Em um mundo bem diferente do passado, em que plataformas digitais dividem espaço com veículos tradicionais e jornalistas disputam atenção com influenciadores, políticos e pessoas comuns, uma pergunta que nunca foi fácil tornou-se ainda mais difícil de responder: afinal, o que é notícia?
Um novo estudo do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, procurou responder à questão a partir de dados de seis países.
O trabalho combinou duas etapas. Primeiro, pesquisadores fizeram entrevistas aprofundadas com 40 adultos na Argentina, Noruega, Reino Unido e Estados Unidos. Esses resultados ajudaram a formular uma pesquisa online conduzida pela YouGov nos seis países, com cerca de 2 mil pessoas em cada um.
O estudo analisou os elementos usados pelo público para decidir se uma informação pode ou não ser considerada notícia: onde ela aparece, quem a produz, o assunto, o gênero e o formato, além de fatores como relevância, tempo e proximidade.
Definição de notícia se amplia sem substituir a tradicional
A principal conclusão dos pesquisadores é que novas fontes, atores, assuntos e formatos passaram a fazer parte da definição de notícia de uma parcela do público, mas sem eliminar os elementos tradicionalmente associados a ela.
Segundo o estudo, 49% dos entrevistados entendem ser notícia os temas que enquadram no que os autores chamam de “traditional core”, concentrando principalmente política e economia, cobertos por jornalistas e especialistas, publicados por veículos dedicados a notícias e apresentados em formatos como textos e vídeos mais longos.
Outros 26% aparecem na categoria “core-expanded”. Nesse grupo, os elementos anteriores permanecem, mas os limites se ampliam para incluir, por exemplo, temas como games e moda e conteúdo produzido por celebridades e influenciadores, veiculados em redes sociais, podcasts e vídeos curtos.
Essa visão expandida de notícia pode incluir ainda comentário, debate e sátira.
Entre os participantes do estudo, apenas 4% acham que notícia é apenas o que se enquadra no “‘core-expanded”. Entre as pessoas que reconhecem os elementos mais novos, 88% também mantêm os componentes centrais da definição mais tradicional, segundo o relatório.
Outros 21% não se encaixaram nessas categorias, seja por apresentarem uma combinação diferente de características, seja por não terem uma definição suficientemente clara para atender aos critérios estabelecidos pelos pesquisadores.
Fatos precisos e verificáveis aparecem como fundamento
O estudo investigou também as percepções sobre elementos factuais e interpretativos ou opinativos nas notícias.
Na pesquisa da YouGov, 65% dos entrevistados nos seis países disseram considerar essencial que uma notícia seja baseada em dados objetivos, factuais e verificáveis,
No Reino Unido, a proporção chegou a 77%, e essa característica foi considerada essencial pela maioria em todos os países pesquisados.
Apenas 10% consideraram pontos de vista pessoais e interpretação elementos essenciais para uma informação ser notícia. Por outro lado, 18% disseram achar que esses elementos podem até impedir que ela seja considerada notícia.
Ao mesmo tempo, nas entrevistas em profundidade os participantes mostraram posições menos rígidas. Alguns aceitam formas interpretativas como parte de uma notícia desde que haja uma separação clara entre fatos e opinião.
“A parte factual precisa ser apresentada de forma clara e neutra”, disse Paola, uma participante argentina de 31 anos, ao explicar que aceitava interpretação quando ficava claro onde terminavam os fatos e começava a análise.
Essa diferença também aparece quando o estudo pergunta sobre gêneros.
Reportagens baseadas em informações factuais foram reconhecidas como notícia por 80% dos entrevistados. Entrevistas chegaram a 61% e debates, a 55%. Comentários ou artigos de opinião foram considerados notícia por 48% e sátira ou humor, por 19%.
Onde estão as notícias ?
Apesar da penetração das redes sociais e agora dos chatbots de IA como canais para se informar, TVs, rádios e sites e até os jornais impressos ainda são mais reconhecidos como fontes de notícia do que as plataformas digitais.
Nos seis países, 88% disseram considerar (com certeza ou provavelmente) notícia as informações apresentadas em telejornais. O índice também foi de 88% para noticiários de rádio, 87% para sites de notícias e 85% para jornais impressos.
Em ambientes que misturam notícias com muitos outros tipos de conteúdo, a associação foi menor: 35% disseram que informações encontradas em redes sociais podem ser notícia, 33% disseram o mesmo sobre podcasts e 26%, sobre chatbots de inteligência artificial.
