Imigração, violações aos direitos humanos, discriminação racial entre africanos, colonialismo, doenças como albinismo, vitiligo, coronavírus e oncocerocose (uma pouco conhecida condição que afeta os olhos) e um olhar original sobre a arquitetura marroquina para extrair imagens geométricas que remetem ao modernismo. Temas, técnicas e linguagens visuais diversas foram empregadas por  fotógrafos de vários países que concorrem ao CAP Prize – Prêmio Internacional de Fotografia Contemporânea Africana. 

A competição acontece desde 2012, premiando anualmente profissionais cujas obras tenham sido produzidas no continente africano ou se relacionem com a diáspora africana. Na edição de 2021, os 21 jurados internacionais selecionaram 25 finalistas entre os cerca de 800 inscritos. Os ganhadores serão anunciados em junho durante a feira internacional de arte Photo Basel. Conheça alguns dos trabalhos finalistas. 


AÀDESOKAN – “Identidade de resíduos: Passaporte para plásticos”

Nascido em 1994 em Lagos, na Nigéria e morando atualmente em Amsterdã, Aàdesokan se apresenta como tendo sido influenciado pela exposição a várias metodologias psicanalíticas por seu pai psicólogo em uma idade precoce. O trabalho selecionado como finalista do CAP Prize é uma série associando a migração ao desperdício. Ele criou “passaportes” para ilustrar o que considera um paradoxo: a migração humana é inibida por fronteiras, mas os resíduos se movem sem barreiras: 

“Como indivíduo, não posso me mover tão livremente quanto os resíduos que gero. Estamos em uma realidade onde nossos resíduos viajam pelo mundo sem serem sujeitos a escrutínio ou suspeita. Minha identidade residual me permite um movimento sem fim, me permite o privilégio de me mover. Talvez incorporando essa identidade, o mundo seria fluido e permeável para mim, eu poderia ir a qualquer lugar e em qualquer lugar, viajando por toda parte, para os lugares mais remotos, sem controle, desimpedido …”

 


YETUNDE AYEMI-BABAEKO – “Persons with Albinism – White Ebony”

O fotógrafo nigeriano fez um trabalho com pessoas com albinismo (PWA, na sigla em inglês). A série retrata o destaque que a pele branco-amarelada do albino tem entre os negros. 

A Nigéria é o país desses albinos, suas famílias são nigerianas, eles falam, respiram e vivem a cultura Mas ainda se sentem como se não fosse parte de tudo. Ayemi-Babaeko quis mostrar que os albinos são africanos por completo, escondidos sob uma pele que simplesmente não tem melanina. Ele conta que se inspirou em pinturas da época do Renascimento ou do Barroco.

“Peguei emprestados, intencionalmente, a iluminação e os acessórios dos Grandes Mestres. Por seus cílios e sobrancelhas claros, os albinos sempre me lembram os reis e rainhas nas pinturas dos artistas renascentistas”.

No meu trabalho quero discutir a luta do albino. Aprendi a resistir, porque se você vive em um outro país é uma coisa. Mas se você nasceu e foi criado com pessoas que agora o discriminam, é outra”.

 


THAMI BENKIRANE – “White Writing”

Em seu trabalho, Benkirane tenta capturar uma fase fugaz no movimento de uma ou mais pessoas caminhando. A série inclui pessoas e também animais. Suas imagens são uma reminiscência dos experimentos que estabeleceram a cronofotografia, técnica fotográfica anterior ao cinema que capta movimentos em vários quadros, como se fossem frames dos filmes. A diferença é que, na série atual, a dinâmica do caminhar é captada no mesmo plano por meio de uma única fotografia. É uma espécie de cronofotografia instantânea. 

 


MARCOS TRAPPAUD BJORN – “Onchocerciasis”

O trabalho do fotógrafo dinamarquês foi produzido com uma câmera de fundo de olho, usada em clínicas oftalmológicas para examinar doenças como glaucoma e diabetes.  As fotos foram feitas na comunidade de Ganguni, em Taraba, na Nigéria, onde Bjorn capturou imagens de pessoas que sofrem de uma doença ocular chamada oncocercose. O resultado do trabalho é a transformação de uma doença terrível em lindas imagens que lembram planetas multicoloridos. 

