Londres – Na primeira entrevista coletiva do ano sobre a Covid-19 no Reino Unido, em 4/1, as fake news sobre o coronavírus e o ativismo antivacina foram destaque na fala da principal autoridade médica do país, Chris Whitty. Ele implorou para que as pessoas não dessem crédito a teorias conspiratórias no país que bateria no sábado a marca de 150 mil mortes pela doença. 

Dias depois, o campeão mundial de tênis, Novak Djokovic, criou uma crise planetária que virou briga diplomática ao ter sua entrada na Austrália negada por não ter se vacinado – e dando ainda mais combustível aos que condenam a imunização publicamente. 

O sérvio virou herói dos que não querem se vacinar e resolveu encarar a briga com o governo australiano para reverter o veto, com base na autorização que as autoridades sanitárias tinham dado a ele em dezembro. 

A influência dos famosos antivacina

Tendo ou não razão do ponto de vista judicial, o ato de Djokovic é um golpe para autoridades de saúde que tentam a todo custo aumentar a cobertura da vacina para reduzir mortes e internações. 

O tenista não é o único a assumir publicamente sua posição e influenciar a sociedade. Artistas como Eric Clapton e governantes como o presidente Jair Bolsonaro engrossam as fileiras de celebridades e personalidades que adotaram a narrativa antivacina. 

E isso acontece sem qualquer consequência, o que ajuda a criar novos “heróis” para os que duvidam da eficácia ou segurança.

O movimento é perigoso, pois não se resume apenas a discursos ou postagens em redes sociais. 

Na Grã-Bretanha, o inimigo público número um da saúde pública é uma figura que há alguns anos parecia só exótica, mas se tornou perigosa inclusive fisicamente.

Piers Corbyn, de 74 anos, é irmão de Jeremy Corbyn, parlamentar de Islington, reduto de intelectuais e moderninhos de Londres, que liderou o Partido Trabalhista por cinco anos e teve reais chances de se tornar primeiro-ministro.

Ativismo antivacina desabou para violência 

 O irmão radical criava constrangimentos, mas nada comparável ao que acontece agora. 

Ele virou protagonista nas manifestações contra medidas de controle da Covid e fala o tempo todo nas redes sociais contra máscara, distanciamento e vacinas.

Sem receber punição ou ter contas canceladas, ganhou mais seguidores e se entusiasmou, rumando para a violência.

Antes do ano novo, com o país assustado pelo risco de restrições mais severas diante do avanço da ômicron e o governo fazendo de tudo para que as pessoas tomassem a vacina, liderou uma invasão a um centro de saúde.

Colocou em risco a integridade dos profissionais que lá trabalhavam e dos que tinham ido se imunizar. O Secretário Nacional de Saúde protestou no Twitter, chamando o comportamento de inaceitável, mas ficou por isso mesmo. 

Em outro ato tresloucado, entrou na movimentada estação London Bridge de cara limpa, empunhando um cartaz que dizia “máscaras não podem impedir a transmissão” e desafiando o regulamento que impede viajar em transporte público sem proteção.

O canto entoado por ele e seus seguidores dentro do metrô  é tão absurdo que virou piada: usar máscara seria tão inútil para conter o vírus como tentar prender gases intestinais dentro das calças.

Antivacina e ‘anti-tudo-isso-que-está-aí’ 

Piers Corbyn chegou a ser detido pela Scotland Yard, a polícia metropolitana de Londres,  por sugerir que escritórios de parlamentares que votassem a favor de restrições a atividades sociais ou comerciais  fossem incendiados, sob o argumento de que “é preciso mais atenção física”.

Em um discurso veiculado nas redes, ele diz claramente que precisam de um martelo para matar “a escória que decidiu ir em frente introduzindo novo facismo”.

Pode parecer pitoresco. Mas em tempos de redes sociais, os danos causados por esse tipo de comportamento são imensuráveis. 

Nos comentários no Twitter, muitos lembraram o assassinato do parlamentar David Amess, em outubro, esfaqueado por um jovem que aparentemente foi influenciado pelas redes sociais. 

