O filme Ink, que conta a história da compra do jornal The Sun por Rupert Murdoch em 1969 e que abriu a 83ª edição do Festival de Cinema de Veneza, é um retrato do empresário que inscreveu seu nome na história do jornalismo ao se tornar um dos grandes magnatas da mídia na era moderna.
E como tudo que o envolve, dividiu opiniões e provocou debates que vão além de sua figura.
A produção da Netflix, adaptação de uma peça com o mesmo nome escrita por James Graham, é dirigida por Danny Boyle, vencedor do Oscar de melhor diretor por Quem Quer Ser um Milionário?.
Apesar de tratar de uma história maior, abordando as mudanças do jornal e polêmicas em torno da imprensa britânica na época, a forma como Murdoch, um magnata australiano que fez fortuna no Reino Unido e nos EUA foi retratado, acabou dominando os comentários sobre o filme.
As ações do magnata, que segue controlando do seu conglomerado de mídia embora oficialmente tenha passado o comando para o filho Lachlan, foram o assunto preferido dos críticos nas resenhas.
A situação atual da mídia impressa hoje no mundo também motivou reflexões de atores, diretor e daqueles que assistiram ao filme em Veneza.
A história do filme Ink
Ink (tinta, em alusão à imprensa escrita) conta a história de como Rupert Murdoch, hoje magnata da comunicação, comprou o jornal britânico The Sun, que vivia dificuldades financeiras, em 1969.
O personagem de Murdoch, interpretado por Guy Pearce, oferece a Larry Lamb, então no Daily Mail, o cargo de editor para “revolucionar” a publicação. Lamb é interpretado pelo ator Jack O’Connell.
Sob nova direção, o tabloide deixa de ser um jornal com dificuldades e se torna a publicação mais vendida do país.
Isso acontece com uma fórmula calculada: as coberturas, antes focadas no establishment britânico, agora se tornam mais “populares”, tratando de temas interessantes à classe trabalhadora, como esportes e sexo.
O filme mostra como, antes mesmo do conceito de click bait, a publicação mudou a forma como pessoas consomem jornalismo no mundo.
A forma escandalosa como o jornal lida com as notícias é colocada à prova quando a esposa de um membro do alto escalão do jornal é sequestrada. Esse parece ser um dos pontos de virada do filme, pelo menos do ponto de vista das críticas.
Além de O’Connell e Pearce, o filme também traz a atriz Claire Foy na personagem da jornalista Joyce Hopkirk, que encara um ambiente misógino para liderar uma página feminina na publicação.
Apesar da estreia em Veneza, espectadores “comuns” precisarão esperar para assistir ao filme. Ele terá uma exibição limitada em cinemas no mês de dezembro e estreia mundialmente na Netflix em 8 de janeiro de 2027.
Atores e diretor se aproximaram do mundo do jornalismo
Em uma coletiva de imprensa antes da estreia, Danny Boyle afirmou que a adaptação do filme foi difícil, mas disse que se identificou com Murdoch por vê-lo como alguém que “detestava o establishment britânico”.
Segundo o diretor, o intuito do filme foi mostrar como o novo dono do The Sun queria “oferecer liberdade, com novas vozes”, ao contrário de seus concorrentes, como o Daily Mail.
“Eu queria que o filme fosse divertido, mas também explorasse lugares sombrios, para que o escritório de Lamb se assemelhasse ao do Poderoso Chefão”, afirmou.
Antes de fazer o filme, atores se reuniram com jornalistas que trabalhavam em mídia impressa na década de 1960.
“Ouvir as histórias daquela época em que se vivia a 160 quilômetros por hora deu vida a tudo. Era difícil publicar um jornal todos os dias, ao contrário de hoje”, afirmou Guy Pearce.
A proximidade com o jornalismo impresso também trouxe uma reflexão sobre o declínio dessa forma de comunicação nos dias de hoje. No evento de lançamento do filme, o diretor questionou se a IA vai substituir jornalistas.
“É triste dizer, mas filmamos em uma das últimas gráficas. Durante as filmagens, descobrimos que ela havia fechado por falta de trabalho. Murdoch tinha a tinta correndo nas veias.
Para mim, o jornalismo é um dos maiores pilares da nossa civilização.”
Murdoch como herói: o que a crítica falou sobre o filme
A BBC classificou o filme como um “drama eletrizante” e disse que Murdoch, uma figura polêmica, vira uma espécie de herói em Ink.
“O Murdoch interpretado por Guy Pearce em Ink é um azarão corajoso: um rebelde destemido que enfrenta os esnobes condescendentes da elite inglesa antiquada.
Em cena após cena, os valentões aristocráticos o desprezam simplesmente por ele ser australiano. Então, mesmo quando apontam com razão o dano que ele está causando, são tão repugnantes que é tentador ficar do lado dele.”
Para a revista Variety, o roteiro do filme tem um tom “deliciosamente fofoqueiro e inquietamente perturbador”.
“O sensacionalismo grosseiro e desumanizador que se tornou a marca registrada do The Sun parece surgir da combinação entre a promessa ilimitada do editor de dar ao público o que ele quer e o compromisso impassível, às vezes relutante, do proprietário de apoiar o que vende.”
Por outro lado, a crítica da publicação Time Out diz que a figura de Murdoch aparece como alguém “estranhamente moral” em um filme apolítico.
“Este é um filme inócuo e apolítico sobre uma das maiores mudanças políticas na sociedade britânica a partir dos anos 60”, diz trecho da análise de John Bleasdale.
A revista americana Time, por sua vez, destaca o papel de Lamb na construção de persona de Murdoch e faz uma reflexão sobre como o The Sun de 1969 está alinhado ao jornalismo contemporâneo.
“Murdoch aprendeu a ser Murdoch com um personagem menos conhecido de quem você talvez nunca tenha ouvido falar: quem afinal era Larry Lamb?”, diz trecho da publicação.
“Este é um filme ousado e divertido que também nos transporta talvez para o ano exato em que jornais e outras organizações de mídia começaram a se afastar das notícias sérias e a se aproximar do entretenimento e da estimulação ininterruptos.”
Um magnata da mídia
Nascido na Austrália, Rupert Murdoch herdou do pai o controle de um pequeno jornal e o transformou em um império global.
Ele é dono da News Corp., representante de títulos influentes no Reino Unido, na Austrália e nos EUA, além do The Sun. Sua corporação também comanda o The Times de Londres, The Australian, Herald Sun, Sky News Australia, Wall Street Journal e New York Post.
Além disso, Murdoch também é dono da Fox Corporation, que detém a rede de TV que se firmou como expoente da direita americana. Apesar da afinidade com a direita, ele não parece ter um alinhamento automático com o presidente.
Desde o começo do segundo mandato de Trump, o empresário discordou da política tarifária do novo presidente dos EUA. Um de seus jornais, o The Wall Street Journal, criticou as medidas, gerando reclamações do republicano e um processo judicial.
Murdoch já inspirou outro personagem famoso das telas
A história de Murdoch inspirou o personagem Logan Roy, patriarca da série Succession, da HBO.
Embora os criadores não confirmem oficialmente a referência, é difícil dissociar a trama de sua história pessoal. Ambas envolvem poder, dinheiro, influência e uma novelesca disputa familiar.
Assim como Murdoch, Roy nasceu fora dos Estados Unidos. Enquanto o magnata da vida real é australiano, o da ficção é escocês.
Além disso, da mesma forma que Murdoch, o magnata da ficção viveu um longo embate que dividiu seus filhos na disputa pela sucessão para dominar o seu império midiático.
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