinem respondeu a um anúncio que procurava “mulheres bonitas e simpáticas entre 21 e 24 anos”. Ela, que tinha 28 anos, criou uma nova identidade e, sob o nome Marie Catherine Ochs, participou do processo seletivo.
Entre os exames necessários para a sua aprovação como coelhinha estavam testes para doenças venéreas e um “exame físico interno”.
“Perguntei se podia ir para o meu próprio médico, mas responderam: ‘Não. Você precisa ir até o nosso médico para um exame físico completo. Todas as coelhinhas precisam’.”, afirmou a jornalista na reportagem.
“A enfermeira me deu um formulário para que eu preenchesse meu histórico médico. ‘Você sabe que isso inclui um exame físico interno?’ Eu disse que sabia, mas que não entendia o porquê. ‘É para o seu próprio bem’, ela disse.”
Aprovada, ela passou por uma série de treinamentos, que incluíam estudos da “Bíblia do Coelho” e palestras sobre a história da marca criada por Hugh Hefner.
A reportagem reveladora
Feita totalmente em primeira pessoa e listando, como um diário, o que acontecia no local a cada dia, a reportagem de Steinem dentro do clube da Playboy revelou curiosidades, mas expôs principalmente as péssimas condições de trabalho das garçonetes no local.
Segundo ela, parte das gorjetas dadas por clientes era confiscada e o salário prometido, que chegava a US$ 300 por semana, acabava se tornando US$ 50. Isso acontecia pelos gastos com roupas e sapatos, que ficavam todos a cargo das coelhinhas.
Steinem também narrou os efeitos do trabalho no corpo, rapidamente sentidos. No curto período em que trabalhou no local, a jornalista sentia o pé constantemente inchado pelas longas horas em cima de saltos, e precisava se enrolar em gaze na cintura, onde o uniforme apertava.
As coelhinhas também recebiam orientações sobre como lidar com os ‘clientes número 1”, os maiores colaboradores da Playboy.
De acordo com a reportagem, elas eram instruídas a “dar tratamento especial, trazendo telefones e canetas imediatamente quando eles pedirem.
“Também podíamos dar a eles os nossos nomes, acompanhá-los dentro do clube e sair com eles”, diz trecho da publicação.
Steinem também revelou um sistema rigoroso de “pontos negativos” para as funcionárias. Elas eram punidas se estivessem com o cabelo desarrumado, se atrasassem ou fossem flagradas mascando chiclete em serviço.
Os bastidores
Em 2019, Steinem contou ao programa Brief But Spectacular que sempre duvidou de que conseguiria ser selecionada para o emprego.
“Eles estavam bem desesperados por uma funcionária, então eu fui indo mais e mais longe”.
Após ser aprovada para trabalhar como coelhinha, ela viveu sob o medo de ser descoberta, já que não tinha apresentado toda a sua documentação.
Outro grande medo era ser descoberta por algum conhecido, o que acabou se tornando realidade quando, em um dos seus dias como garçonete, ela encontrou um vizinho.
“Ele chegou por trás de mim e perguntou: ‘O que você está fazendo? Escrevendo um artigo?’. E eu disse: sim.”
Os dias de serviço exaustivo cobraram rapidamente um preço: a jornalista ficou, para o resto da vida, com o pé meio número maior, um resultado do constante uso de saltos.
Ela também perdeu quatro quilos, o que tornou o seu uniforme “mais folgado” e gerou uma repreensão em uns dos seus últimos dias disfarçada.
“A responsável pelos figurinos me parou e falou: ‘Querida, essa roupa está muito grande para você’. Era verdade que eu tinha perdido quatro quilos nos poucos dias desde que a fantasia foi feita, mas também era verdade que, pela primeira vez, não era mais desconfortável usar aquela roupa.
“Ela marcou a minha cintura e pediu para que eu tirasse a roupa”, contou Steinem:
‘Vou consertar seu figurino amanhã. Vamos tirar uns cinco centímetros de cada lado’, ela disse.”
Para deixar o seu disfarce para trás, ela contou uma nova mentira à chefe: disse que sua mãe estava doente e que precisava sair do serviço para cuidar dela.
“Escolhi essa história porque ela deixaria a porta aberta para mim, caso eu precisasse de mais informações no futuro”, afirmou. Apesar disso, ela nunca mais voltou a ser coelhinha.
A vivência de Steinem traduz um clássico caso de jornalismo gonzo, um título nunca oficialmente dado à jornalista.
