Menos de três minutos depois de o primeiro avião atingir uma das Torres Gêmeas em Nova York, há 25 anos, uma emissora já mostrava a fumaça sobre Manhattan — um exemplo da rapidez da cobertura da TV no 11 de Setembro.
Sem a internet como conhecemos hoje e sem as redes sociais, foi pelas emissoras mais tradicionais dos EUA que a população assistiu à queda das torres gêmeas do World Trade Center, a um ataque ao Pentágono e à derrubada no meio do caminho de um avião que tinha como destino Washington D.C, totalizando quase 3 mil mortes.
Um quarto de século atrás, a comunicação não tinha os mesmos recursos de hoje. Ainda assim, a cobertura televisiva daquele dia não deixou a desejar.
Nas horas que se seguiram, horas de vídeos ao vivo, inclusive no Brasil, registraram outro avião batendo no World Trade Center e o desmoronamento das torres, em um dia que parou o mundo.
Vinte e cinco anos depois, os vídeos ajudam a reconstruir como as emissoras reagiram, em tempo real, a um atentado cuja dimensão ainda era desconhecida, e que até hoje segue envolto em teorias conspiratórias.
Um deles mostra o que poucos têm a oportunidade de vivenciar: os bastidores e a tensão dentro da redação da CNN após o ataque. O fundador e então CEO da rede, Ted Turner, foi para o centro dos acontecimentos.
“Dia muito tranquilo”: como a televisão acordou no 11 de setembro
A primeira torre do World Trade Center foi atingida às 8h45 no horário de Nova York, quando os jornais da costa leste dos Estados Unidos já estavam por pelo menos duas horas no ar.
Um compilado de vídeos deste dia mostra como a manhã começou para alguns dos canais. Enquanto a CNN abria a programação com vídeos de Michael Jordan, a NBC falava sobre um avião americano que teria sido abatido no Iraque.
A ABC News falava sobre cortes de taxas e o programa The Early Show, da CBS, mostrava a previsão do tempo.
“Não sei, está meio tranquilo no país. Nós gostamos de tranquilidade, mas está muito tranquilo”, afirmou o meteorologista Mark McEwen.
O clima de tranquilidade não durou muito: antes mesmo dos programas das 8h acabarem, todos os canais de televisão nacionais dos EUA mostravam imagens de uma das torres atingida por um avião.
Fox 5 foi primeiro canal a gravar ataque
Às 8h48, menos de três minutos após o primeiro avião atingir uma das torres, o canal WNYW, uma afiliada da Fox 5, entrou no ar com imagens da fumaça no local.
“Alguns momentos atrás alguma coisa, acredito que foi uma avião, atingiu uma das torres do World Trade Center. Vi chamas, você consegue ver a fumaça saindo da torre. Não temos ideia do que foi. Foi um barulho muito alto. Você pode ouvir veículos de emergência se aproximando. Pode ter sido uma aeronave ou algo interno, mas parece ser algo vindo de fora.”
A equipe de reportagem da WNYW estava na região para fazer outra reportagem, sem qualquer relação com as torres. Pouco antes de ver a fumaça, o repórter Dick Oliver estava gravando sobre as eleições primárias de Nova York em um centro de votação no sul de Manhattan.
Cerca de um minuto depois, a CNN entrou com uma imagem distante dos prédios, mostrando a fumaça saindo dos últimos andares do prédio.
“Temos informações preliminares de que um avião teria atingido uma das torres”, afirma a repórter.
A ABC News foi o terceiro canal a entrar no ar, por volta das 8h51, relatando uma “explosão” no local. Pouco antes das 9h, enquanto os programas se aproximavam do fim, todos os canais tratavam esta como a principal notícia.
Cobertura no Brasil

Foto: Globonews/Reprodução de vídeo
Poucos segundos após a CNN internacional entrar no ar com as imagens do então incêndio no World Trade Center, o canal por assinatura GloboNews reproduziu vídeos da emissora norte-americana, sendo a primeira emissora brasileira a noticiar a história.
