A elegância com que o Palácio de Buckinghan vem lidando com ataques de Harry e Meghan, que nos últimos meses elevaram o tom das críticas públicas à família real, e com a disseminação de notícias supostamente inverídicas sobre o relacionamento com os parentes, deve mudar a partir de agora. Ao decidir passar a responder à altura na mídia, a Rainha Elizabeth II quebra um padrão histórico da coroa britânica, que é o chamado “nunca reclame, nunca explique”, evitando ao máximo debater via imprensa o que acontece entre os muros dos palácios reais. 

A mudança foi revelada neste domingo pelo jornal Mail on Sunday, referindo-se a “fontes do Palácio”. Na mídia britânica, isso costuma significar mais mais do que especulação de um tabloide sensacionalista, e sim que a informação foi passada ao jornal, com um pedido de que não fosse divulgada a fonte.

Mas o recado foi dado, e bem dado, estampando a primeira página de um dos jornais mais populares do país. A “fonte”do jornal informou que o episódio do nome da filha de Harry e Meghan empurrou a Rainha, de 95 anos, “para além do limite”. E que ela lutaria contra a “máquina de assessores de Los Angeles”, que seriam assessores e amigos do casal na Califórnia, onde vivem. 

A confusão começou quando o nascimento de Lilibet “Lili”Diana (o segundo nome homenageando a princesa Diana, mãe de Harry) foi anunciado em um comunicado emitido pelo casal, no dia 6 de junho.

Lilibet é apelido íntimo da rainha, usado apenas pelos mais próximos (como os pais, a irmã e o príncipe Philip, todos já falecidos), o que desencadeou especulações sobre se ela saberia da homenagem ou se teria autorizado. Comentaristas da mídia britânica consideraram desrespeitoso e acharam improvável que a rainha tivesse concordado. 

Diante da reação, pessoas ligadas ao casal apressaram-se em informar à mídia americana que a permissão tinha sido pedida. Um porta-voz do casal disse: “O duque falou com sua família antes do anúncio. Na verdade, sua avó foi o primeiro membro da família para quem ele ligou. Durante essa conversa, ele compartilhou sua ideia de nomear Lilibet em sua homenagem. Se ela não tivesse apoiado, eles não teriam usado o nome”. 

Mas ele não disse que ela concordou, e o “compartilhou sua ideia” parece ter sido mais um comentário vago do que um pedido formal. 

A notícia saiu em destaque no jornal New York Post, um tabloide sensacionalista que apoia Donald Trump abertamente, foi suspenso do Twitter algumas vezes e em abril  viu-se envolvido numa controvérsia quando uma jornalista pediu demissão após denúncia do jornal Washington Post sobre a manipulação de uma reportagem contra a vice-presidente Kamala Harris. 

O Palácio continuou oficialmente quieto, mas citando fontes oficiais, o jornalista da BBC Jonny Dymond, especializado na cobertura da coroa britânica, desmontou a versão, tuitando no dia 9 de junho que a rainha “nunca foi perguntada” – e não foi desmentido pelo Palácio. Depois, ele escreveu uma matéria confirmando a informação para o site da BBC. 

Harry e Meghan ficaram revoltados e instruíram advogados a notificar a BBC e o jornalista, classificando a informação de “falsa e difamatória“. Advogados escreveram também a outros meios de comunicação pedindo para não reproduzirem a história, mas não adiantou, até porque o caso caiu nas redes sociais. 

Ainda assim, as informações desencontradas continuaram a circular. Amigos dos Sussex também revelaram a jornalistas americanos que a rainha teria participado de uma videochamada para conhecer a bisneta. O próprio New York Post publicou a informação, igualmente negada por pessoas próximas ao Palácio, mas sem uma manifestação oficial. 

No entanto, a mesma fonte que disse ao Mail on Sunday que o Palácio vai passar a responder o que considerar inverdade garantiu que “nenhuma videochamada ocorreu”. E acrescentou que a prática de amigos do casal passaram histórias falsas à imprensa levou a rainha ao limite. 

