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Camuflagem

Disfarce de panda e ‘perfume’ de urina: fotógrafa conta bastidores de série premiada sobre pandas na China

Ami Vitale passou três anos acompanhando trabalho de conservação em reserva; imagens venceram categoria do BigPicture 2026

Ami Vitale fotógrafa vestida de panda

Ami Vitale em ação em um dos centros de conservação de pandas na China (foto: reprodução YouTube Academia de Ciências da Califórnia)




Quem se encanta com o conjunto de fotos de pandas gigantes em centros de conservação na China que venceu a categoria de melhor série fotográfica do prêmio BigPicture 2026  não imagina a aventura de três anos vivida pela fotógrafa americana Ami Vitale para fazer os registros.

Experiente fotógrafa da natureza, rumo profissional que tomou depois de anos documentando conflitos pelo mundo, Vitale está acostumada a ficar longas horas esperando o melhor momento para fotografar animais e a se embrenhar por locais difíceis.

Mas para registrar os pandas gigantes as exigências foram maiores: além de diversas viagens tendo que enfrentar longas esperas em florestas de bambu com pouca luz, ela precisou usar fantasias de panda impregnadas com o cheiro dos animais para não ser vista por eles como um ser humano, assim como fazem os tratadores das reservas.

Tratador vestido de panda
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

O trabalho deu origem a Pandas Gone Wild, série vencedora da categoria Photo Story: Beyond the Photo do BigPicture, organizado pela Academia de Ciências da Califórnia.

O título faz um trocadilho com a expressão inglesa gone wild, usada para algo que “ficou selvagem”, e com a própria história registrada por Vitale: pandas criados sob cuidados humanos sendo preparados para viver de forma independente na natureza. 

Uma fotógrafa vestida de panda

Os cuidados com a adaptação dos pandas são extremos. Não bastava parecer um panda. Era preciso mascarar também o cheiro humano. Segundo Vitale, os trajes eram impregnados com urina dos animais.

O detalhe parece pouco convidativo, mas a fotógrafa diz que a experiência era menos desagradável do que parece. Como os pandas se alimentam principalmente de bambu, ela comparou o cheiro ao da planta misturado a algo parecido com um cachorro molhado.

“Quando você acorda todas as manhãs e veste uma roupa que parece uma combinação de fantasia de mascote e disfarce de assaltante de banco, sabe que está realmente vivendo a história.”

Ami Vitale fotógrafa vestida de panda
Ami Vitale em ação em um dos centros de conservação de pandas na China (foto: reprodução YouTube Academia de Ciências da Califórnia)

Veja Ami Vitale contar como fez as fotos

No vídeo que acompanha a série vencedora, Vitale relembra os bastidores do projeto e mostra imagens feitas durante os três anos em que acompanhou os centros de conservação na China.

 Horas de espera por alguns segundos

Vestir-se de panda era apenas uma das dificuldades. Fotografar um dos animais mais reconhecíveis do planeta sem repetir as imagens já vistas inúmeras vezes foi, segundo Vitale, um dos projetos mais desafiadores de sua carreira.

Em Wolong, os pandas viviam em grandes áreas cercadas, cobertas por vegetação densa. Tímidos e reclusos, podem passar   dias escondidos entre os bambus ou horas seguidas no alto das árvores.

A fotógrafa contou que muitas vezes esperava do nascer ao pôr do sol para que surgisse uma oportunidade.

Panda-gigante deitado na floresta na Província de Sichuan, China. A foto venceu na categoria Histórias em Fotos do concurso Big Picture 2026
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

Os pandas podem parecer dóceis nas imagens, mas Vitale também lembra que são animais selvagens, com dentes e garras, e que trabalhar perto deles exige cuidado.

 Três décadas tentando devolver pandas à natureza

Pesquisadores chineses trabalham há mais de três décadas em programas de reprodução, proteção de habitat e reintrodução de pandas-gigantes na natureza.

O BigPicture informa que menos de 2 mil pandas-gigantes vivem em ambiente selvagem. Nos centros acompanhados por Vitale, alguns dos animais nascidos sob cuidados humanos passam por um processo de treinamento para avaliar se conseguirão encontrar alimento, abrigo e sobreviver sem depender das pessoas.

Panda-gigante com um filhote na boca. A foto venceu na categoria Histórias em Fotos do concurso Big Picture 2026
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

Em Hetaoping, filhotes permanecem inicialmente com as mães e avançam aos poucos para ambientes mais próximos das condições encontradas fora dos centros de conservação.

Filhotes de pandas deitados em cestos de palha. A foto venceu na categoria Histórias em Fotos do concurso Big Picture 2026
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

Para serem considerados aptos à soltura, precisam demonstrar independência, capacidade de encontrar alimento e abrigo e cautela diante de outros animais — inclusive seres humanos.

Pandas gigantes deitados na grama na Província de Sichuan, China. A foto venceu na categoria Histórias em Fotos do concurso Big Picture 2026
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

Ao publicar o trabalho originalmente, ela escreveu que o panda poderia representar uma rara história de esperança em meio às notícias sobre a perda de espécies e habitats.

Pessoa com uma fantasia de panda segura um filhote nos braços, na Província de Sichuan, China. A foto venceu na categoria Histórias em Fotos do concurso Big Picture 2026
Foto: Ami Vitale / Big Picture Competition 2026

 

De guerras à conservação da natureza

Ami Vitale chegou aos pandas depois de construir boa parte da carreira em cenários muito diferentes. Fotógrafa, cineasta e escritora, ela trabalhou em mais de cem países e passou os primeiros anos documentando guerras, conflitos, pobreza e crises humanitárias.

Com o tempo, passou a concentrar o trabalho na relação entre pessoas, animais e meio ambiente. Hoje é Explorer at Large da National Geographic e fundadora da Vital Impacts, organização que usa a fotografia para apoiar projetos de conservação.

Vitale é também uma das fotógrafas mais premiadas de sua geração. Recebeu seis prêmios do World Press Photo, além do Lucie Humanitarian Award, do Daniel Pearl Award for Outstanding Reporting e de outras distinções internacionais.

Pandas Gone Wild já fazia parte dessa trajetória de reconhecimento. O projeto foi publicado pela National Geographic em 2016 e, no ano seguinte, recebeu o segundo prêmio na categoria Natureza do World Press Photo.

Em outra frente, Ami Vitale criou a Vital Impacts, organização sem fins lucrativos que usa fotografia e outras formas de narrativa visual para apoiar projetos de conservação e dar visibilidade a iniciativas de proteção da natureza.


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