A Califórnia criou um incentivo financeiro à imprensa para ajudar veículos que fazem cobertura local em suas comunidades a manterem e ampliarem suas redações, a fim de reverter a tendência de formação dos chamados ”desertos de notícias”.
A nova lei, sancionada pelo governador Gavin Newsom na quarta-feira, prevê créditos tributários reembolsáveis para veículos de imprensa de acordo com o número de jornalistas empregados no estado.
A AB 2222, começa a valer em 2027 e terá duração inicial de cinco anos, até o fim de 2031.
Poderão participar veículos impressos, digitais, de rádio e televisão e organizações jornalísticas sem fins lucrativos que produzam conteúdo original e cumpram critérios editoriais previstos na legislação.
Ao assinar a legislação, Newson afirmou que uma imprensa livre não deve deixar o governo confortável, e sim fazer cobranças. O Democrata é um potencial candidato à sucessão de Donald Trump.
I’m signing legislation to strengthen independent journalism and help qualifying local news organizations hire and retain journalists in California.
A free press isn’t supposed to make government comfortable, it’s supposed to make government accountable. pic.twitter.com/MdQpmzyALl
— Governor Gavin Newsom (@CAgovernor) September 30, 2026
Quanto os veículos podem receber
Os veículos poderão receber US$ 20 mil por jornalista em tempo integral para os cinco primeiros profissionais e US$ 15 mil por cada jornalista adicional. Profissionais de meio período darão direito a um crédito de US$ 7.500.
A lei também prevê um incentivo extra de US$ 15 mil para cada nova vaga em tempo integral. Com isso, uma nova contratação poderá gerar até US$ 35 mil em créditos no primeiro ano.
Como o crédito é reembolsável, o benefício não fica limitado ao valor dos impostos devidos pela organização. Isso permite que também sejam atendidos veículos sem fins lucrativos, uma parcela crescente do jornalismo local americano.
Desertos de notícias e perda de redações
A iniciativa tenta responder ao encolhimento prolongado da imprensa local. Segundo o CalMatters, uma em cada três redações da Califórnia desapareceu desde 2005.
O problema faz parte de uma crise mais ampla nos Estados Unidos, onde o fechamento de jornais e a redução das equipes vêm ampliando os chamados “desertos de notícias” — regiões com pouca ou nenhuma cobertura jornalística local.
Um levantamento da Medill School of Journalism mostrou que 40% dos jornais americanos desapareceram em duas décadas e cerca de 50 milhões de pessoas vivem em áreas com acesso muito limitado a notícias locais.
A ausência de veículos locais também tem sido associada a maior vulnerabilidade à desinformação, já que comunidades passam a depender mais de redes sociais, páginas informais e outras fontes que não seguem necessariamente processos jornalísticos de apuração e correção.
Newsom sanciona lei, mas aponta falhas
Ao assinar a medida, Newsom afirmou que a perda do jornalismo local enfraquece a fiscalização de escolas, prefeituras, tribunais e outros órgãos públicos. Mas o próprio governador registrou ressalvas e defendeu mudanças futuras na legislação.
Em sua mensagem de sanção, ele apontou a ausência de um limite para o custo total do programa e afirmou que o modelo, como foi aprovado, pode acabar beneficiando grandes organizações que não precisariam de apoio público, inclusive veículos controlados por fundos de investimento e bilionários.
A legislação exige ainda que os participantes adotem padrões editoriais, como uma política pública de correções e esclarecimentos, e exclui organizações controladas por partidos políticos e determinadas entidades de atuação política.
Leia também | Jornalismo local em crise nos EUA: 40% dos jornais sumiram em 20 anos e audiência digital também encolheu
Leia também | World News Day 2026 alerta para o desafio de reconhecer jornalismo confiável na era da IA
Leia também | Imprensa enfrenta violência, perseguição e ameaça existencial da IA — e, apesar disso, ainda estamos aqui






