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Cinema documental

Ameaças contra diretores israelenses e recorde de bilheteria: NAZA expõe assassinatos deliberados de palestinos em Gaza

Produção ganhou prêmio especial do júri no Festival de Cinema de Veneza e, desde então, tem sido assunto recorrente em Israel, com diretores ameaçados e até mesmo fontes perseguidas pelo governo

dois homens conversando com cidade ao fundo, cena do documentário NAZA

NAZA foi filmado em em um telhado em Tel Aviv (foto: divulgação)




Estreando oficialmente nesta quinta-feira (1º) nos cinemas brasileiros, o documentário NAZA, que fala sobre o assassinato deliberado de palestinos por parte de Israel, tem causado repercussão mundial desde que foi ovacionado por 25 minutos e ganhou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Veneza.

Dirigido por israelenses, o filme tem um ponto de vista pouco ilustrado em produções do tema: ele fala diretamente com membros do Exército e da inteligência do governo de Benjamin Netanyahu.

Essa visão alternativa levou para dentro de Israel o debate sobre o que o país tem feito na Faixa de Gaza desde 2023. Esse debate, por sua vez, gerou ameaças de retirada de cidadania dos diretores, perseguições e repúdio internacional por uma alegada “ditadura” israelense.

O assunto também coloca novamente em evidência o papel de Israel na morte de dezenas de jornalistas – em sua maioria palestinos – desde o começo da guerra.

A curiosidade em torno do documentário, inflamada pelas declarações de Netanyahu, deixou a produção em primeiro lugar na Itália e promete bons números para ao menos 50 outros países.

Sobre o filme

O documentário NAZA tem cerca de 80 minutos e foi gravado em um telhado de Tel Aviv. Ele traz entrevistas com 24 militares e agentes de inteligência israelenses.

Todos os ouvidos falam sob anonimato e explicam seus papéis nos sistemas de mira com inteligência artificial usados para bombardear Gaza após os ataques de 7 de outubro de 2023.

Na teoria, todos têm “papéis pequenos” no Exército, mas formam elos importantes na cadeia de assassinatos cometidos no enclave. Desde 7 de outubro de 2023, as ações militares israelenses na região deixaram mais de 76 mortos, incluindo dezenas de jornalistas.

O assassinato sistemático de pessoas inocentes é o cerne do documentário. O nome “NAZA”, inclusive, é uma sigla usada pela inteligência israelense para indicar quantos civis eles calculam que morram em um ataque aéreo no enclave.

Segundo o jornal inglês The Guardian, que atuou como produtor do filme, uma das fontes afirma, durante o documentário, que o governo autorizou a morte de 500 “NAZAS” para cada membro do Hamas assassinado.

A produção é dirigida por Rachel Szor e Yuval Abraham, dupla de cineastas da classe média israelense, que ganharam o Oscar de 2024 pelo documentário “No Other Land”. O filme de 2024 fala sobre os esforços de palestinos para combater um plano israelense de demolição de aldeias na Cisjordânia.

Exibição no Brasil

No Brasil, o filme é distribuído pela Vitrine Filmes e teve pré-estreia em seis capitais: Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Ele também tem programação para exibição em Fortaleza, Florianópolis e Poços de Caldas, em cinemas de rua, na programação do Instituto Moreira Salles, dos Espaços Petrobrás de Cinema e na programação do Cine Sesc.

Recorde em Veneza e audiência maior do que Vingadores

Além de ganhar o prêmio especial do júri no Festival de Cinema de Veneza, a produção foi aplaudida de pé por 25 minutos, um recorde no festival.

Foi o momento em que a chave virou para o documentário: as críticas detalhando o tom avassalador do filme se somaram à reação negativa de Israel e acabaram atraindo a curiosidade de muitos.

Na Itália, em apenas dois dias de exibição, a produção arrecadou mais de um milhão de euros. O valor superou o relançamento de Vingadores: Ultimato: Uma Nova Aventura, que arrecadou 356 mil euros no mesmo período.

O sucesso foi tanto que a exibição do filme, que a princípio só iria até o dia 30, foi adiada em algumas salas de cinema.

Nos Estados Unidos, o filme entrou em cartaz nesta quarta-feira (30), exclusivamente no IFV Center, em Nova York.

Após a sua estreia no Festival de Veneza, NAZA vai passar por outras premiações internacionais, como no Festival de Cinema de Nova York, e será exibido em cinemas de 55 países – incluindo o Brasil – neste mês.

Em Israel, o filme teve sua veiculação proibida e, por isso, o jornal britânico The Guardian, um dos produtores do documentário, anunciou sua exibição gratuita a partir de novembro. O filme estará disponível no site do The Guardian no final do mês, segundo o jornal.

De acordo com o The Guardian, a exibição é “parte do compromisso da organização com a disseminação do jornalismo independente”.

Ameaça a diretores

O tema de NAZA é naturalmente tratado na defensiva pelas autoridades israelenses, mas o fato de que os diretores do documentário são de Israel aumentou o frisson – e a reação governamental – em torno da produção.

Mesmo antes do longo aplauso em Veneza, o ministro da Cultura israelense, Miki Zohar, foi a público acusar os diretores de traição ao Estado e pedir a revogação da cidadania deles.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez coro ao pedido e disse que agilizaria dois projetos de lei para reprimir Rachel Szor e Yuval Abraham.

