A Ralph Lauren foi arrastada para uma polêmica nas redes sociais sem ter feito campanha, convite ou declaração alguma: uma capa falsa de sua revista colocou o influenciador de extrema direita Nick Fuentes como destaque da publicação e foi tomada como verdadeira por parte do público.
A montagem, publicada por um perfil satírico, alcançou centenas de milhares de pessoas, segundo levantamento do site de verificação de fatos NewsGuard e acabou ligando uma das marcas de moda mais tradicionais dos Estados Unidos a um nome altamente controverso no país.
O episódio acontece enquanto a própria Ralph Lauren enfrenta outra controvérsia nas redes: a marca publicou um conteúdo com a atriz Gal Gadot, e usuários pró-Palestina reagiram com críticas e pedidos de boicote por causa do apoio público da atriz a Israel.
No caso da capa, sem fechar um contrato ou dar qualquer declaração, uma das marcas de roupa mais tradicionais dos EUA se viu ligada a um nome amplamente detestado por suas posições racistas e antissemitas.
Esta não é a primeira vez que o nome de uma marca famosa nos EUA acaba arrastado para uma relação não existente. Entre as vítimas mais recentes estão nomes como a Coca-Cola e a General Motors.
Propaganda falsa
A foto de Fuentes para uma suposta campanha publicitária da Ralph Lauren foi publicada pela primeira vez em uma página do X chamada SF Post.
“Ralph Lauren em maus lençois depois que o streamer de extrema direita Nick Fuentes aparece na capa da edição de outono de 2026 da revista”, diz o post, de 6 de setembro.

Apesar de parecer uma montagem, a publicação gerou engajamento e dúvidas entre os usuários. Muitos responderam ao post perguntando se aquela capa era verdadeira. Outros sequer questionaram, parabenizando a empresa por colocar o extremista no lugar de outras modelos.
“Finalmente não é uma mulher morena morbidamente obesa sendo enfiada goela abaixo”, diz uma das respostas.
Toda essa interação aumentou o alcance da capa falsa, que em três dias tinha mais de 800 mil visualizações.
Montagem foi feita com foto de 2025
Ao contrário de outras notícias falsas, feitas com esmero para propagar desinformação, a suposta capa de revista parecia uma publicação em formato de piada.
A própria página que publicou a “publicidade” se descreve no X como um “veículo de notícias a partir de uma perspectiva esquizofrênica”.
Outros posts feitos por ela na rede social também são absurdamente mentirosos, como um que acusa o vice-presidente dos EUA, JD Vance, de ter “vitiligo reverso” ou outro que diz que a cantora Olivia Rodrigo doou milhões para o movimento Ku Klux Klan.
O NewsGuard traçou a origem da imagem e encontrou a foto que foi usada como base para ela: uma propaganda da própria Ralph Lauren, que ilustrava um modelo negro. A foto apareceu na campanha de primavera de 2025 da marca.

Nas duas fotos, tanto as roupas quanto o fundo do ensaio fotográfico são os mesmos. As únicas mudanças feitas pela IA são no rosto do modelo e nas mãos dele.
Quem é Nick Fuentes
Nick Fuentes é um dos nomes mais conhecidos da extrema direita americana hoje. Conhecido por seus comentários antissemitas, ele ganhou destaque em 2017, quando, aos 18 anos, participou do comício Unite the Right, em Charlottesville, na Virgínia.
Sua participação no comício, levantando tochas e gritando que “os judeus não nos substituirão”, ocasionou ameaças de morte ao então estudante. Meses depois, Fuentes decidiu deixar a Universidade de Boston por questões de segurança, o que chamou ainda mais atenção para ele.
Hoje, Fuentes, que se autodenomina um “conservador cristão”, apresenta o podcast America First, onde tem uma plataforma para disseminar seus discursos supremacistas. Ele prega contra o feminismo, a homossexualidade e contra a “mistura de raças” na sociedade americana.
Entre os seus atos antissemitas estão falas de que “judeus não têm lugar na civilização ocidental” e a crença de que o holocausto é “um exagero”.
As opiniões muitas vezes criminosas de Fuentes encontram terreno propício para se propagar: ele tem 1,3 milhão de seguidores na rede social X, onde posta constantemente.
Sátiras confundidas com verdade
Esta não é a primeira vez na qual um perfil claramente satírico publica uma notícia falsa e engana o público nos EUA. Como consequência, marcas de renome acabam ligadas a figuras polêmicas que, no fim, nunca receberam apoio delas.
Em julho, as vítimas da vez foram a Coca-Cola e a General Motors. Um perfil de sátiras no Facebook inventou que as marcas teriam suspendido suas propagandas em emissoras que boicotaram um discurso antidemocrático de Donald Trump.
A mentira logo se propagou no X e dividiu opiniões. Enquanto alguns louvavam o boicote, outros criticavam as empresas por sua parcialidade. No fim, somente a Coca-Cola se pronunciou, negando aquela notícia inverídica, enquanto a GM permaneceu em silêncio.
Assim como a GM, a Ralph Lauren também optou por permanecer em silêncio. A marca não respondeu às solicitações da NewsGuard e também não fez qualquer declaração nas redes sociais.
Leia também | Coca-Cola e GM viram alvo de campanha de desinformação após discurso de Trump sobre riscos de fraude eleitoral
Leia também | Modelo processa marca que o ‘embranqueceu’ com IA em propaganda na Austrália






