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Defesa do jornalismo

George Clooney faz defesa do jornalismo no Festival de Veneza e alerta para ameaças à informação

Homenageado com o Leão de Ouro no Festival de Cinema, ator falou sobre autoritarismo, concentração da informação e deepfakes e destacou sua confiança no papel da imprensa.

George Clooney com troféu Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza

George Clooney recebeu o Leão de Ouro em reconhecimento ao conjunto de sua obra cinematográfica (Foto: divulgação Festival de Veneza)




Um dos principais homenageados do Festival de Cinema de Veneza de 2026, o ator e diretor George Clooney marcou sua passagem no evento que atrai as atenções do mundo falando várias vezes sobre um tema que acompanha sua trajetória dentro e fora das telas: o jornalismo.

Filho do conhecido jornalista e apresentador de TV americano Nick Clooney e ex-estudante de jornalismo, o ator fez em Veneza uma declaração de amor à profissão.

Mas também expressou preocupações com autoritarismo, dificuldade crescente de identificar o que é verdadeiro em meio ao avanço da IA, perda de empregos e concentração de importantes meios e tecnologias de informação nas mãos de alguns dos homens mais ricos do mundo.

Ainda assim, ele disse ter confiança na capacidade da imprensa de atravessar períodos de pressão e de alguma forma conseguir fazer as informações chegarem ao público.

“O jornalismo está sempre mudando, sempre sendo desafiado. Mas confio que a informação sempre encontrará um caminho.”

Jornalistas entre os alvos de regimes autoritários

Clooney falou sobre jornalismo e inteligência artificial na entrevista coletiva que precedeu a abertura do festival.  e também em seu discurso na cerimônia na qual recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra.

Dias depois, participou de um simpósio sobre o futuro da indústria criativa e aprofundou suas preocupações com a IA.

No discurso de agradecimento pelo prêmio, ele comentou sobre o momento político atual e disse que pessoas no poder e detentores de grandes fortunas procuram fazer com que diferentes grupos tenham medo uns dos outros.

“As primeiras pessoas que os autoritários tentam silenciar não são os políticos. São os jornalistas que fazem perguntas, os artistas que recusam respostas simples, os cineastas, escritores, atores e músicos que insistem que alguém que você nunca conheceu merece sua empatia.”

Na coletiva, a preocupação com o poder econômico apareceu quando Clooney falou sobre quem controla hoje importantes meios e canais de informação. Ele citou o Washington Post, de Jeff Bezos, e o Twitter, atual X, de Elon Musk.

“As pessoas mais ricas do mundo hoje são donas do Washington Post e do Twitter e de grande parte dos canais de onde obtemos nossas informações, e isso é motivo de preocupação.”

Clooney disse, ao mesmo tempo, acreditar que ainda há espaço para o bom jornalismo e manifestou apoio à profissão.

“Temos enorme admiração pelo jornalismo e damos todo o nosso apoio.”

O apoio não fica apenas nas palavras. Ao lado da mulher, a advogada de direitos humanos Amal Clooney, ele mantém a Clooney Foundation for Justice, que tem entre suas frentes a defesa de jornalistas perseguidos por seu trabalho.

Por meio do programa TrialWatch, a organização acompanha litígios e presta apoio jurídico a profissionais de imprensa processados ou presos em diferentes países.

Uma relação com o jornalismo que começou em casa

A ligação de Clooney com a profissão começou muito antes de sua carreira no cinema. Seu pai, Nick Clooney, trabalhou durante décadas como jornalista, apresentador e âncora de televisão.

George estudou jornalismo na faculdade, embora não tenha concluído o curso.

A influência do pai também chegou ao cinema. Em 2005, Clooney dirigiu e coescreveu Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck), sobre o confronto do jornalista da CBS Edward R. Murrow com o senador Joseph McCarthy durante o período sombrio do macartismo nos Estados Unidos.

Ao falar sobre o filme anos depois, Clooney contou que havia pensado em momentos em que a imprensa americana deixou de confrontar o poder e encontrou no embate entre Murrow e McCarthy um exemplo de quando o jornalismo cumpriu seu papel.

