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Riscos da IA

Claude foi usado como ‘redação’ para produzir campanhas de influência em vários países, incluindo Brasil, diz Anthropic

Relatório mostra como o chatbot foi integrado à produção de conteúdo, fazendo tarefas que normalmente exigiriam uma equipe editorial completa

Dario Amodei, CEO da Anthropic e logomarca da IA Claude

Dario Amodei, CEO da Anthropic (foto: perfil redes sociais)




O Claude, assistente de inteligência artificial da Anthropic, foi usado em nove operações de influência e desinformação voltadas a públicos de países em seis continentes, incluindo o Brasil, segundo um novo relatório divulgado pela empresa documentando exemplos de mau uso de sua tecnologia.

Os casos vão de uma linha de produção de conteúdo para veículos estatais russos como RT e Sputnik a uma rede de falsos sites de notícias que tinha o Brasil entre seus principais mercados.

Em uma das operações, cerca de 70 sites que se apresentavam como veículos independentes publicaram pelo menos 8.913 artigos em cerca de 20 idiomas.

A Anthropic descreve o uso do Claude como uma espécie de mesa de produção editorial, fazendo um trabalho que normalmente exigiria uma equipe de profissionais.

Dario Amodei pediu freio no desenvolvimento de modelos de IA

O documento da Anthropic reúne também casos de ciberataques, vigilância, golpes, desenvolvimento de armas e outras atividades.

Ele foi publicado dois dias antes de o CEO da empresa, Dario Amodei, defender publicamente uma desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados de inteligência artificial.

Ele argumentou que é preciso dar mais tempo para que as medidas de segurança da IA acompanhem a evolução da tecnologia. A proposta já foi aceita por grandes players da IA, como OpenAI (dona do ChatGPT), Grok (de Elon Musk) e Google.

Brasil estava entre os principais mercados de rede com 70 falsos sites

O Brasil aparece em uma das maiores operações de influência descritas pela Anthropic no capítulo dedicado a mostrar o mau uso do Claude.

A empresa diz ter ligado cerca de 70 falsos sites de notícias a uma mesma agência de publicidade digital baseada na França, a LKM Company.

Os sites eram montados para parecer veículos locais independentes. A operação tinha foco especial no Brasil, Estados Unidos, França e República Democrática do Congo.

O relatório não identifica quais endereços ou textos eram destinados especificamente ao público brasileiro e também não permite afirmar que o conteúdo voltado ao país tenha sido publicado em português.

Ao todo, a rede publicou pelo menos 8.913 artigos em cerca de 20 idiomas. Cada falso veículo tinha uma conta correspondente no X, e mais de 250 perfis falsos eram usados para comentar e ajudar a distribuir o material.

Claude escrevia textos e reescrevia reportagens reais

O Claude era usado tanto para produzir artigos do zero quanto para reescrever matérias publicadas por jornalistas e veículos legítimos.

Segundo a Anthropic, uma mesma notícia podia ganhar versões com posições políticas diferentes, dependendo do público a que se destinava.

Em outros casos, textos originalmente sem conteúdo político recebiam um novo enquadramento ou eram levados para outro país sem o contexto em que haviam sido publicados.

A rede não seguia uma linha ideológica única. A Anthropic afirma que as posições mudavam conforme o cliente que contratava o serviço.

Os comandos dados ao Claude pediam textos já formatados em HTML, com tamanho determinado e links internos. O objetivo incluía facilitar a publicação automática e melhorar a posição dos sites nos mecanismos de busca.

Os artigos apareciam assinados por jornalistas que, segundo a investigação, não existiam. Isso ajudava a dar a cada site a aparência de uma redação local própria.

Quase 9 mil artigos, mas pouca audiência comprovada

Apesar do volume, a Anthropic afirma ter interrompido essa operação antes que ela formasse uma audiência significativa.

A maior parte dos artigos teve pouco engajamento observável de pessoas reais, e a empresa não encontrou evidências de que o conteúdo tenha se espalhado de forma relevante para além dos sites e das contas controlados pela própria rede.