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Quem ganha com o movimento antivacina

Não se pode afirmar quantas pessoas deixam de se vacinar ou se rebelam contra as máscaras por influência de gente assim. Em Londres, é comum encontrar gente sem máscara em lojas, supermercados e no transporte, embora elas sejam obrigatórias nesses locais. 

O número de seguidores dos antivacina como Piers Corbyn nas redes sociais e de compartilhamentos das bravatas é um sinal de que há plateia.

E nada disso é gratuito. Estudos diversos de organizações preocupadas com as teorias conspiratórias relacionadas ao coronavírus mostram que na maioria dos casos, há algum interesse envolvido, seja financeiro ou político. 

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No caso de Piers Corbyn, ele se anunciou candidato à prefeitura de Londres, um cargo cobiçado que eleva o perfil de qualquer político.

O primeiro-ministro Boris Johnson é o maior exemplo. Manejando bem a visibilidade de prefeito da cidade, ganhou exposição nacional e internacional e se credenciou a concorrer ao cargo máximo do país.  

Na passagem do ano, o ativista antivacina Corbyn desafiou o conselho das autoridades para evitar aglomerações, diante de quase 200 mil novos casos de Covid por dia, e liderou uma festança às margens do Tâmisa, com direito a espetáculo de cuspir fogo. 

O vídeo foi compartilhado em várias contas de mídia social. Uma delas é a conta de sua campanha política, Corbyn 4 London. Nome que aliás se confunde com o de seu irmão, que mesmo não agradando a todos, é um político sério. 

Na mensagem, ele diz que aprendeu a cuspir fogo em ocupações ilegais. E que fez isso em manifestações de apoio a greves de funcionários de minas em 1984, que “assim como nós atualmente, foram atacados pelas mentiras da mídia”. 

Piers Corbyn não é o único

O mais impressionante é que, mesmo afrontando o consenso científico e a lei vigente, Piers Corbyn continua firme nas redes e nas ruas.

Mesmo que fosse expulso, atos negacionistas promovendo violência liderados por ele são compartilhadas por simpatizantes, lembrando um queijo suíço cheio de buracos.

A situação de Novak Djokovic é diferente. Ele não prega abertamente a aversão à vacina, mas ao declarar que não se imunizou, vira referência e argumento. 

Algumas iniciativas de controle até são ensaiadas pelas plataformas, mas de maneira tímida.

Nos EUA, a parlamentar Marjorie Taylor Greene, expoente do Partido Conservador, foi expulsa do Twitter e suspensa por 24 horas do Facebook no início da semana por um post contendo inverdades sobre a Covid.

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Em vários países europeus, a violência dos protestos contra isolamento social, máscaras e vacina virou rotina.

Vacina contra o ativismo antivacina

As plataformas digitais não encontraram ainda uma forma de conter narrativas que se espalham por uma infinidade de contas, embora alguns grupos de pressão afirmem que existe tecnologia para isso.

Bloquear algumas contas dá satisfação à sociedade, mas não resolve.

A imprensa fica diante de um dilema: noticiar ou não as maluquices que vendem jornais e geram cliques. É necessário informar, mas isso pode ter o efeito colateral de influenciar pessoas vulneráveis, que por meio de matérias sérias acabam expostas a teorias sem fundamento e ilegais.

O espaço dado a Piers Corbyn por alguns veículos britânicos virou objeto de críticas.

Para a polícia, o dilema é o direito à livre expressão e manifestação. Críticos da censura defendem que pessoas como Corbyn têm o direito de falar o que quiserem. A polícia pisa em ovos. 

Entretanto, no caso do ativista britânico, ele já passou dos limites ao pedir a morte de parlamentares ou desafiar a lei que proíbe andar de metrô sem máscara. E ainda arrancar os avisos de uso de máscara, como fez em julho passado. 

No terceiro ano da Covid, controlar o negacionismo e o ativismo antivacina pode ser mais importante do que pesquisar novos tratamentos.

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