Por trás de ferramentas de inteligência artificial que parecem funcionar apenas com alguns comandos há uma indústria que consome enormes quantidades de dinheiro, chips, dados, energia, água e trabalho humano, um sistema investigado em um livro que se tornou best-seller do New York Times.
É esse sistema que a jornalista Karen Hao investiga em O império da IA, livro-reportagem centrado na ascensão da OpenAI, criadora do ChatGPT, e na concentração de poder em um pequeno grupo de empresas de tecnologia.
Hao começou a acompanhar a OpenAI em 2019, quando a organização ainda se apresentava como uma iniciativa sem fins lucrativos cuja missão era desenvolver inteligência artificial de forma segura e em benefício da humanidade.

Anos depois, a empresa se transformaria em uma das protagonistas de uma corrida mundial por investimentos, infraestrutura e usuários.
O livro acompanha essa transformação, mas vai além dos escritórios do Vale do Silício. Hao viajou a países como Quênia e Chile para investigar quem trabalha na base dos sistemas de IA e quais recursos naturais são necessários para mantê-los.
A tese da obra é que a expansão da inteligência artificial está criando estruturas de poder que a autora compara a impérios.
Por que Karen Hao fala em um “império” da IA
A comparação não é usada apenas como metáfora para o tamanho das empresas.
Em entrevista concedida durante sua passagem pelo Brasil para o lançamento da edição em português, em junho, Hao explicou que considera empresas como OpenAI, Google e Anthropic “impérios” a partir de três características principais.
A primeira é a extração de recursos em grande escala. Isso inclui desde dados pessoais e obras usadas no treinamento dos modelos até a água, a energia e a infraestrutura necessárias para operar grandes centros de processamento de dados.
A segunda é o controle crescente sobre os fluxos de informação. Empresas que desenvolvem sistemas de inteligência artificial passam a ocupar uma posição cada vez mais importante entre quem produz informação e quem a recebe, à medida que chatbots, buscadores e assistentes digitais começam a responder diretamente às perguntas dos usuários.
A terceira é a capacidade dessas companhias de incorporarem às tecnologias seus próprios valores e decisões sobre o que os sistemas podem ou não fazer. Para Hao, isso coloca decisões com impacto social nas mãos de um grupo restrito de empresas privadas.
Da promessa da OpenAI à corrida pelo ChatGPT
Grande parte de O império da IA acompanha a história da OpenAI e de Sam Altman. Quando Hao começou a cobrir a organização, em 2019, ela diz ter visto inicialmente seus fundadores como uma força que poderia contrabalançar os interesses comerciais das grandes empresas de tecnologia.
A trajetória mudou conforme o desenvolvimento de modelos cada vez maiores passou a exigir volumes crescentes de capacidade computacional e financiamento.
A entrada de bilhões de dólares da Microsoft ajudou a OpenAI a ampliar essa estrutura, enquanto a chegada do ChatGPT, no fim de 2022, levou a inteligência artificial generativa ao grande público.
O sucesso acelerou uma disputa que hoje envolve algumas das empresas mais valiosas do mundo. Google, Meta, Microsoft e startups como a Anthropic passaram a investir somas cada vez maiores na construção de modelos, data centers e produtos de IA.
Em maio deste ano, por exemplo, a Anthropic chegou perto de uma avaliação de US$ 1 trilhão após uma nova rodada de financiamento.
O trabalho humano escondido atrás da inteligência artificial
Hao também desloca o foco dos executivos e engenheiros para pessoas que normalmente aparecem pouco na narrativa sobre a IA. Entre elas estão trabalhadores contratados em países do Sul Global para classificar, organizar e moderar grandes volumes de dados usados pelos sistemas.
No Quênia, a jornalista ouviu trabalhadores envolvidos nesse tipo de atividade. São tarefas essenciais para que os modelos aprendam a reconhecer conteúdos inadequados, classificar respostas e melhorar seu desempenho, mas realizadas muitas vezes longe das empresas que vendem os produtos ao público.
Outro eixo da investigação é ambiental. No Chile, Hao acompanha ativistas que questionam o impacto do crescimento dos data centers sobre o consumo de água. O tema ganhou importância à medida que o aumento do uso da IA passou a exigir estruturas computacionais maiores e mais intensivas em energia.
Esses custos, argumenta a autora, raramente ficam visíveis para quem acessa um chatbot pelo celular ou computador. É justamente essa distância entre a experiência aparentemente simples do usuário e a infraestrutura necessária para torná-la possível que o livro procura mostrar.
Uma investigação iniciada antes da explosão da IA generativa
Karen Hao é formada em engenharia mecânica pelo MIT e trabalhou como editora sênior de inteligência artificial da MIT Technology Review e repórter de tecnologia do Wall Street Journal.
Também lidera a série AI Spotlight, do Pulitzer Center, dedicada à formação de jornalistas para investigar os impactos da tecnologia.
Sua apuração sobre a OpenAI começou anos antes de a IA generativa se transformar em um produto de consumo de massa. Isso permitiu acompanhar de perto mudanças internas da empresa, incluindo a saída e o retorno de Sam Altman ao comando em 2023, um dos episódios reconstruídos no livro.
Livro premiado disponível no Brasil
Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman’s OpenAI foi publicado originalmente em inglês em maio de 2025. A obra entrou na lista de best-sellers do New York Times e venceu o National Book Critics Circle Award de não ficção e o Los Angeles Times Book Prize, entre outros prêmios.
No Brasil, o livro ganhou tradução de Ananda Alves e André Sequeira pela Editora Rocco, com o título completo O império da IA: por dentro da corrida irresponsável pela dominação total.

A edição brasileira foi lançada oficialmente em 30 de junho, durante o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo, com a participação de Karen Hao.
Quanto custa e quais versões estão disponíveis
A edição brasileira impressa tem 480 páginas e preço de capa de R$ 99,90 na Editora Rocco. O livro também pode ser encontrado por preços diferentes em livrarias.
O império da IA está disponível ainda em e-book em português. A edição digital aparece por R$ 49,90 na Kobo; o valor pode variar conforme a loja e promoções.
Até o momento, não há audiobook em português disponível pela editora brasileira. A edição original em inglês tem versão em áudio, publicada pela Penguin Audio, com duração de 17 horas e 51 minutos.
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