MediaTalks em UOL

Pesquisas não encontram provas de que redes sociais viciem ou causem distúrbios emocionais

Foto: Priscilla du Preez/Unsplash

Novas tecnologias costumam ao mesmo tempo causar deslumbre e desconfiança, e isso não poderia ser diferente com as redes sociais. O hábito de checar likes, conferir vídeos no TikTok, ler e escrever comentários e olhar fotos de outras pessoas tem sido alvo de pesquisas que buscam responder se há nessa rotina um perigo de vício ou de distúrbios emocionais. 

Para quem não desconecta ou vive ao lado de quem não desgruda das redes sociais, é bom saber que o hábito pode até ser antissocial, mas não há ainda evidências científicas de que se constituam em vício ou provoquem desequilíbrio.

Essa posição é endossada pela Associação Americana de Psiquiatria, que não classifica o uso excessivo de mídias sociais como uma dependência. E foi confirmada por três pesquisas recentes. 

Uma delas foi feita pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford e divulgada em maio. Os pesquisadores examinaram dados de mais de 430 mil  adolescentes no Reino Unido e nos Estados Unidos para compreender a associação entre o uso de tecnologia por adolescentes e a saúde mental nos últimos 30 anos.

E concluíram que não é possível, ao menos por enquanto, afirmar que assistir a muita TV ou ficar grudado no Facebook tenha sido um fator responsável por causar depressão, problemas de conduta ou mesmo tendências suicidas.

“A sugestão de que as tecnologias com as quais mais nos preocupamos agora (como smartphones) estão se tornando mais nocivas não foi sustentada de forma consistente nos dados analisados ​​pela equipe de pesquisa”, afirma o boletim da universidade.

Pesquisa conclui que redes sociais não desviam foco da maneira que vícios fazem

Em outra pesquisa, três pesquisadores britânicos das universidades de Strathclyde e Caledônia de Glasgow investigaram se o hábito de consultar notícias, acompanhar a vida dos amigos e seguir celebridades pode ser considerado um vício ou apenas um uso frequente da tecnologia. 

Para obter a resposta, eles fizeram um experimento para identificar se os participantes apresentavam um comportamento considerado elemento-chave de qualquer vício: o chamado viés de atenção, que significa uma tendência maior em ter o foco capturado por objetos ou imagens relacionadas ao vício.

Leia também: Tinder aposta em vídeo e chat antes do “match” para se adaptar à paquera da Geração Z

Os coordenadores da pesquisa explicaram que esse tipo de comportamento aparece tanto em viciados em substâncias químicas (como álcool) quanto não-químicas, como jogos de azar. Os 100 participantes foram expostos a uma tela de iPhone e e tinham que identificar um aplicativo determinado (Siri ou câmera) o mais rápido e precisamente possível, ignorando outros aplicativos na tela, que serviam como “distração”.

Eles  foram divididos em três grupos. Para o primeiro, os aplicativos de distração exibidos na tela não eram de mídia social. Para o segundo, havia entre as opções um ícone de alguma rede social como Facebook, Twitter, Instagram ou Snapchat. Para o terceiro grupo, o ícone do aplicativo aparecia mais atrativo, com um sinal vermelho de notificação ativa.

Os resultados, porém, não detectaram a presença desse “viés de atenção” ligado a redes sociais. O estudo não encontrou evidências de que participantes que checavam e postavam no Facebook dez vezes ao dia eram mais propensos a ter sua atenção capturada pelos outros aplicativos de distração (com notificações ou não) do que as pessoas que verificavam seus perfis no Facebook apenas uma vez por semana. 

Os pesquisadores são cautelosos em afirmar que o vício em redes sociais não existe, salientando que os efeitos das plataformas digitais sobre a saúde e sobre o comportamento dos usuários são ainda pouco estudados.

“Nosso estudo fornece algumas evidências para apoiar o lado do debate que sugere que devemos ter cuidado para não ‘patologizar demais’  o uso da mídia social, E que seu uso frequente pode não se encaixar  nas estruturas tradicionais de dependência.”

Mídias sociais x jogos de azar

Em um terceiro estudo, feito na Universidade South Wales, pesquisadores descobriram que a facilidade de acesso a aplicativos leva a níveis cada vez mais altos de vício em jogo. E acreditam que processos psicológicos semelhantes podem estar em funcionamento nas plataformas de mídia social, onde a necessidade de validação, desejo e verificação de gostos é ampliada.

“Explicações comportamentais de como os vícios se desenvolvem enfatizam o poder do reforço. Os produtos de jogos de azar costumam usar a forma mais poderosa de reforço:  a compensação randômica. Isso é potencialmente semelhante à forma como os usuários de redes sociais recebem validação na forma de curtidas”.

Eles lembram, no entanto, que uso excessivo crônico das plataformas pode até ser visto por alguns estudiosos como um vício em redes sociais, mas não é atualmente reconhecido como tal pela Associação Americana de Psiquiatria. E apontam diferenças importantes entre o uso excessivo de mídia social e de substâncias que causam dependência. 

“Afastar-se de substâncias químicas costuma ser fisicamente desagradável e às vezes perigoso sem supervisão médica. Os usuários costumam sofrer estigma, o que pode ser uma barreira para a busca de ajuda. Mas ainda não foi estabelecido que há efeitos de abstinência física quando as pessoas param de usar as redes sociais.”

Vale lembrar que os vícios comportamentais, como os de substâncias, costumam ocorrer ao lado de outros problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, sugerindo que a vulnerabilidade pode ser multifacetada. Isso também pode ser verdadeiro para o uso excessivo de mídia social.

Leia mais

Pesquisa de Cambridge mostra como a raiva gera mais cliques que o amor nas redes

 

 
Sair da versão mobile