Márcia Carmo, correspondente

Buenos Aires – Em entrevista ao MediaTalks para a edição especial sobre diversidade na mídia, a socióloga argentina Marita Carballo, especialista em questões de gênero, inclusão e comportamento, falou das barreiras para a diversidade, equidade e inclusão na sociedade e no jornalismo. 

Ela dirige a empresa de consultoria de mercado Voices Consultancy e foi presidente da Wapor (Associação Mundial para Pesquisa de Opinião Pública). 

A socióloga defende a necessidade de compromissos e atos para transformar a realidade da DEI na mídia que não se limitem à contratação de mulheres e integrantes de minorias ou à criação de editorias de gênero. 

O ‘teto de cristal’

“As barreiras para inclusão e diversidade estão ligadas às profundas desigualdades que limitam o desenvolvimento humano. E são diferentes em cada setor. 

A menor incorporação de mulheres e outros grupos nos cargos mais altos ocorre tanto no universo empresarial como na administração pública.

Ela é chamada de ‘teto de cristal’. Segundo o Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e Caribe, somente 28,5% dos ministérios da região são comandados por mulheres.”

O ‘cano vazando’

“Outro exemplo da desigualdade de gênero está na ciência. A identificação de vocações nas meninas não é suficiente para superar todos os estereótipos e limitações que elas enfrentam ao longo da vida, que condicionam a distribuição de tarefas diferenciadas por gênero e afetam a própria percepção que elas têm sobre suas capacidades e talentos. 

Esta barreira é conhecida como ‘leaky pipeline’, ou ‘cano com vazamento’, porque a imagem das goteiras descreve muito bem como mulheres e pessoas de outros grupos vão sendo transformados em minorias em suas trajetórias.”

Representação, problema regional e global

“A mídia forma representações sociais. E também nela, mulheres e outros grupos enfrentam limitações, obstáculos ou impedimentos pessoais ou profissionais. 

Existe claramente uma disputa cultural sobre o lugar das mulheres nos meios de comunicação. Segundo o Global Media Monitoring Project 2021, reportagens sobre igualdade de gênero não ocupam mais do que 7% do noticiário dos principais veículos de comunicação da América Latina

O mesmo acontece em nível global, com mau desempenho em relação à inclusão das mulheres como personagens centrais e fontes para a mídia. “

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Revisão na ‘mirada dos fatos’

‘”Incorporar a ‘mirada de gênero’ em toda a cobertura é uma tarefa enorme.

Exige uma revisão na forma de olhar os fatos, de redigir, de contar as histórias, de escolher as imagens.” 

Não basta incluir mulheres

“A participação das mulheres nos diferentes setores econômicos teve avanços e isso aconteceu também nas empresas jornalísticas. Incluir mulheres é importante, mas nem sempre se traduz em diversidade e inclusão.

É necessário um trabalho mais profundo de transformação.”

Mudanças não ocorrem por inércia

“Não podemos imaginar que mudanças acontecerão sem compromisso e trabalho para alcançá-las. Elas não ocorrem por inércia. 

Se os meios de comunicação tiverem maior enfoque de gênero em suas linhas editoriais, haverá uma mudança positiva. 

Mas a mudança não ocorre somente com a inclusão de uma “editoria de gênero” em um meio de comunicação, isolada das demais editoriais. 

Ela só acontecerá como resultado da adoção de uma perspectiva mais inclusiva e igualitária em toda a organização.”


Esta matéria faz parte do Especial MediaTalks Diversidade na Mídia. Leia a edição aqui.

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