A oncocercose é transmitida pela mosca negra, que vive perto dos rios em regiões rurais da África. Quando a pessoa é picada, uma larva do verme entra no corpo, produzindo milhares de microfilárias que invadem o organismo e viajam em direção aos olhos, causando graves danos à retina. É particularmente comum no continente, onde ocorrem mais de 99% de todos os casos. Quinhentas mil pessoas já estão cegas, 37 milhões estão infectadas e outras 120 milhões estão em risco. Ainda assim esta doença devastadora é quase desconhecida no mundo ocidental.

 


JUSTIN DINGWALL – “A set at the table”

O fotógrafo sul-africano partiu do ditado “um lugar à mesa” para representar a ideia de uma oportunidade de ser ouvido, de ser visto por ter uma voz e uma opinião e, desta forma, fazer a diferença. As imagens retratam o modelo Moostapha, que tem vitiligo. Segundo o fotógrafo, o trabalho teve como objetivo provocar uma discussão sobre ideias e percepções preconcebidas com base na aparência e como o que vemos afeta o que pensamos.

“Eu gosto de reinterpretar os objetos do cotidiano alterando ligeiramente sua aparência e apresentando-os de novas maneiras. O interessante é como as pessoas reagem a esses objetos alterados. Cada um interpreta com base em suas próprias experiências e percepções – a arte está nos olhos de quem vê. 

O motivo das pedras preciosas na pele de Moostapha em algumas obras veio das conversas que tivemos sobre sua vida e como o mundo o percebe como uma pessoa que vive com vitiligo. Ele me disse como se sente quando as pessoas olham e apontam para ele por ser diferente. Também usei as imagens de milhares de olhos para representar a sociedade e como olhamos para alguém que parece diferente. Nessas imagens, agora é Moostapha quem está olhando para o espectador. Questionando nosso olhar”. 

 


ANDREW ESIEBO – “Coro Angels”

O fotógrafo nigeriano Esiebo mostrou em seu trabalho a luta, nem sempre reconhecida, de médicos, enfermeiros, e técnicos de laboratório contra a Covid-19.  Ele conta que durante a primeira onda do coronavírus colaborou com o Centro de Controle de Doenças da Nigéria para documentar a resposta do país à pandemia global , sobretudo as atividades daqueles na linha de frente do combate ao vírus.

‘Coro’ é o termo coloquial para coronavírus na Nigéria e por isso sua série em homenagem a esses “heróis sem rosto”,  ganhou o nome de “Coro Angels”.

“Bem no início da crise, eu mesmo peguei o coronavírus e, enquanto me recuperava em casa, vi em primeira mão – não apenas como fotógrafo, mas como paciente – o enorme desafio que os serviços de saúde da Nigéria enfrentam. Portanto, usei meu trabalho para homenagear esses “anjos” e para lançar luz sobre algumas das experiências que alguns compartilharam comigo.

“Os trabalhadores usavam equipamento de proteção individual, o que os torna sem rosto. Era importante fotografá-los antes de ‘irem para a batalha’. Colocar um  halo de cor nas paredes dos espaços onde desempenhavam suas funções reflete seu sagrado papel e sacrifício”.

 


JASON FLORIO – The Gambia – Victims & Resisters Redux 

Florio e sua esposa Helen vivem e trabalham em Gâmbia desde 1998 e viram como o ex-presidente Yahya Jammeh controlava a sociedade por meio do medo, intimidação e violações dos direitos humanos. Isso durou 22 anos. Em janeiro de 2017, Jammeh fugiu para o exílio depois de uma derrota eleitoral. Foi então que tudo veio à tona – torturas, assassinatos, atos de violência sexual.

“A Gâmbia tem sido a nossa segunda casa e sentimos que é nosso dever como documentaristas dar rosto e voz às vítimas, sobreviventes e suas famílias. Apesar de centenas de testemunhos de vítimas e perpetradores na Comissão de Reconciliação e Reparações da Verdade, muitos partidários de Jammeh ainda negam os crimes. É importante continuar trazendo as histórias das vítimas à atenção do público”.