A diferença entre produzir desinformação em grande escala e conseguir efetivamente alcançar pessoas aparece em vários pontos do relatório.

Pesquisas anteriores já mostraram que o uso de IA para produzir conteúdos falsos ou enganosos é uma das principais preocupações do público em relação à tecnologia.

Claude virou uma espécie de redação para mídia estatal russa

O caso envolvendo veículos estatais russos é diferente porque parte do material produzido com o Claude entrou em canais que já tinham audiência.

A Anthropic identificou quatro contas nas quais usuários empregavam o Claude como uma “mesa de produção editorial e jornalística”.

Segundo a empresa, o conteúdo resultante chegou a veículos como Sputnik Moldova, RIA Novosti, Sputnik en Español, Sputnik Africa e à redação em inglês da RT.

A empresa afirma que o Claude permitia a uma única pessoa atingir uma escala de produção que normalmente exigiria uma equipe inteira de profissionais.

Da Moldávia à América Latina

Um ex-editor-chefe do Sputnik Moldova, segundo a Anthropic, usava o Claude para transformar notícias da Romênia e da Moldávia, pesquisas de opinião e posts da oposição em artigos em russo.

Parte desse material foi publicada no canal do Sputnik Moldova no Telegram e pela RIA Novosti e depois reproduzida por outros veículos.

O mesmo operador também teria ajudado a espalhar alegações falsas e difamatórias contra a presidente da Moldávia, Maia Sandu, antes das eleições parlamentares de setembro de 2025.

A Anthropic afirma que as mesmas histórias apareciam em diferentes veículos, criando a impressão de que haviam sido confirmadas de maneira independente.

Em outro caso, um colaborador ligado à Rússia retirava conteúdo de canais russos no Telegram e usava o Claude para produzir artigos em espanhol voltados ao público da América Latina, publicados pelo Sputnik en Español e em outros canais.

O uso de chatbots na circulação de narrativas de desinformação ligadas à Rússia já havia sido identificado em outros levantamentos.

Texto produzido com o Claude chegou à transmissão da RT

No Sputnik Africa, o Claude recebia material de agências russas e francesas e seguia um manual editorial com cerca de 40 regras para preparar textos em inglês.

A Anthropic encontrou pelo menos uma publicação no X cujo texto correspondia exatamente ao produzido com a ferramenta.

Na RT, um funcionário usava o Claude para preparar material em inglês destinado a transmissões ao vivo, incluindo títulos, textos exibidos na tela e roteiros para locução.

As fontes incluíam agências russas, o serviço de inteligência exterior do país, o SVR, e o Ministério da Defesa. A Anthropic afirma ter confirmado pelo menos um caso em que o material produzido com o Claude efetivamente chegou ao ar.

Segundo o relatório, a ferramenta funcionava como uma camada de subedição dentro de estruturas profissionais que já existiam. O Claude participava de várias etapas da produção, da adaptação das fontes à preparação do material final.

Na Malásia, falso veículo e cerca de mil contas no X

Outra operação descrita no relatório tinha como foco a Malásia. Uma plataforma comercial administrava cerca de mil contas falsas no X e mantinha um falso veículo chamado Malaysia Pulse.

O site copiava matérias de veículos legítimos e usava o Claude para produzir novas versões, publicadas sob nomes de autores inventados.

Também reaproveitava conteúdo de veículos estatais ou ligados aos governos da Rússia e da China, como Sputnik/RIA, Xinhua, CGTN e TV BRICS. As referências à origem eram retiradas para que o material parecesse produzido por uma fonte jornalística independente da Malásia.

Plataforma oferecia até visualizações artificiais

A estrutura malaia ia além da produção de textos. O sistema permitia definir metas de visualizações e engajamento para determinadas mensagens.

A Anthropic encontrou um pedido de 1 milhão de visualizações para conteúdo favorável ao primeiro-ministro do país. A empresa ressalva que o número aparecia nas próprias ferramentas dos operadores e não pôde ser verificado de forma independente.

A plataforma foi ligada a uma empresa de tecnologia de Istambul que, segundo a investigação, vendia esse tipo de estrutura como serviço.

