O endosso do astro da Fórmula 1 Lewis Hamilton à iniciativa da estrela do tênis Naomi Osaka, que na última segunda-feira abandonou as quadras do torneio de Roland Garros após a polêmica decisão de não participar das entrevistas coletivas à imprensa que acontecem após as partidas, adicionou ainda mais peso ao debate aberto pela tenista japonesa.

Um debate que atinge a prática que é parte integrante dos contratos de marketing esportivo: as entrevistas em que perdedores e ganhadores são sabatinados pela imprensa tendo ao fundo banners exibindo as logomaras dos patrocinadores. Enquanto os atletas são questionados por sua performance, empresas ganham visibilidade planetária. 

Também houve apoio de um dos patrocinadores que ajudaram a elevar os ganhos de Osaka para US$ 55,2 milhões nos últimos 12 meses, de acordo com o site de negócios esportivos Sportico. A Nissin Foods disse que espera que ela se recupere rapidamente.

 “Acima de tudo, desejamos a recuperação mais rápida da Sra. Naomi Osaka e esperamos que ela continue a ter um bom desempenho.”

A Nike elogiou a coragem de Osaka em compartilhar sua experiência de depressão, enquanto a Mastercard disse que “a decisão de Naomi Osaka lembra como é importante priorizar a saúde e o bem-estar pessoal”. A montadora japonesa Nissan foi outra que solidarizou-se com a embaixadora de sua marca.

Lewis Hamilton entra na briga

Na entrevista desta quinta-feira no Azerbaijão, sede do próximo Grande Prêmio de Fórmula 1, Hamilton criticou a reação dos organizadores dos torneios do Grand Slam, que emitiram uma nota dura contra a atleta e aplicaram multa de US$ 15 mil. “Não foi legal”, disse ele.

O piloto demonstrou simpatia ao motivo apresentado por Osaka, de 22 anos, para não dar entrevistas: o impacto sobre a sua saúde mental, abalada por perguntas que no entendimento da jovem fazem o atleta ter dúvidas sobre sua própria capacidade. 

Para Hamilton, a maioria dos atletas “não está preparada” para o sucesso. E as pressões da fama “pesam muito”. Ficar diante da câmera pode ser assustador, disse. 

Hamilton acha que Osaka foi “incrivelmente corajosa” ao assumir sua posição. E pediu às autoridades do tênis que reconsiderassem sua resposta.

Leia também: Agências globais de Relações Públicas detém 22% da receita do setor no Brasil, que foi de R$ 3 bilhões em 2020

Lewis Hamilton não foi o único. Nos últimos dias, diversos atletas e até patrocinadores, os maiores interessados em vincular suas marcas aos atletas, soliarizaram-se com Naomi Osaka. E isso pode acabar fazendo com o que os grandes eventos esportivos tenham que rever a prática que se tornou habitual, fazendo parte dos contratos com os atletas participantes. 

Porque a história de Osaka é diferente

A situação de celebridades em crise que passam a ver como inimigos os jornalistas que fazem perguntas incômodas e exploram seus pontos fracos não é incomum. Mas o que aconteceu com a tenista japonesa é diferente do enredo habitual mídia x famosos em crise em vários aspectos.

Um deles é que, ao surpreender os fãs, os jornalistas e os organizadores do campeonato, anunciando pelo Twitter no dia 26 de maio que não iria participar das coletivas obrigatórias em Roland Garros, ela o fez sem estar pressionada por um problema em particular. Nem vivendo um declínio acentuado na carreira.

Foto: Divulgação Naomi Osaka/Twitter

Osaka consagrou-se em 2020 como a atleta de maior faturamento em um só ano na história do esporte. Integrou a lista de pessoas mais influentes do mundo da revista Time em 2019 e 2020.

Mas tem 22 anos. Se para muitos executivos ou políticos experientes o momento de uma coletiva é assustador, é compreensível que para uma quase menina a experiência seja aterrorizante.

A tenista não deve ser a única atleta a ter calafrios na hora de enfrentar a mídia. Mas foi a primeira que verbalizou isso com tal magnitude. Depois da reações, na segunda-feira (31/5) jogou a raquete ao chão e desistiu de competir na França.

Alguns podem pensar que o problema está nela, e que precisa de acompanhamento para lidar melhor com a pressão e as perguntas incômodas sem se abater. Individualmente, talvez seja uma solução.

Mas a japonesa não é uma atleta qualquer. Uma de suas características é o engajamento em causas. Expressou apoio ao movimento Black Lives Matter em várias ocasiões. Retirou-se do Cincinnati Open de 2020, em Nova York, em protesto contra o assassinato de Jacob Blake, levando o torneio a adiar as partidas como forma de apoio.

Por isso, seu movimento pode ter efeito mais transformador do que o choro de uma celebridade em crise com a mídia ao ser atropelada por um escândalo. E ir além de uma questão individual.

Efeito multiplicador

 Nos últimos dias, vários atletas falaram mais abertamente sobre as coletivas depois de partidas, incluindo a tenista Serena Williams. Porque nas quadras, nos campos, nos ringues, eles parecem semideuses. Mas são pessoas com fragilidades e medos, exacerbados pela sua posição e pela responsabilidade diante de fãs e patrocinadores, como bem salientou Lewis Hamilton.

Nas entrelinhas das manifestações nas redes sociais, há sinais de que a intenção de Naomi Osaka pode ser mesmo mais do que resolver seu próprio problema com os jornalistas. Quando reagiu à notícia da multa, alfinetou os cartolas dizendo que “mudança deixa as pessoas desconfortáveis”.

Ao comunicar o afastamento temporário das quadras, afirmou querer reunir-se com os organizadores do Grand Slam para melhorar o processo para os jogadores, para a imprensa e para os torcedores.

Talvez os que assinaram uma longa nota explicando porque a atleta estava sendo punida não tenham percebido a extensão do problema. Abriram a possibilidade de diálogo de forma protocolar, mas o texto é duro, apegando-se ao contrato. A fala de Lewis Hamilton no Azerbaijão questionou justamente isso. 

Se estiverem analisando a repercussão do caso nas redes sociais terão visto que a reação positiva é quase unânime. E que Naomi Osaka vai sentar-se à mesa com o respaldo de uma parcela significativa da comunidade de fãs e de atletas.

Não vai ser fácil equilibrar tantos pratos: a privacidade dos esportistas em grandes competições, o desejo dos patrocinadores de expor suas marcas e a necessidade da imprensa de conversar diretamente com os astros.

Mas em um momento em que saúde mental é uma questão cada vez levada mais a sério, é possível que mudanças defendidas por Naomi Osaka na relação entre atletas e imprensa nos grandes torneios sejam uma questão de tempo.

Leia também

Blog de Donald Trump chega ao fim menos de um mês após lançamento

Agências globais de Relações Públicas detém 22% da receita do setor no Brasil, que foi de R$ 3 bilhões em 2020

Como o príncipe William está assumindo o protagonismo na comunicação da família real britânica