Segundo os pesquisadores, isso não significa que uma reportagem publicada numa rede social deixe automaticamente de ser vista como notícia. Nas entrevistas, participantes frequentemente distinguiam a plataforma da organização ou da pessoa responsável pelo conteúdo.
Alguns também relataram encontrar uma informação nas redes sociais e depois recorrer a veículos jornalísticos para confirmá-la ou obter mais detalhes, o que confirma conclusões apontadas em outras pesquisas.
Jornalistas seguem como referência, mas não são os únicos
O estudo do Instituto Reuters também perguntou de quem pode vir uma informação considerada notícia. Jornalistas, especialistas ou cientistas e políticos foram reconhecidos como fontes credenciadas por pelo menos 70% dos entrevistados.
Celebridades, pessoas comuns e criadores individuais ficaram numa faixa bem mais baixa, entre cerca de 20% e 30%.
Nas entrevistas, jornalistas apareceram como a referência mais clara de produção legítima de notícias, associados não apenas à profissão, mas também a práticas como verificação, responsabilidade e vínculos com organizações jornalísticas.
Mas os pesquisadores encontraram situações em que esses limites são menos claros. Alguns participantes consideram notícia informações produzidas por pessoas sem vínculo com organizações jornalísticas quando perceberam sinais de conhecimento, fontes, verificação ou outras práticas associadas ao jornalismo.
Política e economia quase não geram dúvida; moda e games dividem opiniões
O assunto também pesa na classificação.
Informações sobre conflitos militares e economia foram consideradas notícia por 91% dos entrevistados. Política apareceu com 90% e mudanças climáticas, com 81%. Esportes ficaram numa posição intermediária, com 69%.
Já entretenimento e celebridades foram classificados como notícia por 38%; moda, por 23%; e games, por 20%.
Os pesquisadores alertam que o assunto, sozinho, não determina se algo será percebido como notícia. Nas entrevistas, eles identificaram que conteúdo sobre política, por exemplo, pode deixar de ser visto dessa forma quando os participantes as consideravam apenas ataques pessoais ou provocações sem objetivo informativo.
Da mesma maneira, acontecimentos ligados a temas considerados periféricos podiam ganhar caráter de notícia dependendo de sua relevância ou impacto.
Jovens ampliam as fronteiras do que consideram notícia
As diferenças entre gerações aparecem principalmente nos elementos que ficam além da definição mais tradicional.
Segundo o relatório, pessoas de diferentes idades têm probabilidade semelhante de incluir temas, fontes, atores, gêneros e formatos tradicionais em sua definição de notícia. Os mais jovens, porém, tendem a acrescentar outros elementos.
Entre pessoas de 18 a 24 anos, 53% disseram que informações encontradas em redes sociais podem ser notícia, uma taxa bem mais alta do que os 23% entre pessoas com 55 anos ou mais. Nos podcasts, a diferença foi de 40% para 27%; nos chatbots de inteligência artificial, de 30% para 22%.
As diferenças também aparecem nos assuntos. Entre os mais jovens, 52% apontam entretenimento e celebridades como notícia, 35% fizeram o mesmo com moda e 32% com games. Entre os entrevistados com 55 anos ou mais, os percentuais foram de 31%, 20% e 11%, respectivamente.
Política, economia e conflitos, por outro lado, permaneceram fortemente associados a notícia em todas as faixas etárias.
Ser notícia não significa necessariamente despertar interesse
O relatório também faz uma distinção entre reconhecer uma informação como notícia e querer consumi-la.
Segundo os pesquisadores, conteúdos situados no centro da definição tradicional podem ser evitados quando parecem repetitivos, negativos ou distantes da vida cotidiana.
Já formatos explicativos, conversacionais ou conduzidos por criadores podem tornar o acesso à informação mais atraente para algumas pessoas, mesmo quando esses conteúdos não se enquadram inteiramente no que elas próprias classificam como notícia.
Para os autores, as mudanças no ambiente digital não apagaram uma compreensão compartilhada do que é notícia. Elas acrescentaram novas possibilidades a uma base que permanece reconhecível para grande parte do público.
O relatório conclui que os ambientes digitais tornaram mais complexa uma discussão que não é nova.
Com a multiplicação de produtores de conteúdo, formatos e fontes, características que antes apareciam com frequência juntas no jornalismo profissional- como supervisão editorial, base factual e formatos tradicionais — podem hoje surgir separadamente, ampliando a percepção do que é de fato notícia.






