O rapper Macklemore, retirado da turnê de Ed Sheeran por se manifestar a favor da Palestina em um show nos EUA, anunciou nessa quinta-feira uma série de apresentações na Europa com 100% da arrecadação doada ao povo palestino.
O anúncio vem na esteira do estouro de popularidade do rapper americano: seus números em streamings e redes sociais explodiram ao mesmo tempo em que os de Ed Sheeran derretem.
Criticado por não apoiar o rapper, o cantor lida com a saída em massa de outros artistas da sua Loop Tour, perdeu quase meio milhão de seguidores e usou três minutos de um dos seus shows para pedir desculpas.
Ao mesmo tempo, Macklemore ganhou quase um milhão de seguidores nos dez dias de polêmica, segundo a empresa de monitoramento Social Blade.
Os números nas redes refletiram nas suas visualizações nas plataformas de streaming. Somente no Spotify, suas reproduções cresceram 97% em três dias, ainda de acordo com a Social Blade.
A polêmica expôs a tensão em torno da guerra em Gaza. Ele também abriu o debate sobre até que ponto um palco artístico deve ser usado para manifestações políticas e se nos dias de hoje ainda é possível se manter distante de grandes temas sociais.
Turnê pró-palestina
Nesta quinta-feira, dez dias após sua expulsão da turnê de Sheeran, Macklemore anunciou três datas de shows na Europa.
O Free Palestine Tour acontece em 26 de outubro em Dublin, 29 de outubro em Paris e 30 de outubro em Londres. O público pode comprar ingressos no site oficial dele e toda a renda será destinada a 12 organizações de apoio ao povo palestino.
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Macklemore ironizou a sua expulsão da turnê de Sheeran ao afirmar que “a agenda deu uma aliviada” . E disse que outros artistas se juntarão ao projeto, sem divulgar nomes.
Em seu anúncio, ele também reforçou o discurso de que não dá mais para ficar em cima do muro sobre a guerra.
“Ser apolítico durante um genocídio não funciona mais. As pessoas estão pedindo aos artistas que se manifestem, se eduquem e se conectem com a comunidade. Que usem o palco para algo além do entretenimento.”
A origem da polêmica
Macklemore deu declarações pró-Palestina em um show na cidade de Nova Jersey em 4 de setembro. No palco, o rapper pediu uma “Palestina livre” e disse que gostaria de espalhar essa mensagem em suas apresentações de abertura para Sheeran.
“Uma das minhas razões para fazer essa turnê foi porque eu queria subir aqui, em palcos em estádios por toda a América, e dizer duas palavras que são muito queridas para o meu coração:
‘Palestina livre’. Eu digo: ‘Palestina livre’. Quero que essas palavras sejam ouvidas em alto e bom som, para que as pessoas de Gaza até a Cisjordânia ocupada saibam que não os esquecemos.”
Dez dias depois, o rapper foi proibido de abrir os shows de Ed Sheeran por causa das falas. A princípio, a produtora Messina Touring Group confirmou a expulsão. Em seguida, Macklemore se pronunciou oficialmente.
De acordo com ele, Robert Kraft, dono do Gillette Stadium, ligou pessoalmente para Sheeran e falou que o americano não poderia se apresentar no local. Kraft, dono do New England Patriots, é um grande doador para Israel.
Solidários ao rapper, todos os artistas que abririam o show de Sheeran em outros países anunciaram sua saída da turnê, assim como a própria banda de apoio do britânico, que é irlandesa.
Em pronunciamento nas redes sociais, a banda Beoga criticou o “silenciamento de Macklemore por grupos sionistas”.
No fim, a conta saiu mais cara para Sheeran, que não pôde deixar o show parar e precisou reprogramar suas apresentações diante de tantos desfalques.
Ed Sheeran: queda de seguidores, mudança de posicionamento
O primeiro posicionamento de Ed Sheeran sobre a polêmica em torno de Macklemore foi se isentar de culpa.
Em uma publicação “de resposta” ao rapper, ele afirmou que tentou mediar conversas entre a produtora e o cantor, mas que a palavra final sobre quem ficaria na turnê não foi dele.
Sheeran também se disse “consternado com o conflito entre Israel e Palestina”, mencionou “o sofrimento causado em ambos os lados”, mas declarou que não fala sobre política no palco.
“Existe um motivo pelo qual não uso minha plataforma profissional para fazer política: meu público inclui jovens, muitas vezes crianças, de todas as origens. Quem vem aos meus shows não espera um fórum político.”
Apesar de não ser o culpado direto pela expulsão de Macklemore, a falta de ação de Sheeran diante do caso, somada à sua primeira resposta sobre o assunto não pegou bem com o público.
De acordo com um balanço da empresa Social Blade, Sheeran perdeu quase 500 mil seguidores no Instagram em dez dias de polêmica.
A presença do público nos seus shows não pareceu afetada. Apesar disso, os preços de “revenda” de seus ingressos por cambistas caíram, segundo o canal americano NBC.
Pedido de desculpas e reconhecimento de erro
Coincidentemente ou não, diante da sua queda de popularidade, a opinião de Sheeran sobre não ser político no palco mudou.
Ao abrir seu show no sábado (19), o britânico deu uma declaração de cerca de três minutos e disse que “não podia mais esconder o que sentia” a respeito da situação de Gaza.
“As críticas que recebi nesta semana foram sobre algo muito importante. Eu precisei tomar decisões difíceis. Eu estou cometendo erros e eu sinto muito.”
Sheeran se disse preocupado com o risco de “pré-aprovações” para artistas em shows e que isso não deveria acontecer “em um país livre”.
Ele disse, ainda, que nunca quis ser um artista ativista e evitou fazer comentários políticos por querer promover “união, e não divisão; humanidade, e não política”.
Ainda assim, Sheeran lamentou os horrores do 7 de outubro de 2026 e chamou a situação em Gaza e na Cisjordânia de “catastrófica”, em um comunicado lido no palco.
“Esta é uma questão humanitária. Eu não posso mais esconder como me sinto sobre ela. O que aconteceu em Israel em 7 de outubro foi horrível e agravou séculos de sofrimento judaico. O que está acontecendo em Gaza é catastrófico, injustificável e desproporcional.
Meu coração foi partido pela dimensão da devastação e pela perda de vidas civis, de vidas de crianças, e essa injustiça sistêmica que estamos vendo se desenrolar na Cisjordânia não pode ser ignorada.”
O cantor se emocionou ao agradecer ao público.
Apesar das turbulências, a turnê de Ed Sheeran segue pelos EUA e descerá o mapa em direção à América do Sul. Ele tem duas datas previstas no Nubank Park, em São Paulo: 5 de dezembro e 6 de dezembro.
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