O mais novo livro da jornalista filipina vencedora do Nobel da Paz em 2021, Maria Ressa, é mais do que um relato de memórias, consistindo em um sinal de alerta para o flagelo da desinformação nas redes sociais e seus efeitos sobre o jornalismo.
À frente do site de notícias que co-fundou, o Rappler, Maria Ressa denunciou corrupção, prevaricação e crimes contra os direitos humanos cometidos no regime filipino e foi reconhecida com o Nobel ao lado do editor russo Dmitry Muratov, com quem dividiu o prêmio.
Um ano depois da homenagem, Ressa lançou ‘How to Stand Up to a Dictator: The Fight for Our Future’ ou ‘Como enfrentar um ditador: a luta pelo nosso futuro’, que na edição brasileira foi prefaciado pela jornalista Patrícia Campos Mello, alvo de diversos processos movidos pela família do ex-presidente Jair Bolsonaro e de ataques online e offline.
Uma onda de perseguições
“O que você está disposto a sacrificar pela verdade?” foi a questão que encorajou a jornalista Nobel da Paz Maria Ressa e a equipe de profissionais de seu jornal digital, o Rappler, a enfrentar processos judiciais e mandados de prisão movidos pelo ex-presidente filipino Rodrigo Duterte.
Parte memorialístico, parte um manifesto, “Como Enfrentar um Ditador” relaciona a história de Maria Ressa às denúncias que sua equipe de jornalistas fez contra o governo de Rodrigo Duterte, às ameaças de morte e aos sucessivos mandados de prisão que recebeu.
Ela conta sobre sua infância nas Filipinas, a adolescência nos Estados Unidos e a decisão de trabalhar na recém-restaurada democracia em seu país natal.
O leitor encontrará o relato sobre uma criança tímida que lutou para fazer a transição para o estilo de vida norte-americano, teve uma carreira de sucesso como jornalista de televisão, se reinventou lançando o site de notícias investigativas Rappler e manteve a coragem contra ameaças à sua equipe de jornalismo.
A jornalista se tornaria, a partir de então, apenas um dos alvos da repressão, do assédio e da injustiça do regime filipino de Rodrigo Duterte.
Em janeiro, Maria Ressa foi inocentada em processos por supostos crimes financeiros e fiscais, mas ainda corre o risco de prisão caso seja condenada em outra acusação, de difamação cibernética.
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Um manifesto contra a desinformação que afeta a sociedade e o jornalismo
Em seu livro, Ressa explica como um país em desenvolvimento no Sudeste Asiático foi alvo de uma tática sistemática empregada para destruir fatos e corromper o ecossistema de informações a fim de tomar o lugar do jornalismo e influenciar as pessoas em suas decisões.
Na cerimônia do Nobel da Paz de 2021, ela disse em seu discurso de premiação:
“O Facebook é o maior distribuidor de notícias do mundo e, no entanto, estudos mostram que mentiras misturadas com raiva e ódio se espalham mais rápido e mais longe do que os fatos nas redes sociais”
No cerne do livro de Ressa, está o exame da malignidade das redes sociais e de como elas foram coniventes com a manipulação pública criada pelo governo de Rodrigo Duterte.
Em entrevista ao programa Roda Viva que foi ao ar no dia 31 de janeiro, a jornalista disse que o Nobel da Paz foi um prêmio para todos os jornalistas que particularmente na última década foram vítimas de assédio e crime, dando mais energia e coragem para continuar informando o público e alertando para a manipulação feita pela mesma tecnologia que une as pessoas.
Está no ar o #RodaViva com a jornalista e escritora filipina Maria Ressa! (@mariaressa)
Ela foi uma das ganhadoras do Nobel da Paz em 2021 e conta qual a importância do prêmio para a defesa da liberdade de imprensa.
“Nos dá mais energia, esperança e coragem.” pic.twitter.com/b4lzlHkqbG
— Roda Viva (@rodaviva) January 31, 2023
Algumas repercussões
O livro foi publicado originalmente pela editora de língua inglesa HarperCollins Publishers e ganhou críticas positiva pelo mundo.
“O livro de Ressa é um grito de guerra para proteger o progresso liberal, que está em perigo de destruição.” The Guardian.
“O que marca o relato de Ressa é que é um olhar de um jornalista praticante, um relato de dentro.” The Hindu.
“Para mim, um dos maiores valores do livro é fornecer um relato em primeira pessoa de como um regime autoritário arma a mídia social para tentar prejudicar a liberdade de imprensa e desmantelar a democracia. É uma das grandes histórias do nosso tempo.” NPR.
Onde comprar
O livro de Maria Ressa foi publicado em português pela Companhia das Letras, com tradução de Débora Landsberg, Denise Bottmann e Isa Mara Lando.
Está à venda no site da editora (versão física por R$ 74,90) ou em marketplaces como Amazon, Americanas e Mercado Livre. O livro está disponível na versão física e em e-book.
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