O fotógrafo conta que desde 2017 e ele e sua esposa produziram mais de 120 retratos e colheram depiomentos em vídeo. A ideia foi expor a escala dos abusos para criar um arquivo histórico que possa ser usado como ferramenta de  conscientização pública.

“No início do projeto, percebemos que muitas pessoas que se deixaram fotografar acharam isso catártico, por não terem sido capazes de contar abertamente suas histórias. Assim, nosso trabalho ganhou um significado adicional e profundo. Alagie Sonko, presa injustamente pelo regime, disse-nos “Não me importa o que façam com a minha fotografia ou a minha história, mas o fato de ter vindo me ouvir é suficiente.”

 


ZAINAB IMAD ELDIN – Colored Black 

“Coloured Black” investiga o racismo interno entre os sudaneses, mais comumente denominado colorismo, retratando uma mulher sudanesa e muçulmana. No Sudão, cada tom da cor da pele tem uma denominação, usada em um contexto racial. Os principais são: ‘almar’ (vermelho), ‘astar’ (amarelo), ‘asmar/bunni’ (marrom), ‘akhdar’ (verde) e ‘azrag’ (azul). Com o tempo o espectro se expandiu para incluir nomes de tons específicos de uma cor de pele. Embora sejam mencionados ao descrever alguém, eles também são usados de maneira depreciativa. A cor azul é particularmente conhecida porque é usada para descrever o Sudão do Sul. Azul refere-se ao preto-azulado, o tom mais escuro antes do preto.

“A ideia deste trabalho é começar a “desaprender” microagressões sutis e arraigadas. Escolhi as quatro cores primárias da escala para questionar o absurdo da discriminação. As fotos mostram o retrato, e a cor, em um momento congelado de seu processo de deterioração. Este lento processo de gotejamento de tinta alude ao processo vitalício de desaprender ativamente o racismo. As fotografias são organizadas em ordem do tom mais claro ao mais escuro, cada cor em sua própria linha.

Usei um projetor para projetar cada cor em mim contra uma parede branca e fiz as fotos. Com uma impressora a jato de tinta, imprimi as imagens em acetato transparente, digitalizei-as assim que saíram da impressora e pendurei-as na parede. A cada 20-30 minutos, eu as levava de volta, examinava e pendurava novamente. O tempo de espera varia com cada cor de tinta, então eu às vezes digitalizava a cada 5 a 10 minutos e às vezes esperava 40 minutos ou até mais do que algumas horas. O resultado final é uma impressão da digitalização”.

 


TAMARY KUDITA – African Victoria

As fotos de Kudita procuram transmitir as questões de invisibilidade, recontextualização, apropriação e subversão de ideias pré-concebidas da personalidade negra.

“Inspirada em minha linhagem ancestral de raça mista, minhas imagens mostram personagens sobrepostos. As pessoas retratadas usam vestidos africanos parcialmente transformados em trajes reais vitorianos. Ao reconfigurar os “vestidos africanos como vestidos vitorianos”, eu inverto o poder social indexado pelo vestido vitoriano e uso as roupas de maneira que desvendem conceitos herdados que assombram o entendimento das diferenças na África pós-colonial.


 


ADIL KOURKOUNI – Utopic Perception

A série foi produzida em Marrakech, no Marrocos, a partir da observação de construções urbanas durante caminhadas e viagens diárias em diferentes momentos do dia. Adil Kourkouni voltava ao local e fotografava o equilíbrio entre o céu e as paredes ocres da cidade.

As fotografias de fragmentos recortados tornaram-se composições gráficas minimalistas, abstrações geométricas que segundo o fotógrafo evocam o mundo dos artistas abstratos Esther Stewart e Frederick Hammersley.

“Minhas fotografias revelam tramas utópicas cuja contemplação nos transporta para além da angústia original provocada pela fria repetição da geometria urbana. As fotos foram tiradas com uma câmera Nikon e uma lente 35-18 mm, com algumas modificações de corte, matiz e saturação, vibração e equilíbrio de cores. É como diz  [o poeta] Edouard Glissant: “Utopia é o que nos falta.”

 

 
As imagens foram publicadas com autorização do Cap-Prize e não podem ser reproduzidas. 
 
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