O primeiro projeto dobra o valor das multas em ações por difamação contra o governo. Já o segundo estipula a revogação de cidadania de qualquer israelense que difame soldados do país ou o estado de Israel.

“Vamos atingi-los tanto no bolso quanto na cidadania, pois o lugar deles não é conosco.”, afirmou Netanyahu. O premiê disse, ainda, que o filme faz parte de uma “onda de incitação antissemita”.

Perseguição nas redes e ao vivo

Além das ameaças institucionais, os diretores viraram alvo de comentaristas de direita e simpatizantes do governo Netanyahu. Eles não voltaram ao país desde que o filme estourou, mas isso não impediu que seus familiares fossem vítimas de perseguição.

Menos de uma semana após a estreia do documentário em Veneza, dezenas de ativistas se reuníram na frente da casa dos pais de Rachel Szor.

A mobilização aconteceu nas redes sociais e algumas das mensagens nesses grupos tinham “apelos explícitos de violência”, de acordo com o jornal Haaretz.

Outro influenciador publicou uma foto da mãe de Abraham e incitou que seus seguidores “mostrassem a eles o que são ‘danos colaterais'”.

O comentarista Yehuda Schlesinger, do Canal 14, também pediu a “perseguição e caça” dos diretores. Já na cidade de Asdode, um mural com os rostos dos diretores pintados como detentos apareceu com os dizeres “traidores”.

Fontes também estão na mira

Os diretores do documentário não foram os únicos sob ameaça de punição do governo de Israel. Seguindo os passos dos Estados Unidos, Israel lançou uma caça às fontes dentro do Exército com a desculpa de proteger a segurança nacional.

O chefe do Estado-Maior do país, Eyal Zamir, ordenou a abertura de uma investigação judicial para localizar os militares que falaram sob anonimato no documentário. Segundo o canal israelense i24, o Exército pediu ajuda do Shin Bet, serviço de inteligência israelense, para investigar a origem das informações.

Já o ministro da Cultura afirmou que pediu uma investigação sobre como os documentaristas obtiveram os materiais. De acordo com eles, há risco de que a produção configure o crime de “auxílio ao inimigo em tempo de guerra”.

Manifestantes também invadiram dois jornais locais que publicaram os trabalhos de Yuval Abraham, de acordo com a organização Pen International.

Reação nacional e internacional

Dentro de Israel, uma mobilização de 43 organizações saiu em defesa dos diretores. Eles pediram que as autoridades parassem a “incitação e as ameaças” contra os cineastas e suas fontes.

“A resposta institucional ao filme e as ameaças contra seus criadores são características de regimes ditatoriais”, afirmaram, em nota.

Mais de mil diretores israelenses também assinaram uma petição coletiva defendendo a liberdade de expressão, um movimento que também aconteceu internacionalmente.

Entre os nomes de alcance mundial que se manifestaram a favor dos cineastas está Laura Poitras. Ela venceu em 2015 o Oscar de melhor documentário pelo filme Citizenfour, que conta a história de Edward Snowden.

Um manifesto assinado por órgãos como Repórteres Sem Fronteiras, Comitê para Proteção dos Jornalistas, Freedom of The Press Foundation e Instituto Internacional de Imprensa também falou sobre o caso, acusando Israel de uma “campanha de intimidação” contra os documentaristas.

“Os incidentes apontam para uma escalada alarmante das ameaças públicas e intimidação para ações tendo os documentaristas, os familiares deles e jornalistas que falam dos seus trabalhos como alvo.”

Eles afirmam que este não é um caso isolado e lembram que Israel comete o mesmo padrão de hostilidade contra jornalistas, especialmente contra os palestinos. No ano passado, o país liderou a matança de repórteres no mundo, sendo responsável pela morte de 86 das 129 vítimas daquele ano.

Neste ano, os poucos meses de ataques coordenados ao Líbano também deixaram Israel na liderança das mortes de jornalistas no mundo. Uma das vítimas, Amal Khalil, ficou viva por cerca de duas horas e meia, mas não recebeu socorro porque forças israelenses atacaram equipes de resgate que tentavam chegar até ela.

“Medo de não poder voltar”

Uma semana após a premiação do documentário em Veneza, Yuval Abraham falou ao canal 13, de Israel, sobre as reações ao filme. Ele disse que sente falta de casa, mas relatou ataques virtuais contra ele e a sua família.

“Apaguei os aplicativos de redes sociais ontem, porque em todos os momentos que olhava eu via fotos minhas, fotos da minha mãe, nos atacando. É claro que é difícil. Este país é minha casa. É o país em que eu quero morar, um lugar importante para mim. Claro que tenho medo de não poder voltar.”

Em entrevista ao jornal israelense Haaretz, Rachel Szor disse que não esperava uma repercussão do tipo. Apesar disso, ela comemorou que, pela primeira vez, uma discussão sobre o que acontece em Gaza entrou na sociedade israelense.

Semanas antes de toda a repercussão, Szor tinha falado ao jornal The Guardian que muitos dos seus familiares não aceitavam o seu trabalho. “Depois do Oscar eles ficaram muito envergonhados, muito irritados. Mas este é um pequeno preço a pagar”, afirmou.

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