Quem se encanta com o conjunto de fotos de pandas gigantes em centros de conservação na China que venceu a categoria de melhor série fotográfica do prêmio BigPicture 2026 não imagina a aventura de três anos vivida pela fotógrafa americana Ami Vitale para fazer os registros.
Experiente fotógrafa da natureza, rumo profissional que tomou depois de anos documentando conflitos pelo mundo, Vitale está acostumada a ficar longas horas esperando o melhor momento para fotografar animais e a se embrenhar por locais difíceis.
Mas para registrar os pandas gigantes as exigências foram maiores: além de diversas viagens tendo que enfrentar longas esperas em florestas de bambu com pouca luz, ela precisou usar fantasias de panda impregnadas com o cheiro dos animais para não ser vista por eles como um ser humano, assim como fazem os tratadores das reservas.

O trabalho deu origem a Pandas Gone Wild, série vencedora da categoria Photo Story: Beyond the Photo do BigPicture, organizado pela Academia de Ciências da Califórnia.
O título faz um trocadilho com a expressão inglesa gone wild, usada para algo que “ficou selvagem”, e com a própria história registrada por Vitale: pandas criados sob cuidados humanos sendo preparados para viver de forma independente na natureza.
Uma fotógrafa vestida de panda
Os cuidados com a adaptação dos pandas são extremos. Não bastava parecer um panda. Era preciso mascarar também o cheiro humano. Segundo Vitale, os trajes eram impregnados com urina dos animais.
O detalhe parece pouco convidativo, mas a fotógrafa diz que a experiência era menos desagradável do que parece. Como os pandas se alimentam principalmente de bambu, ela comparou o cheiro ao da planta misturado a algo parecido com um cachorro molhado.
“Quando você acorda todas as manhãs e veste uma roupa que parece uma combinação de fantasia de mascote e disfarce de assaltante de banco, sabe que está realmente vivendo a história.”

Veja Ami Vitale contar como fez as fotos
No vídeo que acompanha a série vencedora, Vitale relembra os bastidores do projeto e mostra imagens feitas durante os três anos em que acompanhou os centros de conservação na China.
Horas de espera por alguns segundos
Vestir-se de panda era apenas uma das dificuldades. Fotografar um dos animais mais reconhecíveis do planeta sem repetir as imagens já vistas inúmeras vezes foi, segundo Vitale, um dos projetos mais desafiadores de sua carreira.
Em Wolong, os pandas viviam em grandes áreas cercadas, cobertas por vegetação densa. Tímidos e reclusos, podem passar dias escondidos entre os bambus ou horas seguidas no alto das árvores.
A fotógrafa contou que muitas vezes esperava do nascer ao pôr do sol para que surgisse uma oportunidade.

Os pandas podem parecer dóceis nas imagens, mas Vitale também lembra que são animais selvagens, com dentes e garras, e que trabalhar perto deles exige cuidado.
Três décadas tentando devolver pandas à natureza
Pesquisadores chineses trabalham há mais de três décadas em programas de reprodução, proteção de habitat e reintrodução de pandas-gigantes na natureza.
O BigPicture informa que menos de 2 mil pandas-gigantes vivem em ambiente selvagem. Nos centros acompanhados por Vitale, alguns dos animais nascidos sob cuidados humanos passam por um processo de treinamento para avaliar se conseguirão encontrar alimento, abrigo e sobreviver sem depender das pessoas.

Em Hetaoping, filhotes permanecem inicialmente com as mães e avançam aos poucos para ambientes mais próximos das condições encontradas fora dos centros de conservação.

Para serem considerados aptos à soltura, precisam demonstrar independência, capacidade de encontrar alimento e abrigo e cautela diante de outros animais — inclusive seres humanos.

Ao publicar o trabalho originalmente, ela escreveu que o panda poderia representar uma rara história de esperança em meio às notícias sobre a perda de espécies e habitats.

De guerras à conservação da natureza
Ami Vitale chegou aos pandas depois de construir boa parte da carreira em cenários muito diferentes. Fotógrafa, cineasta e escritora, ela trabalhou em mais de cem países e passou os primeiros anos documentando guerras, conflitos, pobreza e crises humanitárias.
Com o tempo, passou a concentrar o trabalho na relação entre pessoas, animais e meio ambiente. Hoje é Explorer at Large da National Geographic e fundadora da Vital Impacts, organização que usa a fotografia para apoiar projetos de conservação.
Vitale é também uma das fotógrafas mais premiadas de sua geração. Recebeu seis prêmios do World Press Photo, além do Lucie Humanitarian Award, do Daniel Pearl Award for Outstanding Reporting e de outras distinções internacionais.
Pandas Gone Wild já fazia parte dessa trajetória de reconhecimento. O projeto foi publicado pela National Geographic em 2016 e, no ano seguinte, recebeu o segundo prêmio na categoria Natureza do World Press Photo.
Em outra frente, Ami Vitale criou a Vital Impacts, organização sem fins lucrativos que usa fotografia e outras formas de narrativa visual para apoiar projetos de conservação e dar visibilidade a iniciativas de proteção da natureza.
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