Quem ganhou o crédito de criador desse estilo de reportagem foi Hunter S. Thompson, com um texto feito em 1970, sete anos após a reportagem da Playboy.
A reportagem completa pode ser vista aqui.
Reações imediatas
Gloria contou que recebeu ligações ameaçadoras por muitos dias após a publicação do texto.
Pouco tempo depois, outro jornal citou a repórter em uma matéria que acusava Hefner de ligações com a máfia. A Playboy processou o jornal em US$ 1 milhão e os dois fizeram um acordo, sem citar Steinem.
“Eles me perseguiram porque eu revelei algo que eles achavam que era glamouroso e desejável, mas, nos bastidores, não era.
Era um espaço cheio de homens patéticos que não tinham nenhuma outra forma de serem dominantes. Eles também eram profundamente racistas.”
Mais de vinte anos depois, a história também adaptada para um filme para a TV. “A Bunny’s Tale”, que recebeu o mesmo nome do artigo de Gloria, foi ao ar em 1985, com Kirstie Alley no papel principal da jornalista.
Uma marca na carreira
Em “Outrageous Acts and Everyday Rebellions”, livro de memórias publicado na década de 1980, a jornalista avaliou que sua reportagem foi essencial para mudar as condições de trabalho das coelhinhas.
Além disso, ela fez uma importante reflexão sobre a decadência dos bares administrados pela Playboy.
“Minha exposição sobre meu trabalho em um Playboy Club sobreviveu a todos os Playboy Clubs, tanto aqui quanto no exterior.”.
Apesar disso, décadas após o ocorrido, Steinem comentou em uma entrevista que considerava reportagem um “erro profissional”.
Ao canal ABC em 2011, ela contou que, dentro de um mundo machista, aquela reportagem acabou a colocando em uma caixinha e impedindo que ela tivesse novos trabalhos.
“Eu estava começando a receber trabalhos sérios e, de repente, me tornei uma coelhinha.”
Coincidentemente – ou não – poucos anos após a matéria reveladora a jornalista contribuiu para a fundação de duas revistas de grande sucesso. A primeira delas foi a New York Magazine, fundada em 1968, onde trabalhou como editora e colunista de política.
Três anos depois, ela e as colegas Patricia Carbine e Letty Cottin Pogrebin fundaram a revista Ms. A publicação começou como um encarte da revista New York em 1971, mas ganhou independência no ano seguinte.
A revista Ms. seguiu o mesmo rumo de outras publicações impressas do século passado e teve uma queda de vendas, mas ainda existe.
Desde 2001 ela opera sem fins lucrativos, com a ajuda de colaboradores, virou trimestral e é produzida pela Feminist Majority Foundation. Hoje, ela tem distribuição trimestral.
Já a New York Magazine segue ativa e com distribuição semanal. Após a morte da jornalista, a revista elencou dez grandes textos feitos por Steinem para a publicação.
Ver essa foto no Instagram
Uma vida de ativismo
Para além do seu papel dentro das redações, a jornalista também foi uma figura forte de militância pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos.
Em 1969, quando cobria uma reunião para debater a legalização do aborto em Nova York, ela decidiu subir ao palco para falar publicamente pela primira vez sobre uma interrupção de gravidez que fez em Londres quando ainda tinha 22 anos.
Depois disso, na década de 1970, ela e outras feministas fundaram o National Women’s Political Caucus (Grupo Político Nacional das Mulheres), que existe até hoje.
Nos anos que se seguiram, ela foi co-fundadora de outras organizações, como a Aliança Ação das Mulheres, o Centro de Mídia das Mulheres e o das Votantes pró-escolha, comitê de ação pró-aborto.
Personalidades lamentam
A vida de ativismo de Steinem foi lembrada por aqueles que lamentaram a sua morte.
Entre as pessoas que se manifestaram estão a ex-vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, que agradeceu o “incentivo e apoio” da jornalista na sua campanha à presidência.
Hillary Clinton, Barbra Streisand, Oprah Winfrey e Melinda Gates também lamentaram a morte.
Além delas, a Duquesa de Sussex, Megan, também homenageou Gloria e revelou uma ligação próxima com a jornalista.
“Ela passou o Dia de Ação de Graças com a nossa família, me apresentou a uma das minhas melhores amigas (eternamente incentivadora da amizade feminina), amou nossos filhos com todo o seu coração”, afirmou.






