Vacinas para animais não são perigosas e ajudam os bichinhos a viverem mais e melhor, garantem especialistas. Mas a desinformação em torno de vacinas que ganhou força durante a pandemia de Covid-19 também vem crescendo em torno da imunização de pets.
É o que mostra um alerta publicado pelo site de verificação de notícias NewsGuard, que identificou o avanço de postagens associando vacinas aplicadas há décadas em animais a casos de câncer.
As alegações, divulgadas em nome de “especialistas” em medicina veterinária holística, já foram contestadas por fontes confiáveis, incluindo Associação Americana de Medicina Veterinária dos EUA, mas continuam circulando e alcançando milhares de pessoas.
Vacinas para animais não são perigosas, garantem especialistas
O problema não é novo. Em setembro de 2025, a Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) repercutiu uma lista de oito informações falsas que circulam sobre a imunização de cães e gatos.
Mas ele vem ganhando força na internet, sobretudo nos EUA, em um contexto de crescente questionamento das políticas de vacinação pelo próprio governo federal desde o retorno de Donald Trump à Presidência. E acabam se espalhando pelo mundo por meio de redes sociais, que não têm fronteiras geográficas.
O levantamento do NewsGuard destacou duas publicações recentes de grande alcance que potencializaram a desinformação sobre vacinas para animais domésticos. Uma delas foi publicada em 4 de agosto pela KLA TV, com falas da ex-veterinária Margo Roman.
Margo, que se apresenta como “veterinária holística”, perdeu a licença para exercer a medicina veterinária por um “histórico de incidentes”. Entre esses incidentes está a recusa para vacinar pets.

Foto: NewsGuard/Reprodução
No vídeo destacado pelo NewsGuard, ela credita a “vacinação excessiva” ao suposto aumento no índice de câncer entre animais no país.
Publicação no X alega ‘câncer turbo’
Outra publicação, de uma mulher chamada Valerie Anne Smith, que se apresenta como coach de saúde metabólica, relata a aparição do “câncer turbo” em animais.
A mulher cita outra “veterinária holística”, Judy Jasek, para denunciar uma suposta toxicidade em vacinas para animais. “Questione cada injeção, exija respostas”, afirmou.
“Animais de estimação saudáveis recebem suas vacinas de rotina… e, de repente, meses depois, se deparam com tumores que explodem. Agora, as grandes farmacêuticas estão introduzindo a tecnologia de mRNA em injeções para animais de estimação — e as taxas de câncer estão aumentando ainda mais rapidamente.”
A publicação com a mentira, feita no X, teve mais de 90 mil visualizações e mais de cinco mil curtidas em menos de um mês.
Vacinas não estão ligadas ao aumento de câncer animal
Não há base científica para nenhuma das alegações publicadas nas redes sociais, segundo o NewsGuard.
A Presidente da Associação Americana de Medicina Veterinária dos EUA, Jen Quammen, foi uma das veterinárias ouvidas pelo serviço de verificação de fatos e afirmou que o termo “câncer turbo” não é um diagnóstico conhecido na medicina.
Ela lembrou, ainda, que as vacinas são um dos métodos mais eficazes de proteção contra doenças graves e, muitas vezes, fatais que atingem os bichos.
“Não há evidências de que as vacinas estejam causando qualquer tipo de epidemia de câncer em cães ou gatos.”
Não há comprovação de que câncer em animais aumentou
Além de destacar pesquisas que afirmam a segurança das vacinas, o relatório do NewsGuard também lembrou que não há até o momento um estudo que comprove a crescente de câncer em animais, como afirmado nas publicações mentirosas.
A Animal Câncer Foundation, ONG que financia pesquisas sobre câncer animal nos EUA, apontou que “não há estatísticas cuidadosamente analisadas sobre o assunto”.
Além disso, a organização afirmou que uma possível justificativa para o suposto aumento de casos seria a crescente na busca por cuidados especializados para animais de estimação. Ou seja: a maior quantidade de consultas acaba aumentando também diagnósticos que antes passariam silenciosos.
Animais vacinados vivem mais
Jessica Vogelsang, diretora da Associação Americana de Hospitais Veterinários, explicou ao NewsGuard que a impressão de que os animais têm mais câncer pode ser uma correlação imprecisa com a maior expectativa de vida que essas vacinas dão aos bichos.
“As vacinas são um dos principais fatores que contribuem para o aumento da expectativa de vida dos animais de estimação. Uma maior expectativa de vida também leva a um aumento na incidência de doenças relacionadas à idade, como o câncer.”
Outro fato importante é que, de acordo com a Associação de Medicina Veterinária dos EUA, 0,01% dos animais vacinados podem desenvolver um pequeno nódulo no lugar da injeção. Esse nódulo pode, em casos raros dentro desses 0,01%, crescer e virar um sarcoma, uma espécie de câncer.
UFMG fez alerta sobre desinformação no Brasil
Em setembro de 2025, a Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicou um alerta sobre desinformação em torno de vacinas para cães e gatos.
Entre elas estão alegações de que animais idosos, gatos ou pets que não saem de casa não precisam ser vacinados, ou de que as vacinas oferecem mais riscos do que benefícios.
A publicação também destacou um estudo da UFMG, realizado em 2023, que encontrou uma relação entre a atitude dos tutores diante das vacinas humanas e a vacinação dos animais: pessoas que não se vacinavam contra a Covid-19 apresentavam probabilidade sete vezes maior de também não imunizar seus pets.
Segundo o texto, tutores que mantêm a vacinação dos animais em dia tendem a buscar orientação de médicos-veterinários, enquanto os que não vacinam recorrem com maior frequência à internet e a grupos de WhatsApp, ampliando a exposição à desinformação.
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