Isso explica a decisão de mudar o protocolo histórico. Em vez de liberar informações por fontes não identificadas como vem sendo feito até hoje, a conduta deverá ser corrigir publicamente qualquer declaração considerada “imprecisa”.  Ou que “deturpem conversas privadas ou de outros membros da realeza sênior”, como disse a fonte ao Mail on Sunday. 

Essa é uma referência ao mais duro ataque feito pelo casal à família durante a entrevista dada em março à apresentadora americana Oprah Winfrey. Meghan disse que pessoas da família teriam questionado Harry sobre qual seria a cor de seu filho com Meghan, disparando uma onda de críticas à existência de racismo na Coroa britânica e também na imprensa. E que esse teria sido um dos motivos para o casal mudar para os Estados Unidos. 

Quem respondeu imediatamente na época foi William, irmão de Harry, que disse “não somos uma família racista”. Dias depois o Palácio de Buckingham abriu uma investigação oficial sobre as alegações, e disse ‘as lembranças podem variar’, sugerindo uma memória imprecisa sobre conversas de conotação racista, uma forma sutil de dizer que poderiam estar sendo distorcidas ou inventadas. 

O próprio casal revelou uma certa contradição durante a entrevista. Meghan disse que foram várias pessoas a comentar sobre a cor do filho. Harry disse que foi uma só, mas o nome da pessoa nunca apareceu, gerando boatos sobre se teria sido o príncipe Philip ou Kate Middleton, com quem Meghan nunca se entendeu conforme informações de bastidores. 

Meghan aparece frequentemente como a bruxa má que faz os ataques. Mas o próprio Harry não tem medido as palavras para falar da família. Em maio, ele criticou em um podcast sobre saúde mental a maneira como foi criado pelo príncipe Charles, falando sobre “dor e sofrimento genéticos” na família real, e enfatizando que ele queria “quebrar o ciclo” na educação de seus filhos.

Ele referiu-se não só a pai, mas ao avô recém-falecido, o príncipe Philip, cujo suposto rigor com o príncipe Charles foi um dos temas mais sensíveis abordados no seriado The Crown. O teor do comentário e o momento nada oportuno podem ter  contribuído para a rainha deixar o distanciamento e decidir partir para o contra ataque na mídia. 

O aniversário da Rainha 

A decisão de rebater Harry e Meghan não mudou o comportamento público da rainha Elizabeth, que neste sábado (12) assistiu às comemorações oficiais pelo seu aniversário. Ela completou 95 em abril, mas tradicionalmente a festa acontece no segundo sábado de junho, quando o tempo mais quente permite a realização de uma parada musical que se encerra com o show aéreo “Trooping the Color”. 

Elizabeth assistiu à festa parecendo feliz da vida, diante do Palácio de Windsor, onde passou a viver a maior parte do tempo, deixando o Palácio de Buckinghan reservado para as cerimônias oficiais. 

Mais tarde exerceu o papel simbólico de Chefe de Estado, posando para uma foto com os líderes do G7, que estão reunidos em uma conferência de cúpula em St.Ives, na Cornualha. Cortou um bolo com uma espada e brincou na hora da fotografia, mostrando humor afiado: “Devemos fazer cara de que estamos nos divertindo”? 

Foto: Divulgação The Royal Family

Neste domingo ela recebe o presidente dos EUA, Joe Biden e sua primeira-dama, Jill, ao Castelo de Windsor.

O futuro dos Sussex 

Enquanto o príncipe William está cada vez mais em alta como representante da família real, tendo sido colocado à frente de um delicado trabalho de aproximação com a Escócia para tentar conter o movimento separatista no país, Harry se afasta cada vez mais. 

Pelas regras de sucessão, Lilibet Diana tem direito a ser uma princesa, e o filho de dois anos, Archie um príncipe – ambos podendo ostentar os títulos de Sua Alteza Real,  após a morte da Rainha e quando o príncipe Charles se tornar rei. Isso ocorre porque eles terão subido na linha de sucessão. 

Foto: Divulgação Duke e Duquesa de Sussex

No entanto, muitos defendem que eles deixem os títulos já que se distanciaram da família e fazem críticas abertas à Coroa britânica e aos parentes. A mudança de comportamento diante da mídia pode aprofundar a divisão já existente. 

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