“Sou filho de um jornalista. Para mim, era importante fazer esse filme bem feito.”

IA torna mais difícil saber o que é verdade

Outra preocupação presente nas declarações de Clooney em Veneza foi o impacto da inteligência artificial sobre a informação e a dificuldade de distinguir conteúdo verdadeiro de falsificações.

“Está ficando cada vez mais difícil saber o que é verdade.”

Para ele, os deepfakes criam um problema que vai além da circulação de conteúdo falso: sua existência também torna mais fácil desacreditar fatos e registros verdadeiros.

“Pior do que isso: você cria um ambiente em que se diz ‘talvez isso seja verdade’, ‘talvez não seja’. Então, quando aparece algo real, algo realmente verdadeiro, as pessoas podem dizer: ‘Bem, isso é falso’.”

Clooney disse ter conversado com pessoas que trabalham no desenvolvimento da tecnologia e afirmou não estar convencido de que as medidas de proteção estejam avançando na mesma velocidade.

“Todo mundo está trabalhando intensamente nisso, e ainda não vi grandes avanços.”

Ao falar dos possíveis usos de sua própria imagem, recorreu ao humor: disse que gostaria de evitar aparecer em um comercial de absorventes 20 anos depois de morrer.

Dos empregos a casos jurídicos inventados

Os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho também entraram na pauta do ator em Veneza. Clooney disse acreditar que muitos empregos serão eliminados e citou profissionais de efeitos visuais entre os que podem ser afetados, embora tenha ressalvado que não sabe qual será a dimensão das perdas.

No simpósio realizado em 4 de setembro, voltou aos riscos da tecnologia e citou a experiência de Amal Clooney com informações inventadas por sistemas de IA. Segundo ele, ferramentas já criam casos jurídicos inexistentes que acabam sendo reproduzidos por profissionais que não verificam a informação.

“Esses sistemas alucinam e inventam casos falsos, e advogados que não conferem citam esses casos, ou juízes citam esses casos.”

Clooney citou também a negação do Holocausto ao falar da possibilidade de informações falsas ganharem, em sistemas de IA, o mesmo peso que fatos documentados.

“Você terá pessoas que negam o Holocausto, e isso terá, na IA, o mesmo peso que os fatos.”

E recorreu a um exemplo extremo para falar do alcance dos deepfakes: a possibilidade de um vídeo falso no qual o presidente russo Vladimir Putin anunciasse um primeiro ataque nuclear contra os Estados Unidos.

“O que acontece se uma pessoa vê um vídeo de Putin dizendo que lançou o primeiro ataque nuclear contra os Estados Unidos? E como se distingue se é verdadeiro?”

Quem deve estabelecer limites para a IA?

Clooney questionou ainda quem deveria controlar uma tecnologia com esse alcance. Ao falar dos Estados Unidos, ironizou audiências no Congresso em que parlamentares demonstram pouco conhecimento sobre tecnologia e citou o senador Chuck Grassley.

Ele contou que observa Zuckerberg depor diante de um senador de 94 anos e ironizou perguntas do tipo “como se liga esse computador?”.

“Não são essas as pessoas a quem você quer confiar o santo graal.”

Clooney disse que esse é um dos perigos do momento atual: ainda não se sabe até onde a inteligência artificial chegará nem quem estará efetivamente no controle.

Filmes sobre mídia e poder em Veneza

A preocupação de George Clooney com a concentração da informação também apareceu em dois filmes exibidos em Veneza neste ano. As produções retratam magnatas de gerações diferentes, mas igualmente associados a um enorme poder sobre a mídia e o debate público: Rupert Murdoch e Elon Musk.

Ink, dirigido por Danny Boyle, volta aos primeiros anos da ascensão de Murdoch na imprensa britânica. O filme acompanha a transformação do The Sun no fim dos anos 1960, quando o empresário comprou o jornal e iniciou uma disputa agressiva pela liderança do mercado de tabloides.

Já Musk, documentário de Alex Gibney, examina a trajetória de Elon Musk e a expansão de sua influência por empresas como Tesla, SpaceX e X, antigo Twitter. O filme aborda também a compra da plataforma e o papel que ela passou a exercer na política e na circulação de informação.


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