Uma entrevista do apresentador Jimmy Kimmel com o político James Talarico, que não foi levada ao ar em seu talk-show noturno na ABC na semana passada após pressão da agência que regula as emissoras nos Estados Unidos, acabou virando um sucesso no YouTube e se tornou a mais assistida de seu programa na plataforma em dois anos.
A conversa com o candidato democrata ao Senado pelo Texas acumula quase 10 milhões de visualizações em quatro dias.
Antes de receber Talarico, Kimmel explicou sem rodeios ao público por que a entrevista seria exibida apenas na internet: disse que o programa estava sendo alvo da Comissão Federal de Comunicações (FCC) pelo “crime de entrevistar candidatos políticos”.
O apresentador lembrou que o próprio Donald Trump foi entrevistado ali quando era candidato, mas que agora “aparentemente não gostava mais dele, ou da Primeira Emenda [que garante a liberdade de expressão no país].”
E afirmou que a agência havia feito ameaças a ele, ao programa, à ABC e a emissoras locais que retransmitem o sinal por decisões editoriais. A saída, segundo ele, seria contornar a TV aberta e publicar a conversa no YouTube, não regulado pela autoridade federal como as TVs que dependem de concessão para operar.
O título escolhido para o vídeo deixou a provocação explícita: Jimmy Kimmel’s Interview with James Talarico That the FCC Doesn’t Want You To See — “A entrevista de Jimmy Kimmel com James Talarico que a FCC não quer que você veja”, em tradução livre.
Pressão sobre Kimmel e a ABC vem desde 2025
O caso é mais um capítulo da série de embates entre a ABC e o órgão regulador, a maioria deles em torno do programa de Kimmel.
Em setembro de 2025, o Jimmy Kimmel Live! chegou a ser suspenso pela ABC após críticas de Brendan Carr, presidente da FCC, a comentários do apresentador sobre a morte do ativista conservador Charlie Kirk. Grupos que controlam emissoras afiliadas também deixaram de transmitir o programa temporariamente.
A disputa agora está na Justiça. Em agosto, Disney e ABC processaram a FCC para tentar impedir a revisão antecipada das licenças de oito estações da rede, prevista originalmente para 2028. As empresas acusam a agência de usar seus poderes regulatórios para pressionar a programação e as decisões editoriais.
Por que a entrevista não foi para a TV?
A controvérsia é baseada na regra de “oportunidades iguais”, que em determinadas circunstâncias permite a adversários políticos pedir espaço comparável quando uma emissora de TV aberta coloca um candidato no ar.
Entrevistas jornalísticas sempre foram tratadas como exceções. Em janeiro, porém, a FCC mudou a orientação seguida havia décadas e afirmou que programas diurnos e noturnos de entrevistas não poderiam presumir automaticamente que estavam protegidos por essa exceção.
Kimmel havia dito na véspera que a conversa com Talarico ficaria fora da transmissão da ABC principalmente em consideração às afiliadas da rede no Texas, que poderiam ter de lidar com pedidos de outros candidatos. A ABC não comentou publicamente a decisão.
O YouTube fica fora desse problema: as regras da FCC sobre tempo para candidatos se aplicam às emissoras abertas licenciadas pela agência, e não à plataforma.
Entrevista supera 9,7 milhões de visualizações
O vídeo cresceu rapidamente. Passou de 5 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas e, durante o fim de semana, já se aproximava de 7 milhões. Na terça-feira (15), quatro dias depois da publicação, ultrapassou 9,7 milhões.
Em fevereiro, uma conversa do político com Stephen Colbert ficou fora da transmissão da CBS por preocupações com a mesma regra da FCC e foi publicada no YouTube. O vídeo levou cerca de seis meses para chegar a 9,6 milhões de visualizações — marca que Kimmel ultrapassou em menos de quatro dias.
As visualizações no YouTube não podem ser comparadas diretamente com a audiência de um programa de televisão, porque são acumuladas ao longo do tempo e seguem outra metodologia.
Mas o alcance mostra como uma entrevista mantida fora da TV aberta encontrou uma audiência de milhões em uma plataforma que não enfrenta a mesma limitação regulatória.
Chefe da FCC diz que caso é uma “farsa”
Carr contestou a interpretação de Kimmel. O presidente da FCC afirmou que a regra não proíbe entrevistas com candidatos e chamou o episódio de uma “farsa” criada para gerar audiência e doações para Talarico.
Segundo ele, quando a regra se aplica, um candidato adversário pode pedir uma oportunidade comparável, que não precisa necessariamente ser uma entrevista no mesmo programa.
A discussão faz parte de uma disputa mais ampla sobre os limites da atuação da FCC sobre o conteúdo das emissoras.
Donald Trump já defendeu publicamente que redes de TV críticas a seu governo percam suas licenças. A agência, porém, licencia estações locais que usam o espectro público, e não redes nacionais como a ABC como um todo.
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