O do canal, que passava uma reprise do Bom Dia Brasil, interrompeu a programação com a imagem de “Plantão”, e quem entrou no ar foi a apresentadora Leila Sterenberg.
A cobertura de última hora teve moldes pouco convencionais para os dias de hoje, mas comuns na época: os primeiros sete minutos de transmissão tinham longos períodos de silêncio, quando só as vozes dos apresentadores da CNN dos EUA eram ouvidas.
Menos de vinte minutos depois, o canal transmitiu ao vivo o momento em que um avião atinge a segunda torre.
“Achávamos que era replay do primeiro choque, mas aí vimos que tinha sido na outra torre do prédio e tivemos a certeza de que o que estava acontecendo não era um acidente”, afirmou o então editor-chefe do canal, Ricardo Calil, em entrevista ao Memória Globo.
A TV Globo, canal aberto da companhia, também entrou com um plantão ao vivo no ar antes das 10h. A primeira transmissão durou cerca de quatro minutos e saiu do ar, mas a vinheta de plantão tocou novamente às 10h02, segundos antes da segunda torre atingir o WTC.
O apresentador Carlos Nascimento também mostrou dúvida sobre se aquela cena era uma reprise da colisão anterior, mas logo constatou que aquele era um segundo avião.
“Se havia alguma dúvida sobre se o que estamos vendo é ou não um atentado terrorista, a dúvida está desfeita”, afirmou.
Portais engatinhavam no Brasil
Menos populares do que os canais de TV no começo do século, os maiores portais de notícia do Brasil também noticiaram o atentado nas suas homepages. Um deles, o iG, tem uma história curiosa sobre o 11 de setembro.
Meses antes do atentado acontecer, a empresa decidiu que, naquele dia, o portal só teria boas notícias na sua homepage.
A página inicial seria recheada de publicações positivas, previamente escritas por repórteres, e no rodapé de cada uma dessas páginas haveria um link direcionando para outras notícias do cotidiano.
A ideia perfeita começou a desmoronar um dia antes, com o assassinato do prefeito Toninho do PT, de Campinas, em um atentado.
Ainda assim, a programação seguiu, até por volta das 10h03, quando, mesmo contra indicações de superiores, a chefe de reportagem Carina Martins decidiu trocar a manchete do portal.
‘Leão, mais um avião bateu na outra torre do World Trade Center, parece que é terrorismo.
Eu estou publicando na manchete, quando você chegar aqui, me demite.”, afirmou Carina a Leão Serva, então diretor de jornalismo do portal.
A lembrança desse dia foi relatada por Serva à revista Piauí deste mês.
Bastidores da notícia mostram redação da CNN
Nas imagens, é possível ver a agitação de repórteres, as apurações feitas por telefone fixo e os comandos trocados no local.
“Acho que o FBI e o Serviço Secreto têm salas no prédio. Cheque se isso é verdade e, se for, coloque no pé da tela”, pede um do editores a uma colega. “Quem está com o ponto de Aaron Brown? Precisamos corrigir uma informação errada”, afirma outra.
As imagens também mostram a presença de Ted Turner, então dono da rede, e a mobilização de equipes para a região dos ataques.
“Questiono se isso vai piorar. Quem pode ter feito isso? Tem que ser um grupo terrorista, como o Talibã, ou algo assim. É um grupo grande”, fala Turner a colegas na sala de controle da TV.
Aquele foi o primeiro dia de Aaron Brown no ar na CNN. O jornalista, que tinha acabado de deixar a ABC, estrearia apenas semanas depois no canal, mas foi chamado às pressas para ancorar a programação naquela manhã.
Ele passou 17 horas consecutivas ao vivo, de cima do telhado dos escritórios da CNN em Manhattan. Por esta cobertura, Brown ganhou o prêmio Edward R. Murrow de jornalismo.
Leia também | 11 de Setembro: veja 5 fake news que resistiram 25 anos depois do atentado às Torres Gêmeas
Leia também | George Clooney faz defesa do jornalismo no Festival de Veneza e alerta para ameaças à informação






