Londres – O premiado jornalista e documentarista Brent Renaud, morto no domingo a tiros (13) em Irpin, na Ucrânia não é  o primeiro correspondente a perder a vida em uma guerra, mas tornou-se vítima em um conflito em que ser um profissional de imprensa não apenas deixou de garantir algum tipo de proteção como também virou motivo para ataques diretos.

Em relatório publicado em janeiro, a Unesco observou que o padrão de mortes no jornalismo havia mudado nos últimos anos, com fatalidades resultantes de atos direcionados superando aquelas ocorridas em bombardeios ou fogo cruzado mais comuns há cinco anos. 

Os casos da equipe da Sky News emboscada, do jornalista suíço que escapou de tiros, dos dinamarqueses agredidos e da morte do operador de câmera Yevheniy Sakun na explosão de uma torre de TV não parecem ter sido caso pessoal. Mas há um ponto comum: foram ataques a uma instalação de mídia e a profissionais identificados como jornalistas, o que se mostrou inútil para deter os agressores. 

Jornalista americano é o primeiro da mídia estrangeira morto na Ucrânia 

Brent Renaud, de 50 anos, teve pior sorte do que colegas jornalistas estrangeiros que quase foram mortos nas últimas semanas na Ucrânia. A polícia local confirmou que ele foi alvo de soldados russos.

Inicialmente, Renaud foi identificado pela mídia internacional como sendo do New York Times, porque portava um crachá do jornal obtido em um trabalho feito em 2015. Mas estava trabalhando de forma independente na Ucrânia. 

O profissional formava uma dupla com o irmão, Craig. Eles mantinham uma conta única nas redes sociais para os projetos profissionais.

Era premiado e experiente, já tendo coberto as guerras no Iraque e no Afeganistão, o terremoto no Haiti, a turbulência política no Egito e na Líbia, o extremismo na África, a violência dos cartéis no México e a crise dos jovens refugiados na América Central. 

Isso não o ajudou em uma guerra em que o país invasor elegeu a mídia internacional como inimiga a ser combatida, lançando mão de leis draconianas como a do agente estrangeiro e a recente lei de fake news , que pune com até 15 anos de cadeia os que divulgarem informações consideradas falsas pelo governo. 

Não há indicações de que os atentados a jornalistas, incluindo o que resultou na morte do jornalista americano, tenham sido orquestrados pelo Kremlin.

Mas o ambiente de animosidade contra a mídia estrangeira pode estar contribuindo para uma intolerância de forças militares ou de milícias. 

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É o que pensa o Centro de Proteção a Jornalistas, que tinha feito na semana passada um apelo para que as autoridades russas interrompam a campanha para sufocar a imprensa doméstica, e para que as forças armadas do país “parem de assediar jornalistas que cobrem a invasão da Ucrânia e garantir que a mídia possa trabalhar livre e com segurança”.

O vídeo da emboscada sofrida pela equipe da Sky News, mostra gritos desesperados dos que estavam dentro do carro avisando que eram jornalistas, o que no passado poderia ter servido para suspender o ataque.

Não foi o que aconteceu. Os gritos foram ignorados. Uma bala atingiu o correspondente-chefe Stuart Ramsay na parte inferior das costas, enquanto o operador de câmera Richie Mockler foi baleado duas vezes em seu colete.

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Poucos dias depois, em 6 de março, o jornalista suíço Guillaume Briquet foi ferido após ser alvejado em Mykolayiv, no sul da Ucrânia.

O CPJ relatou que no dia 5 de março, forças russas em Zaporozhye, na Ucrânia, dispararam contra um veículo que levava Viktoria Roshchina, jornalista do canal de televisão ucraniano independente Hromadske, de acordo com um post que o jornalista escreveu no Facebook.

Ela disse ter visto uma coluna de tanques russos. Quando os soldados abriram fogo contra o veículo, a jornalista escapou com o motorista para uma casa, e de longe viu soltados da Rússia abrindo o carro, que tinha um adesivo “Imprensa”, e roubando o laptop e a câmera.

Colega do jornalista americano contou como foi o ataque 

Um dos jornalistas feridos no atentado em que Brent Renaud morreu, Juan Arredondo, contou como tudo aconteceu enquanto era atendido no hospital, revelando um roteiro semelhante ao de alguns dos episódios anteriores. 

A conversa foi postada no Twitter pela jornalista italiana Annalisa Camilli. Arredondo não sabia ainda que o jornalista com quem trabalhava na guerra a Ucrânia havia sido morto. 

 “Alguém se ofereceu para nos levar para a outra ponte e cruzamos um posto de controle. Eles começaram a atirar em nós. Então o motorista retornou e eles continuaram atirando.

Éramos dois. Meu amigo é Brent Renaud, e ele foi baleado e deixado para trás… Eu o vi sendo baleado no pescoço .”

Entidades protestam contra ataques a jornalistas na Ucrânia 

“Estamos chocados com o número crescente de ataques a jornalistas na cobertura da guerra na Ucrânia ”, disse o secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas, Anthony Bellanger depois Brent Renaud foi morto.

“As mortes de Brent Renaud e Yevheniy Sakun não podem ficar impunes. As autoridades devem fazer todo o possível para identificar os autores desses crimes de guerra ”.

“Esses ataques sistemáticos a jornalistas e outros crimes de guerra exigem uma forte resposta da comunidade internacional”, acrescentou o secretário-geral da Federação de Jornalistas da Europa (EJF), Ricardo Gutiérrez. 

“A EFJ pede mais uma vez a criação de um tribunal internacional especial para estes crimes cometidos no contexto da invasão russa da Ucrânia. Esta espiral assassina deve ser interrompida! ”, disse Gutiérrez em resposta ao caso do jornalista americano morto. 

Assédio para transmitir propaganda russa sobre Ucrânia 

O CPJ afirmou que na cidade de Berdyansk, no sudeste da Ucrânia, as forças russas detiveram um grupo de cerca de 50 jornalistas em um escritório da empresa de mídia local PRO100 e tentaram persuadi-los a transmitir propaganda russa.

Os soldados pediram que os profissionais colaborassem com o exército russo e veiculassem conteúdo considerado propaganda, de acordo com uma declaração de Sergiy Tomilenko, chefe da União Nacional de Jornalistas da Ucrânia.

Segundo ele, os jornalistas se recusaram e os profissionais foram autorizados a sair.

A ONG enviou um e-mail para a administração militar regional de Zaporozhye e o Ministério da Defesa russo para comentários, mas não recebeu nenhuma resposta.

O CPJ enviou um e-mail para a administração militar regional de Zaporozhye e o Ministério da Defesa russo para comentários, mas não recebeu nenhuma resposta.

No dia 6 de março, as autoridades detiveram pelo menos 14 jornalistas que cobriram protestos antiguerra em toda a Rússia. Pelo menos cinco ainda enfrentam acusações, segundo o CPJ. 

Entre eles estão pelo menos sete profissionais do site de notícias Sota.Vision, de acordo com o editor da Sota.Vision, Alexei Obukhov, que se comunicou com o CPJ por aplicativo de mensagens.

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