Erros de cadastro e acesso marcaram a primeira semana da Truth Social, rede social criada pelo ex-presidente Donald Trump , lançada oficialmente em 21 de fevereiro. Mas os deslizes tecnológicos que ofuscaram a estreia da Truth Social não são seu único problema.

A organização Repórteres Sem Fronteiras publicou um posicionamento apontando que a plataforma criada por Trump pretende claramente servir a uma posição política e, portanto, requer atenção do governo e da imprensa dos EUA.

E uma empresa de painéis solares britânica chamada Trailar acusou a Truth Social de copiar sua logomarca tão logo o aplicativo ficou disponível na Apple Store. Os dois logotipos usam blocos formando a letra T.  

Inspirações visuais da rede de Trump 

Anunciada em outubro, a plataforma é descrita como livre de “discriminação contra ideologia política” e quer ser uma alternativa às grandes big techs, como Facebook e Twitter, para os conservadores.

A aparência é bem semelhante à do Twitter, e o mecanismo também. Os usuários podem publicar e compartilhar “uma verdade” (truth), palavra usada como um sinônimo para “um tweet”. 

O Twitter não parece estar se importando com isso, mas a Trailar pode não deixar barato o que julga ser uma imitação de seu logotipo.

Um porta-voz da empresa disse ao jornal The Independent que a empresa estava “buscando aconselhamento jurídico para entender os próximos passos e opções disponíveis para proteger a marca”.

E fez questão de se dissociar do empreendimento de Donald Trump, afirmando que ” a Trailar não tem afiliação ou conexão com o site da rede Truth Social, com nossos negócios firmemente focados na descarbonização do transporte global por meio do uso de tecnologias solares e orientadas a dados”. 

Muitos usuários das redes sociais postaram imagens comparando as duas marcas e ironizando a semelhança (a da Truth Social é a da direita).

Truth Social teve estreia adiantada no Presidents’ Day

A Truth Social está a cargo de uma nova empresa de mídia criada por Trump, a Trump Media & Technology Group (TMTG), comandada pelo ex-congressista republicano Devin Nunes, que se tornou CEO da companhia no início do ano.

Depois de muitos adiamentos, Nunes havia sinalizado que a plataforma deveria chegar para os americanos somente em março. No entanto, a previsão foi antecipada em ao menos três semanas — e, coincidência ou não, a estreia da Truth Social aconteceu no Presidents’ Day.

O feriado é celebrado nos Estados Unidos na terceira segunda-feira de fevereiro, em homenagem a George Washington, o primeiro presidente do país. 

O lançamento adiantado pode ser uma das justificativas para os diversos erros relatos pelos usuários nos primeiros dias de Truth Social.

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Usuários relataram erros e fila virtual para cadastro

A Truth Social ficou disponível para alguns usuários dos EUA em fase de testes há duas semanas. Dias depois o aplicativo passou a ser oferecido na Apple Store. Ainda não há previsão para lançamento em outros países.

Segundo reportagem do jornal The Guardian, o app rapidamente se tornou um dos mais baixados na categoria de redes sociais gratuitas. Porém, mesmo com a popularidade, sua estreia foi marcada por vários erros de desenvolvimento.

Os primeiros usuários relataram mensagens de erro ao tentarem criar suas contas. Muitos dos que conseguiram se registrar não conseguiram entrar no aplicativo, sendo informados de que foram colocados em uma lista de espera com 600 mil pessoas.

Outros relataram que a página de “termos de serviço” do aplicativo estava inativa e a empresa confirmou que, na segunda-feira, sofreu uma interrupção parcial de 13 horas relacionada ao “tráfego de lançamento do aplicativo”.

À imprensa, Nunes disse que o aplicativo da Truth Social estará “totalmente operacional” nos EUA até o final de março.

Mas especialistas ouvidos pelo Guardian e a ONG Repórter Sem Fronteiras (RSF) alertam que o novo empreendimento de Trump terá uma batalha difícil para atrair usuários, além de necessitar de regulamentação sobre o tipo de conteúdo veiculado.

Sem neutralidade, rede social é ‘filtro da bolha’ conservadora

A Repórteres Sem Fronteiras afirma que todas as plataformas online e mídias sociais devem ser obrigadas a observar a neutralidade política, ideológica e religiosa, conforme definido na Parceria Internacional sobre Informação e Democracia, criada a partir de uma iniciativa da RSF em conjunto com governos de 45 países.

Todos devem ser livres para dizer o que quiserem na arena pública online, mas a arquitetura dela deve ser livre de preconceitos. Este é um pré-requisito essencial para uma arena de informação democrática.

