Dizem que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Talvez isso explique porque uma agência global de relações públicas tenha levado quase uma semana para agir depois de um escândalo envolvendo seu CEO, atitude que vai de encontro aos princípios elementares da gestão de crises.

Agências gerenciam crises dos outros. Na rara situação em que o alvo do problema é ela própria, a perplexidade pode embotar o raciocínio. Parece ser o que aconteceu com a Teneo, empresa com sede em Nova York e escritórios em mais de 30 países.

Na terça-feira (29/6), depois de uma semana sangrando desde que o Financial Times revelou que o CEO Declan Kelly tinha sido afastado do conselho da ONG Global Citizens por ter assediado homens e mulheres depois de uma bebedeira em evento beneficente da entidade, ele deixou a empresa.

Declan Kelly

Pode não ser o fim para um consultor que já assessorou Hillary Clinton. Mas a agência chamuscada, com pelo menos uma conta perdida, a da General Motors – cuja CEO, Mary Marra, também tinha sido assessorada por Kelly.

Do outro lado do Atlântico, outra crise acontecia. O secretário nacional de saúde do Reino Unido, Matt Hancock, sangrou 24 horas até pedir demissão do cargo ao qual ainda tentou agarrar-se ao máximo.

Mas não havia como se defender das fotos mostrando um tórrido beijo com sua assessora de comunicação, Gina Coladangelo, dentro do gabinete – um furo do tabloide The Sun.

Embora a sociedade britânica tenha aura de puritana, o que indignou não foi o fato de os dois serem casados, e sim o que se tornou o ponto mais nevrálgico em vários países, incluindo o Reino Unido: os sacrifícios da população em nome do combate ao coronavírus, privando as pessoas de se divertirem, trabalharem e até velarem seus mortos.

Enquanto o povo não podia se aproximar de pessoas que não viviam na mesma casa, o homem que se tornou a face mais conhecida da pandemia e que chegou a dizer que era perigoso abraçar avós aparecia agarrado com uma pessoa de fora da sua “bolha doméstica”. Hipócrita foi um dos adjetivos mais utilizados na imprensa e nas mídias sociais para se referir a um político em ascenção que agora corre o risco de nem ser reeleito em sua comunidade. 

O episódio de Hancock lembra um matriosca, o brinquedo russo composto por bonecas encaixadas umas dentro das outras, que vão se revelando à medida que são abertas. A história teve desdobramentos que comprometem a ele e ao governo, como a forma de contratação da assessora e contratos firmados com o irmão dela.

E ainda: como alguém plantou uma câmera no gabinete de um alto funcionário público sem que ele próprio soubesse. Ou porque ele usou Gmail para tratar de assuntos oficiais, deixando a comunicação inacessível para jornalistas e entidades fiscalizadoras. Uma boneca após a outra.

Liderança pelo exemplo

As histórias de Declan Kelly e a de Matt Hancock com Gina Coladangelo estão separadas por um oceano e por culturas sociais e empresariais diferentes. Mas há semelhanças. Ambas envolvem especialistas em comunicação, justamente aqueles encarregados de aconselhar marcas e pessoas.

No caso de Gina Coladangelo, não foi um incidente fortuito. Todas as evidências são de que o romance não começou no dia do beijo capturado pela câmera instalada em um sensor de fumaça.

Só a cegueira do amor pode explicar porque ela não aconselhou seu assessorado sobre como lidar com o caso extraconjugal sem riscos de que se tornasse público da forma como acabou acontecendo. Algo previsível em um mundo tomado por câmeras de segurança e de pessoas com celulares à mão para flagrar indiscrições de famosos.

E no caso do político, a mesma cegueira pode ter ofuscado sua capacidade de avaliação de risco sobre quebrar o isolamento social quando era ele próprio seu principal defensor.

Matt Hancock (foto: Twitter)

E em outras ocasiões ter chegado a sugerir que um cientista do grupo de assessoramento do governo para a pandemia deveria ser investigado criminalmente por ter se encontrado com uma amante. 

No caso de Declan Kelly, é surpreendente que com tanta experiência não tenha previsto que o afastamento do conselho da Global Citizens acabaria vazando. E que tenha demorado tanto para deixar o cargo depois da matéria do FT.

De um lado e de outro do Atlântico, parece ter sido esquecida a lição que aprendemos com nossos pais e avós: a liderança pelo exemplo.

Para que tem imagem pública a zelar ou cuida da imagem dos outros, não dá para ensinar a fazer alguma coisa sem fazer o mesmo. Ou ditar regras sem segui-las pessoalmente. O preço é alto, como se pode ver nos dois casos.

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