No Irã, objetivo era esconder a origem das mensagens

O relatório descreve também três operações que a Anthropic relaciona a instituições estatais iranianas.

O Claude era usado para elaborar estratégias, criar personagens fictícios, organizar listas de pessoas e instituições e transformar boletins oficiais em conteúdo para diferentes públicos.

Uma das funções era disfarçar a origem do material. Segundo a Anthropic, os textos eram adaptados para parecer escritos por autores estrangeiros ou publicados por fontes jornalísticas independentes.

O conteúdo era preparado em farsi, árabe, urdu, malaio, espanhol e inglês, com planos de chegar a 20 idiomas. A circulação incluía X, Instagram, Telegram, TikTok e YouTube, além de plataformas iranianas.

Em Bangladesh, centenas de notícias falsas

Em Bangladesh, um operador usou 29 contas do Claude para automatizar conteúdo favorável à Liga Awami.

A Anthropic identificou pelo menos 1.500 manchetes, 300 histórias falsas e 1.500 instruções para geração de imagens. O material era pensado principalmente para vídeos no Facebook, YouTube e TikTok.

Segundo o relatório, o próprio operador se referia a parte do conteúdo como “notícias falsas”. A empresa diz não ter encontrado evidências de que o partido tenha dirigido ou financiado a operação.

Campanhas também apareceram no Quênia e na África Central

No Quênia, o Claude era usado para transformar temas políticos em lotes de posts que deveriam parecer comentários espontâneos de cidadãos. A campanha elogiava integrantes do governo e atacava adversários antes das eleições gerais de 2027.

A Anthropic afirma, porém, que não encontrou evidências de participação do governo e que a operação teve pouco alcance real.

Na República Centro-Africana, um operador de língua russa usava a ferramenta na produção de conteúdo para uma rádio local. Os textos seguiam uma linha pró-Rússia, anti-França e favorável ao governo centro-africano, mas eram preparados para parecer produzidos por jornalistas locais.

Outra rede clonou o estilo de um ativista

Uma operação ligada pela Anthropic ao grupo iraniano de oposição MEK/NCRI foi além da produção de textos.

O Claude recebeu milhares de posts de um ativista para aprender seu estilo de escrita. Segundo a investigação, uma conta que imitava essa pessoa foi então usada para conversar com seus contatos políticos.

A rede também criou avatares artificiais apresentados como iranianos comuns.

Operação ligada aos Emirados mirou até jornalistas

Em outro caso, a Anthropic diz ter ligado com alta confiança uma operação a autoridades dos Emirados Árabes Unidos.

O Claude foi usado em uma estrutura que incluía centenas de perfis falsos, uma organização apresentada como independente e relatórios sobre direitos humanos.

A investigação encontrou ainda dossiês sobre parlamentares europeus, jornalistas e relatores especiais das Nações Unidas, além de material destinado a fóruns da organização.

Produzir mais não significa convencer mais

Uma conclusão no relatório é que a inteligência artificial permite produzir muito mais conteúdo com menos pessoas, mas isso não garante audiência ou influência.

Várias das redes identificadas pela Anthropic tiveram pouco engajamento real ou foram desativadas antes de conseguir sair do próprio circuito de sites e contas falsas.

Os casos em que o conteúdo alcançou públicos estabelecidos aparecem principalmente quando a produção com IA foi incorporada a canais que já existiam, como rádio, televisão e veículos estatais.

Até onde a Anthropic consegue acompanhar o conteúdo

A Anthropic disse no relatório que consegue observar em detalhes o que acontece dentro do Claude, desde o planejamento das campanhas até a produção dos textos.

Mas a visibilidade diminui quando o material sai de seus sistemas. Para verificar se algo foi efetivamente publicado, a empresa diz recorrer a pesquisas em fontes abertas, informações de outras plataformas e reportagens públicas.

Por isso, o documento mostra com mais precisão como o Claude foi usado para montar e alimentar essas operações do que quantas pessoas foram alcançadas ou qual efeito o conteúdo teve depois de publicado.

 

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