A RSF destaca que a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores de Trump foi marcada na rede social conservadora Parler, serviço fundado por um aliado do ex-presidente.

Isso mostra que alimentar os cidadãos com notícias e informações ideologicamente tendenciosas representa um sério perigo para a democracia.

E é isso que Trump pretende fomentar com a Truth Social, alerta a entidade.

No anúncio do lançamento da plataforma, a TMTG declarou que o objetivo era “criar um rival para o consórcio de mídia liberal – “liberal” aqui significando “partido pró-democrático” – e enfrentar as big techs que “usaram seu poder unilateral para silenciar vozes opostas na América”.

“Esta é uma tendência que temos visto ultimamente”, disse Vincent Berthier, especialista em tecnologia da RSF. “Esse tipo de plataforma oferece aos internautas a possibilidade de ingressar em uma comunidade homogênea de pessoas que pensam como eles.”

“As declarações da Truth Social apresentam Donald Trump como a grande atração da comunidade, o que dá uma indicação muito clara do tom das informações que vão circular por lá.

Na verdade, há uma probabilidade muito alta de que servirá como um ‘filtro de bolha’ social”, avaliou Berthier.

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Trump prometeu que a nova rede será uma “experiência atraente e sem censura”, o que quer dizer sem moderação, com liberdade para muitos que se viram banidos das plataformas tradicionais por discurso de ódio ou teorias conspiratórias. 

O próprio Trump perdeu suas contas nas redes, incluindo Twitter e Facebook, logo depois da invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado.

Os usuários da rede social de Trump receberão notificações quando forem mencionados e quando tiverem um novo seguidor, além de poderem contar com mensagens instantâneas dentro do aplicativo em um futuro próximo.

A TMTG disse que ofereceria também um serviço de vídeo por assinatura chamado TMTG+, que contará com programação de entretenimento, notícias e podcasts.

Mas nem tudo são flores no caminho. A Truth Social pode encarar dificuldades com a licença de software e com as lojas de aplicativos, que tornaram mais rigorosas as políticas relacionadas a apps com conteúdo ilegal ou controverso. 

Em 2021, a rede social Parler, um “app” que promovia a liberdade de expressão com a mesma linha que a Truth Social pretende e que era muito popular entre os conservadores, foi temporariamente suspenso da App Store.

A rede foi também despejada do serviço de hospedagem do Google, e ficou fora do ar várias semanas até achar um pequeno provedor da Califórnia que aceitou abrigá-la. 

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O presidente Donald Trump não foi o primeiro a usar redes sociais para se comunicar diretamente com o público. Mas ele fez isso numa escala gigante, governando a maior potência global via Twitter. 

E usando a rede social para atacar inimigos, insuflar seguidores e minar a confiança na imprensa.

Isso durou até a invasão do Congresso americano, a qual o então presidente é acusado de ter contribuído, incentivando apoiadores a tentarem evitar a posse de Joe Biden. 

A primeira plataforma a tomar uma atitude definitiva contra Donald Trump depois da rebelião no Congresso foi o Twitter. No dia 8 de janeiro de 2021, a rede social anunciou o fim da conta @realDonaldTrump, do ex-presidente. 

E quando Trump tentou contornar a suspensão passando a postar na conta @POTUS, o nome oficial do Gabinete do Presidente, a plataforma de mídia social removeu esses tuítes também. A conta da campanha Trump, @TeamTrump, foi igualmente suspensa.

Embora seus apoiadores continuem tuitando sobre suas teses, como a alegada fraude nas eleições e críticas às políticas de controle do coronavírus, alvos frequentes de ataques virulentos devem ter respirado aliviados. 

Entre eles está a imprensa, que se tornou objeto da ira do ex-presidente, inconformado com o noticiário negativo a seu respeito. O tamanho da ira foi medido pelo projeto US Press Freedom Tracker. 

Um levantamento dos 24,5 mil tuítes de Trump, do dia em que anunciou a candidatura até 8 de janeiro, mostrou que 2.500 deles foram contra jornalistas e veículos de imprensa tradicionais, numa perigosa estratégia para desacreditar o jornalismo. 

O presidente cunhou termos ofensivos, como Lamestream Media (um trocadilho com mainstream media, expressão que denomina os grandes veículos, e a palavra lame, que tem o sentido de algo fraco ou insatisfatório). 

O resultado dessa campanha foi visto na invasão do Capitólio. O slogan “Murder the Media” foi esculpido em uma das portas de madeira pelos manifestantes. 

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